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A oposição (q.b.) que Assunção Cristas vai enfrentar no Congresso

Portugal

Rui Duarte Silva

Assunção Cristas parece ter o partido na mão. Apesar de terem sido apresentadas oito moções de estratégia global, a líder do CDS chega ao Congresso com a certeza de que sairá com o mandato renovado. No entanto, há fações internas que vão aproveitar o conclave para marcar terreno e apontar falhas à estratégia que tem seguido

O 27º Congresso do CDS não será, à partida, problemático para Assunção Cristas, que será reconduzida no cargo por mais dois anos. Será eleita numa corrida em que participa sozinha, sem oposição interna. Os números alcançados em Lisboa nas eleições autárquicas motivam a líder centrista - que já admitiu querer replicar o modelo seguido na campanha na capital na campanha para as legislativas - e fazem os mais críticos recuar nas intenções de apresentar uma candidatura oposta à da sucessora de Paulo Portas.

No entanto, nem todos os militantes estão alinhados em torno da líder, que depois de ter apresentado a sua moção, onde defende a priorização do pragmatismo em detrimento da ideologia, gerou algum incómodo nos setores mais conservadores do partido. Um dos militantes que mais têm criticado Assunção Cristas é Pedro Borges de Lemos. O centrista vai levar ao Congresso uma moção intitulada "Futuro no Presente", onde defende um partido mais "ambicioso", com "vocação de Governo" e capaz de chegar a entendimentos de regime com o Governo, através de uma atitude mais madura na oposição.

À VISÃO, Borges de Lemos revela ter ficado "desiludido" com a liderança de Assunção Cristas nestes dois primeiros anos. "É certo que os resultados em Lisboa foram bons, mas isso não é suficiente; além de que a presidente está a pôr de lado a democracia-cristã, em nome de um pragmatismo que apenas torna o CDS num partido neo-liberal." Desagradado com este rumo, Borges de Lemos decidiu apresentar uma moção onde questiona a legitimidade de se seguir este caminho mas não avançará, para já, com uma candidatura contra a líder. "Neste Congresso não vou avançar, mas se a estratégia não mudar admito vir a afirmar-me candidato contra Assunção Cristas em 2020", avisa.

O deputado Filipe Lobo d'Ávila é outra das figuras que pode vir a atacar Assunção Cristas e a sua estratégia. Por ser um crítico da líder desde que assumiu o partido, prevê-se que o parlamentar faça uma intervenção acutilante no conclave. Apesar de ser expectável ouvir Lobo d'Ávila num discurso mais duro, os apoiantes da presidente do CDS não parecem preocupados. Pelo menos por agora, já que o deputado nem sequer apresenta uma moção crítica da atual liderança. Um colega da bancada centrista reconheceu à VISÃO que se trata de "um opositor" mas não "de uma ameaça à liderança", lembrando que tanto Lobo d'Ávila como Assunção Cristas fazem parte do grupo parlamentar do partido.

Caso diferente é o de Abel Matos Santos, da Tendência Esperança e Movimento (TEM). O líder desta fação interna mais conservadora e crítica da atual liderança levará uma moção à reunião magna. Não se deve assumir como candidato mas no documento que apresentará em Lamego apoia um rumo diferente daquele que proclama a líder. Enquanto Cristas prefere apostar no pragmatismo, Matos Santos apela a um regresso à ideologia democrata-cristã. Na moção "Portugal a sério", a TEM apresenta-se como sendo defensora de "um Estado forte", recusando a "conceção individualista da pessoa" e reconhecendo "o especial papel das famílias numerosas". Assume-se ainda contra o aborto e a eutanásia.

Apesar de alguma crítica, Assunção Cristas parece estar confortável no papel de líder, sem ameaças reais à sua liderança. O 27º Congresso do CDS vai decorrer no Pavilhão Multiúsos de Lamego nos dias 10 e 11 de março e vai servir para reeleger Assunção Cristas como presidente do partido por mais um mandato, de dois anos.