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Milhares de cuecas penduradas nas ruas de Joanesburgo alertam para a mais alta taxa de violações no mundo

Sociedade

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A população da maior cidade da África do Sul aderiu em massa a um verdadeiro movimento social criado por duas sobreviventes de assalto sexual

BRETT_SKOLMEN

Há quem olhe e possa considerar arte, mas o principal objetivo da instalação com a hashtag #SasDirtyLaundry é protestar contra as violações diárias de mulheres e crianças em Joanesburgo. Segundo as duas sobreviventes de assalto sexual que idealizaram a instalação, os números alcançaram máximos históricos: 3 600 violações diárias. A artista plástica Jenny Nijenhuis e a atriz Nondumiso Lwazi Msimanga estenderam cordas de ao longo de 1 200 metros, onde dá para pendurar 3 600 pares de cuecas. Fizeram um apelo público para que as pessoas doassem a sua roupa interior na hashtag #SasDirtyLaundry, criaram uma página de facebook, Pantiesplea, e organizaram pontos de recolha por toda a cidade, a maior da África do Sul. Ao jornal britânico The Guardian, a voluntária Carmen Ives conta que cada oferta “fala abertamente” da rude situação que se vive na África do Sul. “Cada cueca significa muitíssimo. Faz-me pensar que hoje alguma mulher está a ser violada em algum lugar”. A instalação teve uma forte adesão do público, quer nas ruas, quer nas redes sociais. No Twitter, por exemplo, houve quem escrevesse que o projeto “é como um movimento social”, outros dizem que o projeto liga “intensamente com o trauma, o abuso emocional e o assalto sexual.”

A única polémica do trabalho prende-se com as perguntas que as estatísticas sobre violação utilizam. Embora não haja dúvida de que a África do Sul, com uma população de 55 milhões de pessoas, tem a mais alta taxa de violações do mundo, as estimativas apontam para um número de ataques sexuais que todos os dias varia muito. Em setembro de 2015, segundo o relatório anual de crimes, o número de ofensas sexuais caiu cerca de 5% para 53 617. A ONU calcula que aconteçam 132 violações por dia.

Para Lisa Vetten, investigadora associada da Universidade de Witwatersrand, em Joanesburgo, “o problema que alguns denunciam é que não podemos saber se a queda, em estatísticas recentes, se deve a menos violações ou a menos denúncias”. “Investigações mais conservadoras sugerem que só uma em cada sete vítimas informa que foi violada mas outro estudo indica que este número pode ainda ser maior”, acrescenta. Já Anne Githuku-Shongwe, porta-voz da ONU Mulheres, insiste que o sul de África é “o epicentro da pandemia da violência contra as mulheres e as crianças” e que o custo “económico, físico e emocional” da violência deve ser reconhecido. Também pediu precaução na hora de utilizar os números. “A instalação funciona bem para pôr o problema no ponto de mira mas temos de ser cuidadosos para não cair no sensacionalismo”, concluiu.