Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Morreu Laura Ferreira dos Santos, rosto da luta pela eutanásia. Recorde o testemunho marcante à VISÃO

Sociedade

José Caria

Recorde as declarações à VISÃO da fundadora do movimento "Direito a Morrer com Dignidade" e doente oncológica, onde revelava ter ponderado o suicídio com o barbitúrico fatal que pode ser comprado online

O discurso emocionado vem de rajada, surpreende o interlocutor, e do lado de cá faltam palavras para uma dor que não tem consolo, mas sobretudo para a determinação lúcida e racional de quem domina bem o tema. Bem demais, agora que é da sua própria morte que se trata. “Sou eu que agora me vejo na situação de pensar em suicídio. Estou entre a espada e a parede. Sei que provavelmente não vai tardar e, quando chegar a minha hora, sei bem o que vou fazer. Nunca me inscrevi na Dignitas porque quero morrer na minha casa, ou pelo menos na minha cidade. Não me faz sentido ir à Suíça para me matar”, afirma Laura Ferreira dos Santos, de 57 anos. Não tem dúvidas: “Tenho acesso a um produto letal, sei onde arranjar a droga [a substância Z] e equaciono usá-la.”

Há anos que Laura Ferreira dos Santos fala pelos doentes para quem a vida deixou de fazer sentido. Tem sido a porta-voz, no início quase solitária, da causa da morte assistida e da eutanásia em Portugal, com quatro livros publicados, dezenas de artigos de opinião escritos e a fundação do movimento Direito a Morrer com Dignidade. Chegou agora o penoso momento de, pela primeira vez, falar publicamente também por si própria. “Tive um cancro da mama em 2001, uma recidiva em 2007 e desde 2011 que tenho metástases ósseas. Há pouco tempo apareceu-me uma grande metástase na coluna, que aumentou muito e me dá dores permanentes e insuportáveis. Fui operada para tentar atenuar estas dores terríveis, mas não resultou. Nada parece resultar. Ainda não sou uma doente terminal, mas começo a chegar ao momento em já não sei se vale a pena lutar e passar por tanto sofrimento. Não sei com que sequelas vou ficar quando terminar mais um ciclo de radioterapia, se vou poder sair à rua, guiar um automóvel… Se ficar como estava, não há drogas que funcionem. Os medicamentos não fazem nada, ou melhor, só me fazem mal. Os que podem funcionar deixam-me zombie, drogada de tal forma que não consigo ler nem escrever. Assim, esta não é a minha vida. Assim, não me faz sentido, por muito que eu goste do meu marido e dos meus sobrinhos. Simplesmente, não me faz sentido. Só peço o direito a não morrer aos bocadinhos.”

Uma solução para o sofrimento que está longe de ser a saída digna que advoga a professora de Filosofia da Universidade do Minho. “Sei como fazer, mas entristece-me muito que tenha de ser assim: sozinha e na clandestinidade, para não incriminar ninguém. Sem sequer conseguir falar abertamente com um médico, porque a reação nestes casos é sempre a mesma: ou adotam a estratégia da negação, ou encaminham para a psiquiatria. Não concebem o suicídio racional. Mas a minha vida sou eu que a conduzo, e a minha morte também.”

Paz, mesmo no fim

PUM! “O que ele queria era morte assistida.” Não havia, e o fim aterrador de um cunhado tinha-o feito prometer que não se ia deixar chegar àquele ponto de não-vida. O cancro no intestino já devorava todas as células boas, espremia-lhe os órgãos, fazia-o desmaiar de falta de ar. Chegou a pensar atirar-se da varanda. Desistiu porque um segundo andar não dá morte certa. Nem sempre se morre quando se quer. Mas alguns não aceitam determinismos alheios.

PUM! “O teu pai encontrou a pistola!” O filho, então com 35 anos, enfermeiro, ordenou: “Tragam-mo cá. Trato-o aqui!” As palavras de boa vontade haveriam de misturar-se com o derradeiro, estridente, PUM! O terceiro tiro chega-lhe intermediado pela ligação telefónica. Do outro lado, a impotência. Pior: a culpa. “Podia ter morrido tranquilo e em paz.

Já lá vão treze anos. Mas a memória deste fim, que podia ter sido outro se a resposta de cuidados paliativos existisse para todos ou se a morte assistida já tivesse sido suficientemente discutida, ainda impõe pausas de silêncio. Para inspirar. Para chorar. Para expiar uma culpa que talvez não lhe coubesse se o tema da morte não fosse ainda tabu.

O filho não esquece aquele tiro que não pôde evitar. Os quatro netos ficaram traumatizados com o fim descabido de um avô com quem brincavam entre as árvores da quinta. Não foi a morte que os traumatizou, mas a forma como ela chegou.

