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O PS e os independentes: temos um problema?

Portugal

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O “caso Rui Moreira” acabou mal. Mas, no distrito do Porto, os socialistas têm outras polémicas a borbulhar que ameaçam fazer saltar a tampa às hostes. Coincidência: há sempre “independentes” ao lume.

Maia, Matosinhos e Vila do Conde podem ser os próximos problemas que o PS/Porto terá de enfrentar tendo as eleições autárquicas como cenário.

Depois do fim inesperado e ruidoso da “união de facto” do PS com o movimento independente O Porto Primeiro, de Rui Moreira – cujos estilhaços chegaram à direção nacional do partido e ainda vão perdurar no tempo – a Federação Distrital do Porto dos socialistas, presidida por Manuel Pizarro, está a enfrentar algumas desavenças internas noutros concelhos. A coincidência é que, em todos eles, as candidaturas independentes podem vir a ser o problema. Ou parte dele, pelo menos.

Comecemos pela Maia, onde a presidência da autarquia é, há décadas, uma miragem para o partido. Ora, este ano, o objetivo poderá, mais do que nunca, estar ao alcance. Francisco Vieira de Carvalho, filho de José Vieira de Carvalho, o “dinossauro” do poder local que fez história no concelho governando à boleia do PSD e do CDS, será o candidato independente apoiado pelo PS. Está tudo aprovado e ratificado pelas estruturas locais do partido, mas isso não significa que os socialistas não venham a enfrentar um amargo de boca. Na verdade, a escolha está longe de ser pacifica junto daqueles militantes e dirigentes que se desgastaram no combate ao poder autárquico do pai Vieira de Carvalho. Dizer-lhes que agora terão de votar no filho é, pois, sentido como uma afronta.

Se dúvidas houvesse, o deputado municipal António Teixeira, do PS, explicou-o em público com todas as letras: o apoio socialista a Vieira de Carvalho (filho) é, segundo ele, “um negócio vergonhoso”. E assegurou ser a “voz de muitos” quando afirmou que o partido não estava reduzido aos seus dirigentes: “O PS Maia são milhares de cidadãos que já se manifestaram revoltados”­.

Socialistas a la carte

Em Vila do Conde, há outro imbróglio para resolver: a atual presidente do município, tradicionalmente de maioria PS, já agitou a possibilidade de vir a encabeçar um movimento independente, caso a estrutura concelhia não ratifique a sua candidatura. “Serei candidata à Câmara Municipal de Vila do Conde e dona da decisão que venha a tomar. A minha opinião tem de contar. Sou eu que vou decidir se serei, ou não, candidata pelo PS”, anunciou Elisa Ferraz, desagradada com os atrasos e indefinições no partido. Neste concelho, o PS tem um “dinossauro” do seu lado, vivinho da silva. Chama-se Mário de Almeida, preside à concelhia, é um histórico do partido e liderou o concelho durante vários anos. É certo que o antigo líder da Associação Nacional de Municípios não vai a votos, mas já disse que Elisa tem de ter paciência: para ele, é a “candidata natural”, mas vai ter “de dar garantias de que respeita o PS e passa a gerir o município sob os princípios da democracia e da justiça social”, afirmou, recusando sujeitar as decisões políticas “a caprichos pessoais”.

Por fim, Matosinhos. Talvez o mais bicudo dos casos.

A distrital já impôs a candidatura da deputada Luísa Salgueiro, que anda no terreno como se nada fosse. Mas o cenário em cima da mesa é este: três candidatos da área socialista podem enfrentar-se nas eleições autárquicas, quase um remake do ocorrido em 2013. Desta vez, a candidata à presidência mantém o cartão do partido, mas António Parada, vereador, já se demitiu do PS e ameaça entrar de novo na campanha, agora vestindo a camisola de independente e repetindo assim o gesto do falecido Guilherme Pinto, que o fez também zangado com o partido. A este quadro junta-se novamente Narciso Miranda, o homem que tem o seu nome ligado de forma marcante à autarquia, a qual presidiu durante décadas. A sua investida à cabeça de uma lista de independentes, em 2009, não correu bem, mas, nessa altura, Narciso ainda valeu mais de 27 mil votos. Ernesto Páscoa, presidente da concelhia, já garantiu ao Público que o PS se apresentará “mais desunido” do que em 2013. E culpa Manuel Pizarro por tudo o que está a acontecer. Como se já não bastasse o Porto. Na verdade, até para um médico de profissão como Pizarro começam a ser demasiadas dores de cabeça.