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Cérebros de chuteiras, ou a paixão dos adeptos de futebol vista ao microscópio

Sociedade

© Matthew Childs / Reuters

Um estudo realizado por investigadores portugueses a mais de meia centena de adeptos do FC Porto e Académica revela dados surpreendentes sobre essa doença chamada clubite aguda

Já dizia Bill Shankly, mítico treinador do Liverpool, que "o futebol não é um caso de vida ou de morte, é muito mais do que isso". Assim, e para que não restem dúvidas, importa começar por esclarecer porque foram selecionados adeptos do FC Porto e da Académica para este estudo. "O que eu queria era escolher uma marca forte e outra que não o fosse tanto, em termos de valor de mercado, bem entendido", explica à VISÃO Ricardo Cayolla, Doutorado em Marketing e Estratégia, Professor na Porto Business School e Universidade de Aveiro e o homem que teve a ideia de tentar perceber até onde pode ir a paixão de um adepto pelo futebol, ou melhor, pelo seu clube. O FC Porto foi escolha fácil porque é o seu clube de coração "e porque é uma marca forte, habituada a ganhar títulos" e a Briosa porque o estudo foi realizado na Universidade de Coimbra, o que facilitava a recolha da amostra.

Ao todo foram 54 homens e duas mulheres, com idade entre os 21 e 60 anos, que aceitaram responder a longos questionários e expor-se ao visionamento de vídeos envolvendo os seus clubes ou clubes rivais para perceber afinal que paixão é essa que o clube de que são adeptos lhe desperta e até onde é que ela pode ir.

Dirigido por Miguel Castelo-Branco, coordenador do Instituto Biomédico de Investigação da Luz e Imagem (IBILI) e diretor do Instituto de Ciências Nucleares Aplicadas à Saúde (ICNAS), da Universidade de Coimbra e com a colaboração de Catarina Duarte, investigadora da mesma universidade e Ricardo Cayolla, o estudo conclui que as mensagens positivas tendem a permanecer na memória mais do que as negativas. Essa é, para Ricardo Cayolla, a conclusão mais surpreendente, e a que terá contribuído para que o estudo tenha sido publicado na revista SCAN, uma das publicações de neurociências das emoções mais prestigiadas do mundo. "Ao contrário do que se pensava, o cérebro tende a apagar as memórias negativas. Pelo contrário, as positivas permanecem mais tempo", diz Ricardo Cayolla. Por positivas, entenda-se, tanto pode ser o golo de Kelvin, marcado ao Benfica ao minuto 92, um dos vídeos mostrados aos adeptos portistas, como uma derrota do seu clube rival. "Isto é feito na perspetiva do consumidor e para ele uma derrota do rival é uma coisa boa. Aliás, a alegria de ver o nosso adversário perder é muito superior à tristeza de ver o nosso clube perder", afirma o investigador.

Por último, e igualmente surpreendente, na opinião de Ricardo Cayolla, é que, "ao contrário do que seria de supor" o estudo não mostrou diferenças de comportamento entre classes sociais. "Muitas vezes quem tem mais educação tem até reações mais profundas, mais emocionais do que quem tem menos formação". A diferença pode estar depois na forma como cada qual se comporta perante os amigos ou conhecidos que são adeptos do rival mas, já se sabe que na hora da emoção há sempre quem perca a ... classe.