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A ONU decretou 2016 como o Ano Internacional das Leguminosas, pelos seus benefícios para a saúde e vantagens ambientais. Se são boas e baratas, porque as comemos tão pouco?

Luísa Oliveira

Luísa Oliveira

Artigo publicado na VISÃO 1197 de 11 de fevereiro

Jornalista

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Assim de repente, e pensando em pratos típicos como a feijoada, mão de vaca com grão, sopa da pedra, atum com feijão-frade, ervilhas com ovos escalfados, ninguém olharia para Portugal como um país de baixos consumos em leguminosas e ainda de menor produção.

Mas a realidade é essa: cada português come, em média, três quilos de feijão por ano, e um quilo de grão (deveriam representar 4% do total dos alimentos, mas não passam dos 0,6%).

E não é só por cá, apesar de algumas espécies de leguminosas fazerem parte da alimentação humana há milénios (século VII a.C.). O consumo per capita global tem vindo a decrescer de forma lenta mas constante, passando de 7,6 quilos por pessoa no ano de 1970 para 6,1 quilos em 2006. "Esta tendência reflete, por um lado, as mudanças nos hábitos alimentares, mas também o facto de a produção não conseguir acompanhar o aumento populacional em algumas regiões e países", nota Hélder Muteia, representante da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) em Portugal.

A produção nacional é ínfima, e essencialmente centrada em variedades de feijão, não ultrapassando as 24 mil toneladas por ano, o que significa 0,04% do que se cultiva em todo o mundo somos, por isso, praticamente dependentes da importação.

No topo dos países produtores está a Índia, responsável por 24% das leguminosas que se consomem. A seguir vem o Canadá, a uma distância considerável (10%), depois Myanmar e a China.

Não terá sido por acaso que, desde 2013, o Ministério da Educação impõe às cantinas escolares uma refeição semanal com leguminosas, assim como uma sopa à base de feijão ou grão num dos cinco dias em que há almoços nas escolas. A roda dos alimentos recomenda a ingestão de uma a duas porções (cerca de 80 gramas de alimento cozinhado) diárias não é de hoje que se conhecem as qualidades nutricionais, os benefícios que o seu consumo traz para a saúde e as vantagens para o ambiente.

É esta tripla ação que as Nações Unidas querem ver realçada neste ano decretado como o das leguminosas secas e que tem como lema "sementes nutritivas para um futuro sustentável". Um chapéu que serve para feijões, grão, lentilhas, ervilhas, favas e tremoços (a soja e os amendoins pertencem às oleaginosas).

UM REFOGADO E JÁ ESTÁ

A canadiana Joice Boye, engenheira química, doutorada em ciência da alimentação, esteve recentemente em Portugal para divulgar o seu trabalho com estes produtos, que estuda há quase duas décadas.

Antes que lhe atirem a primeira pedra, jura que consome regularmente leguminosas, ao contrário dos seus conterrâneos.

"Muitas vezes, faço um refogado, com cebola, alho e tomate e junto-lhe feijões ou ervilhas. Ainda posso aproveitar uma farinha de leguminosas para muffins, por exemplo." Começou a debruçar-se sobre esta família de alimentos por não serem alergénios e apresentarem-se como uma excelente alternativa a quem não tolera outro tipo de produtos. "Trata-se de uma área onde ainda é possível inovar muito para oferecer maior diversidade a quem as consome." Depois, a canadiana deparou-se com uma série de características impossíveis de ignorar. Quase um quarto da composição dos grãos secos diz respeito a proteínas (são por isso ótimas opções para quem não consome carne), com a vantagem de apresentarem muito pouca gordura (ao contrário da carne e do queijo) e bastante fibra. Ao mesmo tempo, são uma boa fonte de macronutrientes, como vitaminas do grupo B, ácidos gordos essenciais e minerais (ferro, potássio, fósforo, zinco e magnésio).

Como se esta mão-cheia de boas notícias fosse pouco para amenizar as condições das cerca de 800 milhões de pessoas que passam fome no mundo, ainda se juntam uns quantos benefícios para a saúde. As leguminosas são ricas em hidratos de carbono saudáveis e em fibras que ajudam a desenvolver as células boas de que precisamos. "Quando as consumimos, fazem-nos sentir cheios durante muito tempo, o que significa que na refeição seguinte vamos comer menos", lembra a especialista canadiana. Hélder Mutea acrescenta: "Elas podem desempenhar um papel fundamental no combate à obesidade e a doenças crónicas, muitas vezes associadas ao consumo excessivo de alimentos de origem animal." E como têm baixo índice glicémico, funcionam muito bem na regulação dos níveis de açúcar no sangue, sendo bem toleradas por diabéticos.

COMER, NEM QUE SEJA UM BOCADINHO

O departamento de alimentação das Nações Unidas também teve em conta a sua capacidade de fixação de azoto atmosférico no solo através de nódulos nas raízes e considerou isso uma grande vantagem ambiental. Joice Boye realça que, além disso, não precisam de tanta água como outras culturas e, como crescem em sítios tão diferentes do globo, dão origem a uma enorme multiplicidade de sabores, que se desenvolvem consoante o clima onde crescem. E há tantas formas de cozinhá-las, desde sopas a saladas, passando até pelas sobremesas (não esquecer o nosso pastel de feijão). "A sua diversidade permite produzir variedades mais resistentes às altas temperaturas e à seca, ajudando nos esforços para a adaptação e mitigação no contexto das alterações climáticas", explica Hélder Mutea. Já para não falar na facilidade de armazenamento por se tratar de um produto seco. Um saco de lentilhas pode durar meses numa despensa um pormenor importante quando se trata de segurança alimentar em países em vias de desenvolvimento.

Até agora, a investigação ainda não conseguiu encontrar restrições ao consumo de leguminosas. E também não se sabe exatamente qual a quantidade mínima que se deve ingerir para se obter os benefícios para a saúde. Só há uma coisa com que ninguém discorda: ingerir, nem que seja um bocadinho, é sempre melhor do que não comer um grão sequer.