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O publicitário, as “luvas” e a casa grande do PSD

Portugal

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André Gustavo, estratega das campanhas do PSD em 2011 e 2015, foi acusado de intermediar subornos no âmbito do processo Lava Jato. Quem é ele e até onde vai a sua relação com as figuras do partido?

DR

O publicitário brasileiro de Pernambuco a quem Marcelo Odebrecht, presidente da construtora com o mesmo nome, acusou de ser o intermediário na negociação de subornos destinados ao ex-presidente do Banco de Brasil e da Petrobrás no âmbito da Operação Lava Jato, parece estar com a vida complicada do outro lado do mar. Mas em Portugal nunca se deu mal. Na última meia dúzia de anos, André Gustavo Vieira, sócio da Arcos Propaganda, teve no PSD uma espécie de segunda família. E nem os negócios ficaram à parte.

Vejamos: a amizade com Luís Filipe Menezes, antigo autarca de Gaia, dura há mais de 20 anos. “Quando foi eleito líder do PSD, foi de férias ao Brasil e fiz questão de recebê-lo”, disse o brasileiro. Em 2009, por ocasião dos festejos de São João na margem esquerda do Douro, Marco António Costa, atual “vice” da direção do partido, apresentou-lhe Miguel Relvas. O antigo braço-direito de Passos Coelho visitou Pernambuco com frequência e André Gustavo levou-o mesmo a conhecer Porto de Galinhas. O publicitário tem casa em Ipojuca e Relvas foi seu hóspede.

As relações intensificaram-se, o dinheiro veio atrás.

O homem-forte da agência Arcos tornou-se responsável pelas duas últimas campanhas do PSD para as eleições legislativas. Em 2011, esteve até na tomada de posse do Governo PSD/CDS a convite do ex-ministro. “Amizade profissional respeitosa”, era a forma como André descrevia à VISÃO a relação entre ambos. Do PSD, naquele ano, garantia ter recebido 50 mil euros pelos serviços prestados. Em 2015, porém, o valor disparou: oficialmente, a coligação Portugal à Frente (PAF), que o PSD e CDS formaram, pagou 475 mil euros à agência de André Gustavo pela estratégia de marketing da campanha eleitoral que até acabaria bem-sucedida, não tivesse António Costa inventado depois a “geringonça”.

Foi bonita a festa

Sucesso mesmo foi a eleição de Pedro Passos Coelho para Primeiro-Ministro em 2011. Em junho desse ano, o publicitário brasileiro agora citado no processo Lava Jato por causa de alegadamente intermediar o pagamento de “luvas”, deu uma entrevista a revista Nordeste a explicar os bastidores da vitória. O método de André Gustavo, explicado pelo próprio, era simples: “Sempre fui uma pessoa de me relacionar muito bem no ambiente político. Investi muito tempo em construir relacionamentos profissionais de olho no futuro. E, neste caso, não foi diferente”, explicava ele, concretizando: “Há mais de 15 anos que acompanho o cenário político português e os passos do PSD. O ex-líder do partido e presidente da Câmara de Vila Nova de Gaia, Luís Filipe Menezes, ao ser eleito presidente do partido há quatro anos, comemorou sua vitória aqui no Brasil comigo, ou seja, isso se constrói”, dizia. Assim foi. André ganhou “a confiança incondicional” de Miguel Relvas e juntou uma equipa de portugueses e brasileiros, que incluiu Marcos Martinelli, que tinha a campanha de Lula, em 1989, no currúculo, e Alessandra Augusta, a consultora que ajudou a “humanizar” Passos Coelho perante os eleitores.

Na verdade, André chegou ao PSD bem calçado, como é costume dizer-se. No seu portfólio, a Arcos Propaganda incluía campanhas para vários partidos brasileiros, entre os quais o PT.

Melhor do que isso: a agência trabalhava com o “filet-mignon” dos dinheiros públicos, tendo na carteira de clientes, entre outras instituições, o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Económico e Social), cujo orçamento em publicidade aumentou mais de 266 por cento nos anos em que a Arco trabalhou para o banco. Os empréstimos a empresas por parte do BNDES também se encontram atualmente sob investigação no processo Lava Jato por suspeita de pagamento de “luvas”.

O padrinho de casamento de André Gustavo é Delúbio Soares, antigo tesoureiro do PT, recentemente condenado a cinco anos de prisão por lavagem de dinheiro. O antigo secretário de Finanças do partido do ex-Presidente Lula já havia sido condenado a oito anos e 11 meses de prisão no âmbito do “Mensalão” por “formação de quadrilha” e “corrupção ativa”. Em 2003, ano em que juntou os trapinhos numa cerimónia na Igreja Grega Ortodoxa de Brasília, André Gustavo fez convites a políticos e empresários para serem seus padrinhos com objetivos profissionais. O publicitário admitiu que usou essa estratégia para dar visibilidade à Arcos na capital brasileira, onde a agência queria consolidar o seu escritório. Delúbio Soares aceitou e ficaram compadres.

Agora, é a vez de André Gustavo aparecer nas notícias por suspeitas que estão por esclarecer em toda a sua dimensão. Preso na sequência das investigações do processo Lava-Jato, Marcelo Odebrecht identificou-o nos últimos tempos como sendo o negociador das “luvas” que a construtora pagava ao antigo presidente do Banco do Brasil e da Petrobrás, Aldemir Bendine. Do outro lado do oceano, esta história vai no começo. Do lado de cá, as informações em nada parecem importunar o PSD. “Ele tem uma empresa que trabalha connosco. A partir daí, não conheço nem comento mais nada”, afirmou ao i, José Matos Rosa, secretário-geral do partido.