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Os antibióticos são sempre para tomar até ao fim. Ou não?

Sociedade

A Organização Mundial da Saúde diz que sim, mas novos estudos alertam que pode não ser bem assim, confirmando a ligação entre o consumo de antibióticos e a resistência aos mesmos em humanos e animais produtores de alimentos

Seguramente, todos nós já fomos alertados pelo nosso médico de que temos de tomar o antibiótico até ao fim, não antecipando assim o fim do tratamento. A tentação é grande, pois quantas vezes passados três ou quatro dias já nos sentimos melhores e ainda há comprimidos na lamela para outros tantos dias?

A Autoridade Europeia Para a Segurança dos Alimentos, a Agência Europeia de Medicamentos e o Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças estão preocupadas com o impacto do uso de antibióticos no aumento de bactérias resistentes aos próprios antibióticos. Um novo relatório das três agências apresenta novos dados sobre o consumo de antibióticos e a resistência aos mesmo e reflete uma melhor vigilância em toda a Europa.

“Para conter a resistência aos antibióticos, precisamos lutar em três frentes ao mesmo tempo: humana, animal e do meio ambiente. Isto é exatamente o que estamos a tentar fazer na União Europeia e globalmente com nosso plano de ação recentemente lançado”, diz Vytenis Andriukaitis, Comissário Europeu para a Saúde e Segurança Alimentar. “Este novo relatório confirma a ligação entre o consumo de antibióticos e a resistência a antibióticos em humanos e animais produtores de alimentos.”

Um outro grupo de especialistas, liderado por Martin Llewelyn, professor de doenças infecciosas na escola de medicina de Brighton e Sussex, sugere que os pacientes devem interromper a toma de antibióticos quando se sentem melhor, em vez de levar a prescrição médica até ao fim.

Tradicionalmente, os pacientes têm sido informados pelos médicos de que devem completar a toma dos antibióticos, seguindo a teoria de que tomar muito poucos comprimidos vai permitir que as bactérias se tornem mais resistentes. Martin Llewelyn e os seus colegas, citados pelo jornal The Guardian, afirmam que este não é o caso. Numa análise publicada no British Medical Journal, dizem que “a ideia de que a interrupção precoce do tratamento antibiótico encoraja a resistência aos antibióticos não é apoiada por provas". "Ao tomar antibióticos por mais tempo do que o necessário aumenta o risco de resistência”, concluem.

Existem algumas doenças em que a bactéria pode tornar-se resistente se o medicamento não for tomado por tempo suficiente. O exemplo mais óbvio é a tuberculose, explicam. Mas a maioria das bactérias que fazem com que as pessoas adoeçam são encontradas nas mãos, como a E. coli e Staphylococcus aureus. As pessoas ficam doentes apenas quando o vírus entra na corrente sanguínea ou no intestino. Quanto mais essas bactérias estiverem expostas a antibióticos, mais provável é que a resistência se desenvolva.

Os especialistas alegam que tem existido pouca pesquisa sobre a duração ideal da toma de antibióticos, e que também pode variar consoante o organismo da pessoa e o seu historial passado de antibióticos.

“Sempre pensei que seria ilógico dizer que parar o tratamento antibiótico inicialmente promovia o surgimento de organismos resistentes a drogas”, disse Peter Openshaw, presidente da Sociedade de Imunologia britânica, saindo em defesa deste estudo. “Esta revisão breve mas credível apoia a ideia de que os antibióticos podem ser usados com mais moderação, ressaltando que a evidência para uma longa duração da terapia é, na melhor das hipóteses, ténue. Longe de ser irresponsável, reduzir a duração de uma toma de antibióticos pode tornar a resistência aos antibióticos menos provável”, acrescenta.

Já em 1999, o professor Harold Lambert tinha chamado a atenção para esta questão num artigo da Lancet intitulado Não continue a tomar comprimidos, lembra agora ao The Guardian Alison Holmes, professora de doenças infecciosas no Imperial College de Londres. “O professor continua surpreendido por ainda não sabermos mais sobre a duração ótima das tomas (…), mas esse dogma tem sido generalizado e persistente”.

Para Jodi Lindsay, professora de patogénese microbiana na Universidade St Georges, em Londres, “a evidência de tomas mais curtas serem iguais a tratamentos mais longos, em termos de cura ou resultado, geralmente é boa, embora mais estudos ajudem e há algumas exceções quanto a tomas mais longas serem melhores – por exemplo, tuberculose”.

Mas o Royal College of General Practitioners expressou preocupações: “As tomas recomendadas de antibióticos não são aleatórias”, afirmou a presidente, a professora Helen Stokes-Lampard. “São adaptadas às condições individuais e, em muitos casos, as tomas são bastante curtas. Para as infeções urinárias, por exemplo, três vezes é suficiente para curar a infeção.”