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Almeida Santos, a Eminência

Portugal

NFACTOS/ Fernando Veludo

Ele foi um dos políticos mais influentes da democracia. E, em 1996, chegou a ser Presidente da República por 12 dias...

Filipe Luís

Filipe Luís

Editor Executivo

Nos dias mais frios do inverno, no Parlamento, Almeida Santos costumava receber os visitantes, no seu gabinete, com os pés assentes numa botija de aquecimento elétrica. No último fim-de-semana, declarando-se engripado, arriscou uma corrente de ar, mas não quis falhar no apoio a uma ação de campanha de Maria de Belém. O homem das ligações maçónicas apoiava uma candidata católica, sua sucessora na presidência do PS. O afeto e o espírito de corpo acima de tudo. Ele, a quem se atribui a frase "aos amigos, tudo, aos restantes, aplique-se a lei", disse presente e falou. Foi o seu último discurso.

Em 1985, com o primeiro-ministro cessante, Mário Soares, retirado da liderança do PS, para preparar a sua primeira candidatura presidencial, Almeida Santos assumiu a liderança socialista, pedindo aos eleitores, pela primeira vez, uma maioria absoluta. A sua cara já bem conhecida dos portugueses, aparecia em cartazes onde se pedia 43 por cento. A poucos dias das eleições, porém, continuava fechado em casa. E Soares, furibundo, interpelou-o: "Quando é que começas a fazer campanha?" Mas Almeida Santos tinha um argumento que define um estilo e uma personalidade: estava em retiro, a redigir o programa...

Almeida Santos cantava o fado de Coimbra e discursava num estilo aprimorado, talvez antiquado, mas elegante e fino. Príncipe nos bastidores da política e dos negócios, manejava a pena e a palavra como os deputados da velha escola republicana. E dele se diz que, por uma vírgula colocada no sítio certo, podia alterar completamente o sentido de uma lei. Advogado hábil e prestigiado, dominou, desde 1953, e por mais de 20 anos, a praça de Lourenço Marques, em Moçambique, onde foi o rosto da oposição ao salazarismo e até alegado partidário de uma "independência branca". Por duas vezes, foi impedido de se candidatar em listas da oposição democrática.

Voltou para Portugal, a convite do Presidente António de Spínola, e foi ministro da Coordenação Interterritorial, assumindo um papel de destaque ao lado de Mário Soares e, sobretudo de Melo Antunes, o verdadeiro ideólogo da descolonização. A sua adesão ao PS seria relativamente tardia, já depois do PREC, quando assumia a pasta da Justiça no I Governo Constitucional, liderado por Mário Soares. Legislador profícuo, ele foi, no pós-25 de abril, durante muito tempo, o político mais influente do País, com contactos privilegiados em todas as áreas que contam. E a sua respeitabilidade era reconhecida por correligionários e adversários.

Almeida Santos, tantas vezes apontado como presidenciável, assumiu mesmo, por 12 dias, entre 27 de julho e 7 de agosto de 1996, a Presidência da República. Na primeira das operações cirúrgicas a que Jorge Sampaio foi sujeito, o Tribunal Constitucional teve de declarar o impedimento temporário do Presidente. Almeida dos Santos, então presidente da Assembleia da República e segunda figura do Estado, foi declarado Presidente interino.

Depois da aventura de 1985, Almeida Santos só veria o regresso do PS ao Poder dez anos depois, com António Guterres. Num jantar para festejar a vitória, no Chimarrão, no Campo Pequeno, em Lisboa, ainda antes de cantar o fado de Coimbra, o já veterano político apontava o que considerava ser a diferença fundamental entre PS e PSD. E foi então que se viu um homem prático a recorrer à força da ideologia: "Se não tivesse havido 25 de Abril, eles estariam tão perfeitamernte adaptados como estão em democracia. Nós não."