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Ameaça real ou mito urbano? Medo de palhaços assustadores chegou à Casa Branca

Sociedade

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© Vincent Kessler / Reuters

Ninguém sabe quem são, até porque o mais provável é nem sequer existirem. Mas o pânico de palhaços com supostas más intenções tornou-se assunto nacional nos Estados Unidos e alastrou-se a outros países anglófonos como o Canadá, Inglaterra ou Austrália. Realidade ou imaginação, já levou à detenção de pessoas, obrigou ao fecho de escolas e até a uma reação do porta-voz de Obama

Rui Antunes

Rui Antunes

Jornalista

Josh Earnest, secretário de Barack Obama para a comunicação social, respondia esta terça-feira às dúvidas dos jornalistas, no habitual briefing da Casa Branca, quando um dos presentes lançou o tema dos palhaços assustadores para a conversa. Não, não sabia se o Presidente dos Estados Unidos estava a par, esclareceu o porta-voz num esforço para conter o sorriso, mas tem noção de que "as autoridades locais o levam muito a sério", sublinhou, antes de remeter explicações para o FBI e o Departamento de Segurança Interna (reação completa no vídeo à direita).

O que começou por ser noticiado localmente, no final de agosto, como a tentativa de um homem mascarado de palhaço aliciar crianças para uma mata, a troco de dinheiro, depressa se alastrou a todo o país em episódios semelhantes, com um denominador comum: palhaços assustadores a aterrorizar pessoas, sobretudo crianças. Imitações por efeito de contágio ou ameaças para levar a sério?

O primeiro caso reportado, no estado da Carolina do Sul, fez o telefone da polícia de Greenville tocar sem parar e levou os agentes a realizarem buscas nas imediações da mata, num complexo habitacional, à caça do suspeito. Em vão.

Desde esse dia, as denúncias do género multiplicaram-se por vários estados. E obrigaram a polícia a encerrar escolas por precaução, cidades a proibir os disfarces de palhaço, jornais de referência como o Washington Post ou o The New York Times a dedicarem-se ao assunto, assim como a cadeia televisiva CNN e até as grandes agências de notícias, Reuters e AP. Uma mulher na Califórnia queixou-se que um homem vestido de palhaço a abordou numa paragem de autocarro e tentou raptar-lhe o bebé de um ano; as autoridades não encontraram o presumível suspeito. As redes sociais foram invadidas por cenas de palhaços, supostamente agressivos, a perseguir pessoas; e todos os dias há novos vídeos a alimentar essa ideia nesta conta do Twitter.

Mas a polícia já encarou as denúncias mais a sério. O número de detidos por falsas declarações não para de crescer e os acusados de se vestirem de palhaços para assustarem alguém são adolescentes que também levaram a brincadeira longe demais. "Não tem piada", alertam as autoridades, conscientes de que, além de pais e crianças "assustados", no meio das graçolas de uns há denúncias que merecem ser investigadas. E, sobretudo, temem que alguém aproveite a onda para cometer crimes inspirados no fenómeno. Muitos ainda se lembram que, em 1994, John Wayne Gacy foi executado nos EUA por ter matado 33 pessoas, vestido de palhaço.

Preocupado com a repercussão na atividade, o presidente da Associação Mundial de Palhaços, Randy Christensen, realizou um vídeo em que alerta para o facto de nenhum verdadeiro palhaço aliciar crianças para uma mata. E um grupo do Arizona já agendou um desfile pacífico para este sábado, na cidade de Tucson, com o objetivo de lembrar as pessoas de que os palhaços de verdade são divertidos e amigáveis.

As autoridades querem estancar o mediatismo que o tema ganhou, mas nesta fase é cada vez mais difícil. Esta semana foram noticiados acontecimentos idênticos no Canadá, em Inglaterra e na Austrália. Ontem e anteontem, pelo menos duas escolas na cidade canadiana de Edmonton foram encerradas pela polícia.

O efeito bola de neve que a situação está a ganhar não é novidade. Num livro intitulado "Palhaço Mau", o autor Benjamim Radford situou o primeiro caso do género no início dos anos 80. Em 2014, a França enfrentou uma situação em tudo idêntica. Na cidade de Agde, tanto foram detidos palhaços que assustavam pessoas na rua como grupos de vigilantes que se dedicavam a acabar com a 'brincadeira', todos adolescentes.