A discussão sobre a possibilidade de cada um decidir sobre o seu fim sem traumas ganhou novos contornos depois do debate à volta do manifesto, tornado público no início do mês, a favor da despenalização da morte assistida, assinado por mais de cem personalidades.

Uma discussão que se justifica pela ilegalidade que significa hoje terminar com a própria vida com o auxílio de outros. “A ajuda ao suicídio é crime previsto no Código Penal”, explica à VISÃO o advogado João Medeiros. Embora raramente, alguns juristas são confrontados com perguntas dos clientes sobre a legalidade de terminar com a própria vida. “Tenho de esclarecer que a eutanásia é a decisão de pôr fim à vida por alguém incapacitado de o fazer e que neste momento é proibida”, esclarece a advogada Filomena Girão.

A pergunta chega poucas vezes aos peritos em leis, mas é frequente no dia a dia dos profissionais dos cuidados paliativos. Mais do que dúvidas teóricas, ouvem angústias: “Quero morrer! Não quero viver assim!” A interpelação chega com frequência aos ouvidos do enfermeiro Francisco. “Trabalho numa unidade por onde passam cerca de 130 doentes por ano. Destes, uns dez por cento pedem eutanásia. É difícil ouvir, mas não podemos.” A taxa calculada por este enfermeiro desconta já os que deixam de verbalizar o desejo de morte depois de lhes ser diminuída a dor. Esses “rondam os 40 por cento”.

Francisco admite que trabalhar nessa antecâmara da morte que são os cuidados paliativos o ensinaram a ser favorável à eutanásia. Custa-lhe a impotência perante os pedidos dos doentes. “Estamos tão obcecados em drogar as pessoas que nem lhes damos oportunidade de dizerem o que querem.” E a oportunidade falta porque a maioria dos profissionais de saúde, diz, “não está bem resolvida em relação à morte”. Muitas vezes, “veem nos outros a sua própria morte e não estão preparados”.
Tal como Francisco, também a médica Cristina Galvão e a enfermeira Catarina Pazes ouvem pedidos desesperados. Mas ambas asseguram que o desejo de fim desaparece com o apaziguar da dor. Uma missão que garantem sempre – e enfatizam o sempre – possível: “Não há nenhum momento em que não haja nada a fazer. Recusamos esse fatalismo”, diz Catarina Pazes, logo secundada pela companheira de equipa. “Controlar a dor é fácil. Se esse controlo implicar perda de consciência, negociamos com o paciente. Explicamos e perguntamos se aceita a medicação.”

Em oito anos de projeto Suporte em Cuidados Paliativos Beja+, a média anual de doentes seguidos – em casa, unidades de cuidados continuados ou lares – ronda os duzentos. Embora já tenham ouvido o desespero do pedido “Mate-me!”, o apoio a doentes em fase terminal levou-as a concluir que querem – e conseguem – “matar o sofrimento em vez de matar o sofredor”.
Uma convicção que as faz remar contra a morte assistida. Pelo menos enquanto não for esgotada a oferta de cuidados paliativos. “Aceitaria melhor a discussão depois de assegurados os cuidados paliativos para todos.” E se se resolvesse primeiro a distanásia – excesso de cuidados e intervenções médicas inúteis. “Andamos numa luta desenfreada contra a morte e depois oferece-se a eutanásia. Isto torna a discussão inoportuna”, defende Catarina Pazes.

Para esta equipa, tudo seria diferente se houvesse mais saber sobre o alívio que podem garantir. “Prevenia-se muita dor com referenciação precoce. A maioria dos doentes chega-nos tarde, quando já sofreram muito e pensam que não há alívio. Mas há”, reitera Cristina Galvão. O problema, admite um oncologista ouvido pela VISÃO, é que “a esmagadora maioria dos portugueses não tem quem os ajude” nesta batalha pela morte digna. Confrontado com a impossibilidade de aconselhar os seus doentes a escolherem como morrer, assinou o manifesto. “É preciso uma discussão séria sobre o tema e mudar a lei. O médico não pode transformar-se em assassino para aliviar o sofrimento.” Por isso mesmo, o próprio bastonário da Ordem dos Médicos, José Manuel Silva, veio já admitir a necessidade de referendar o tema dentro da classe.

Enquanto não mudar a lei, nenhum médico se quer sentir assassino. Os doentes pedem uma morte digna. Nunca esteve tão perto de ser seriamente discutida, mas, para já, mantém-se o dilema.

Um testemunho inquietante que faz parte da investigação sobre o mercado negro da autanásia, que fez capa da revista VISÃO 1199.

Nota: Por motivos éticos, e de acordo com as recomendações para prevenção do suicídio, 
a VISÃO optou por omitir o nome do medicamento letal e o seu princípio ativo e os endereços 
dos sites onde pode ser comprado.