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Isto não é (só) um movimento diplomático. São as apostas do Governo

Portugal

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Ministério dos Negócios Estrangeiros, que funciona no Palácio das Necessidades, em Lisboa

António Xavier / Arquivo VISÃO

O processo foi gerido pessoalmente pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva. Vem aí um grande movimento diplomático. E, com ele, percebem-se quais são as apostas deste Governo, em termos de relações externas

De Paris a Pretória, de Lima a Pequim, de Nova Iorque a Tel Avive, de Goa a Caracas – vem aí um grande movimento diplomático, devido à chegada de quatro embaixadores aos 66 anos e três meses de idade, idade a partir da qual qualquer embaixador em posto deve regressar a Lisboa.

Com estas quatro passagens à reforma, há muito que muda, nas representações de Portugal no estrangeiro. Marcelo Rebelo de Sousa, por exemplo, vai ter de prescindir do seu principal assessor diplomático, José Augusto Duarte. E o mesmo acontece com António Costa, que terá de dispensar o seu adjunto (e amigo), Bernardo Lucena. Partem ambos mais cedo do que o previsto por mera incompatibilidade entre a sua carreira de base (diplomática) e a função que estão ambos a exercer. Agora é que se dá o movimento; agora é que há postos – alguns importantes, outros estratégicos ou de destaque - à sua disposição. E também porque a malha diplomática não se pode dar ao luxo de prescindir de certos perfis ou da experiência de alguns dos seus membros.

Augusto Santos Silva quis colocar peças chave em lugares chave, deixando claras algumas das apostas de Portugal em matéria de política externa.

A colocação de José Augusto Duarte em Pequim tem uma mensagem clara. Substituindo Jorge Torres Pereira, embaixador eleito pela Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa como diplomata económico do ano 2016 por aquele que fora alvo da mesma distinção em 2015, o Governo dá sinais de querer apostar forte no mercado chinês. Afinal, a China foi um dos países que em muito ajudou Portugal na recuperação económica, durante os anos da Troika. Com esta nomeação, torna-se evidente (ou reforça-se a ideia) de que a China é um parceiro estratégico para Portugal.

Também a partida de Bernardo Lucena para a OCDE, em Paris, merece destaque. Paulo Vizeu Pinheiro, que era adjunto diplomático de Passos Coelho antes de partir para Paris, é substituído pelo adjunto diplomático do atual primeiro ministro. Ou seja, seguindo a mesma linha do anterior Executivo, coloca-se na OCDE o mais político dos diplomatas, aquele que tem uma ligação direta com o chefe do Governo.

Outras mudanças estratégicas

Digamos que das mais de três dezenas de transferências, e além de José Augusto Duarte e Bernardo Lucena, há pelo menos mais três apostas que merecem uma explicação: Paris, Moscovo e Caracas.

Para o lugar de José Filipe Morais Cabral, embaixador de Portugal em França (ver o slide show), vai o embaixador Jorge Torres Pereira. O lugar na capital francesa é um posto de fim de carreira, onde encaixa na perfeição um embaixador com experiência suficiente para lidar com o ciclo que agora se inicia, na França de Emmanuel Macron. Torres Pereira, considerado um homem "pouco tímido, afirmativo", é colocado em Paris para ser um verdadeiro "player".

Para Moscovo vai Paulo Vizeu Pinheiro, que sai da OCDE. Vizeu Pinheiro, já o dissemos, é um diplomata político e tem uma carreira muito peculiar. Esteve várias vezes em gabinetes ministeriais – com Durão Barroso quando este foi secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação, ministro dos Negócios Estrangeiros e presidente da Comissão Europeia; mais tarde, seria adjunto diplomático de Passos Coelho, em S. Bento. Fora dos gabinetes, Vizeu Pinheiro fez parte da estrutura de missão que geriu o Processo de Paz em Angola; esteve em Washington e tem uma passagem, no final dos anos 90, por Moscovo. Foi ainda Diretor-Geral adjunto do Serviço de Informações Estratégicas, de Defesa e Militares e Diretor-Geral de Política de Defesa Nacional. Muito bem relacionado, é considerado um estratega, o homem ideal para representar Portugal na capital russa que, além de estar regularmente nas notícias, tem também um mercado que poderá ser devidamente explorado.

Por fim, Caracas. Para a capital da Venezuela, onde existe uma grande comunidade portuguesa, partirá Carlos Sousa Amaro, Cônsul-Geral em Manchester. Embora não seja rara a nomeação de um Cônsul para a chefia de uma embaixada (e vice-versa) é de salientar o envio, para a capital venezuelana, de alguém com experiência consular. Colocando naquele posto alguém com um perfil mais de apoio à comunidade do que de negociação política, depreende-se a preocupação que o Governo tem com a comunidade portuguesa, neste momento de convulsão naquele país.