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Afinal, os telemóveis e o wifi não fazem mal?

Sociedade

Yagi Studio / Getty Images

Um comité de especialistas espanhol desmontou todos os estudos realizados até 2016 sobre os supostos riscos das ondas eletromagnéticas. E concluiu que não existem provas de que o uso de telemóvel ou a exposição às radiofrequências emitidas pelas antenas possam ser nocivos para a saúde

O assunto tem preocupado muito boa gente. Nos últimos anos, multiplicaram-se as campanhas contra a existência de antenas de telemóvel junto de habitações ou escolas. As ondas eletromagnéticas seriam potencialmente nocivas, havia que afastá-las das pessoas. Em 2011, a Organização Mundial de Saúde (OMS) chegou inclusive a incluí-las no grupo 2B da classificação de elementos cancerígenos – categoria em que entra tudo o que é “possivelmente cancerígeno”.

Mas esta semana o Comité Científico Assessor em Radiofrequências e Saúde (CCARS), um órgão independente espanhol criado em 2005, sob a égide da Universidade Complutense de Madrid, e cuja direção foi assumida no ano passado pela Ordem de Engenheiros de Telecomunicação, apresentou um relatório que desmonta 350 estudos, concluindo que os níveis de exposição na Europa “estão a centenas ou milhares de vezes abaixo dos recomendados pela União Europeia, a OMS e a Comissão Internacional de Proteção Contra a Radiação Não Ionizante (ICNIRP)”

Entre outras coisas, lê-se no relatório que “a maioria dos estudos demonstra que as pessoas com hipersensibilidade eletromagnética não são capazes de detetar quando estão expostas”.

Um dos estudos dado com exemplo foi realizado pela investigadora húngara Zsuzanna Dömötör, que pediu a 72 pessoas que se queixavam de fadiga, vertigem e náuseas quando expostas às ondas eletromagnéticas produzidas pelos sistemas de wifi, telemóveis ou ecrãs de computador, para descreverem o que estavam a sentir ao serem submetidas a um suposto campo eletromagnético. Embora Dömötör não tenha introduzido nada no ambiente, estas pessoas que se diziam “eletrosensíveis” ficaram ansiosas e apresentaram sintomas vindos do nada.

Os sintomas podem ser reais e incapacitantes, escreveram os especialistas no relatório. Mas “alguns estudos atribuem estes sintomas a condições pré-existentes, assim como a reações de stresse em resultado da preocupação acerca dos efeitos dos campos eletromagnéticos na saúde”.

4G e pacemakers

Não é a primeira vez que o CCARS analisa estudos sobre ondas eletromagnéticas. Já o fizera em 2013, mas agora os especialistas incluíram estudos relativos à rede de telemóvel de quarta geração (4G), aos campos eletromagnéticos nos scanners dos aeroportos, à compatibilidade com os pacemakers e ao uso de radiofrequências na medicina. Tecnologias que, garantem os especialistas do CCARS, não darão azo a preocupações.

“Existem provas suficientes para dizer que o uso do telemóvel é seguro no ambiente hospitalar sempre que se mantenha uma distância de segurança de 1 metro entre os dispositivos médicos utilizados para vigilância e tratamento de pacientes”. Inclusive, o uso de telemóvel é “seguro para portadores de pacemakers, embora deva ser mantida uma distância de segurança de 15 centímetros”.

Em relação aos scanners usados nos aeroportos, o relatório explica que “funcionam com níveis baixos de potência, pouca penetração e exposição superficial, e que as dosimetrias [cálculos da absorção de radiação] realizadas demonstram que os limites de exposição são muito mais baixos do que os recomendados como seguros”.

De acordo com as conclusões do relatório, “a análise crítica das evidências suporta que não existem razões técnicas ou de saúde para a imposição arbitrária e discricionária dos limites de exposição mais rigorosas do que as recomendadas pela OMS-ICNIRP e a União Europeia”.

Segundo o relatório, “os níveis de exposição da população a frequências de rádio de dispositivos wifi, que são estudados sob condições operacionais realistas, estão bem abaixo das recomendadas pelas agências e comités científicos”, além de que a aplicação de limites mais restritivos “implicaria o aumento do número de antenas, com consequente impacto visual, social e económica”.

Muitos dos estudos desmontados que concluem pela suposta existência de riscos das ondas eletromagnéticas foram realizados através de inquéritos e entrevistas; os seus resultados são, por isso, com frequência subjetivos e parciais. “Não somos anti-antenas nem pró-antenas”, disse o epidemiologista Francisco Vargas, diretor científico do CCARS, durante a apresentação do relatório. “Este estudo recolheu todas as sensibilidades, por isso, é independente, objetivo e coerente.”