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Os Miró que a polémica salvou

Portugal

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Rui Duarte Silva

PCP não foi ao Porto "apenas para ver Miró", mas o "valor inestimável" da coleção exposta em Serralves marcou o arranque das jornadas parlamentares comunistas.

Fevereiro de 2014: o País é confrontado com uma polémica “cultural”. O Governo de Passos Coelho, sob a batuta do Secretário de Estado da Cultura, Jorge Barreto Xavier, acordada com a leiloeira Christie’s a venda de várias obras de Joan Miró que faziam parte do acervo do antigo BPN.

As obras tinham sido expedidas para Londres, mas uma providência cautelar interposta pelo PS e uma decisão posterior da Procuradoria-Geral da República impedia o leilão. As obras regressam a Portugal e a luta entre quem quer vender, sob uma base de licitação de pouco mais de 35 milhões, e aqueles (artistas, partidos da esquerda e outros) que querem que o acervo permaneça no país intensifica-se.

Em junho, a Christie's volta a anunciar novo leilão, mas é novamente obrigada a cancelá-lo.

Dois anos depois, o resultado da polémica está em exposição na Fundação Serralves. “Joan Miró: Materialidade e metamorfose”, com setenta e oito pinturas, desenhos, esculturas, colagens e tapeçarias” é uma viagem única pela evolução do artista catalão. Obras que ficaram em Portugal graças a todo o protesto público que foi alimentando discussões naquele ano de 2014.

E porque o PCP foi um dos responsáveis da luta travada para manter a coleção em Portugal, as jornadas parlamentares dos comunistas, que arrancaram hoje o Porto, começaram por Serralves.

João Oliveira, líder parlamentar, liderou a comitiva comunista que percorreu as salas desenhadas para esta exposição por Álvaro Siza Vieira e ouviu Denise Pollini, coordenadora do serviços educativo da fundação, explicar num discurso entusiasmante e de fascínio pela obra do artista “a coleção privilegiada” que Serralves recebe até 28 de janeiro.

“A exposição das obras de Miró é elemento marcante de um processo moroso e exigente para evitar que a coleção fosse vendida pelo anterior Governo no estrangeiro. Os planos traçados eram a venda pela calada. Conseguiu-se evitar isso. Esta coleção tem valor inestimável”, sintetizou João Oliveira.

As 78 obras em exposição são muito mais do que apenas rascunhos ou pequenos trabalhos de Joan Miró, como muitas vezes se fez crer na discussão abstrata sobre a venda em Londres. Do acervo escuro do BPN, telas, tapeçarias e esculturas estão agora sob a luminosidade de Serralves.

E o PCP está satisfeito por ter feito parte desta luta, mas João Oliveira garante que não veio ao Porto “apenas para ver Miró”. A “luta” continua pelo Porto de Leixões, associações empresariais e indústrias da região.