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Memória: O guerrilheiro da Direita

Portugal

Luís Barra

Há 20 anos, a VISÃO fez capa com Paulo Portas, então diretor do Independente e guru da nova direita portuguesa. Na altura era nacionalista, anti-Europa e anticavaquista. Releia aqui a história de Paulo Portas, da sua família e do jornal que então dirigia e o que pensava aquele que durante 18 anos dirigiu o CDS-PP

Paulo Chitas

Paulo Chitas

Artigo publicado na VISÃO nº 99 de 9 de fevereiro de 1995

Jornalista

O que se pode esperar de um garoto que aos dez anos faz desenhos de exércitos envolvidos em violentas batalhas e aos quinze é acusado de difamação por publicar uma carta em que acusa de traição o Presidente da República? Que venha a ser o mais temido diretor de um semanário do país? Que leve à demissão alguns ministros? Que seja o guru da nova direita portuguesa?

É o caso. O rapaz chama–se Paulo Sacadura Cabral Portas, nasceu a 12 de Setembro de 1962 e dirige há seis anos O Independente. Janta e almoça regularmente com Manuel Monteiro, em cuja garagem estaciona com frequência o seu Audi Cabriolet. Marcelo Rebelo de Sousa, que foi seu amigo próximo e hoje está incompatibilizado com ele, reconhece-lhe a «influência estratégica» no CDS/PP. Aliás, na altura em que Manuel Monteiro ascendeu a líder, Paulo Portas foi presença assídua no congresso do partido.

Mas é ao nível do discurso político que a sua influência mais se manifesta. Quando ninguém se assumia claramente de Direita, Paulo Portas defendia a existência de um partido que ocupasse esse espaço. Assim surgiu o PP a sobrepor-se ao CDS. E quando Paulo Portas começou a fazer notar que, por causa da Europa, a agricultura e as pescas estavam condenadas ao desaparecimento, Manuel Monteiro apressou–se a fazer «campanhas» pelo Alentejo e a bordo de pesqueiros.

Mas não só. O director d' O Independente, o jornalista que mais histórias descobre para o seu próprio jornal tem sido o grande opositor de Cavaco. Ou, como diz Luís Nobre Guedes, dirigente do CDS e amigo pessoal de Paulo Portas, «O Indy nasceu sem o PSD e contra o PSD.» E também aí, quando um escândalo abala o edifício cavaquista, o CDS aproveita para pedir a cabeça do ministro A ou B.

DIVÓRCIO

Em 1962, ano em que nasceu, os estudantes de Lisboa e Coimbra protagonizavam uma famosa luta contra a ditadura. O pai, Nuno Portas, arquiteto — e então já amigo muito próximo de Jorge Sampaio, um dos principais lideres estudantis, a que ficaria sempre politicamente muito ligado — concebia com Nuno Teotónio Pereira o projecto para a Igreja do Sagrado Coração de Jesus e o Bairro dos Olivais. Carlos Portas, tio do Paulo, foi preso por ter participado no levantamento da Cantina Universitária.

Rezam as crónicas da família Portas que os dois irmãos, Paulo e Miguel, sempre se deram muito bem. Quatro anos mais velho, Miguel havia de seguir um caminho completamente diferente. Que começa logo quando, em 71, com 13 anos, opta por viver com o pai, enquanto Paulo continua com a mãe. No futuro, Miguel viria a ser da União dos Estudantes Comunistas (UEC), de que sairia, animador da Política XXI e jornalista no Expresso.

«Foi uma época muito feliz», diz Paulo Portas. Mas o divórcio do casal deixou as suasmazelas. «Aguentámos nove anos um casamento turbulento por causa do meio católico em que vivíamos», recorda, pelo seu lado, Nuno Portas, que foi o primeiro secretário de Estado da Habitação após o 25 de Abril, dirigente do PS e ensina na Faculdade de Arquitetura do Porto. Enquanto Helena Sacadura Cabral fica com o filho Paulo, na Rua das Indústrias, à Assembleia da República, o pai vai viver com Margarida Sousa Lobo, a mãe de Catarina Portas, 25 anos, irmã mais nova do director de O Independente, hoje também jornalista conhecida e uma dasparticipantes no programa televisivo Frou-Frou.

Apesar da ruptura do casal, mantêm–se com regularidade as idas aos fins-de-semana e durante as férias escolares a Vila Viçosa, a terra do clã Portas. Leopoldo Portas (já falecido), o avô de Paulo, radicou-se na vila após a conclusão do curso de Engenharia de Minas e casou com Umbelina, uma alentejana filha de médios agricultores.

EXÉRCITOS

Leopoldo foi um homem do Estado Novo, deputado, procurador à Câmara Corporativa e chegou a dirigir a União Nacional de Evora. Em casa lia-se o Diário da Manhã, o órgão oficial do partido único e do regime. «A terra é o mais importante», costumava dizer, contrapondo a escolha que fizera à dos seus colegas de curso, que haviam ficado por Lisboa, ocupando os cargos na administração. Ligado à exploração do mármore, desenvolveu a exploração mineira no Alto Alentejo.

«Foi uma figura fantástica. Seguia uma ética de serviço público incomum. Ele, que tinha uma enorme admiração por Salazar e uma grande estima pelas ideias do Estado Novo, sempre estimulou as discussões políticas à mesa, quando a família se reunia», conta Paulo Portas.

Paulo já se fazia notar pelos desenhos de reis e soldados que ocupavam folhas inteiras, perfazendo pequenos exércitos que se envolviam em batalhas. «O Paulo lia muita banda desenhada, sobretudo Tio Patinhas», lembra Catarina. Nessa altura frequentava o Colégio S. João de Brito, em Lisboa, onde entrou na quarta classe. Por volta dos 11 anos, dá à estampa o primeiro jornal, Risos e Sorrisos, «um jornal familiar, totalmente escrito por ele, usando vários pseudónimos», montado e impresso no atelier do pai. Dois anos depois já ia à Assembleia da República «ouvir os debates».

OS TRAIDORES

O percurso escolar no colégio dos jesuítas é exemplar. Bom aluno, empenhado e especialmente participativo. «Era bastante inteligente, muito brioso e não desistia facilmente da sua opinião», lembra Luís Leão, seu professor de Filosofia. «Muito dogmático e positivo», recorda o professor de Introdução à Política.

Aos 15 anos, no dia 7 de Abril de 1978, dá os primeiros passos na definição da carreira política e jornalística. No tom desabrido e destemido que o há-de caracterizar, envia uma carta intitulada «As Três Traições» ao Jornal Novo dirigido pela deputada Helena Roseta. «Li o texto e achei-lhe piada. Não lhe dei muita atenção, masmandei publicá-lo», conta Helena Roseta, que foi aluna de Nuno Portas. O artigo sobre a forma de carta, atacava violentamente Mário Soares e Freitas do Amaral, os promotores da aliança entre o PS e o CDS, e o presidente da República, Ramalho Eanes.

«Portugal, em termos práticos, não precisa, em nada, do Partido Socialista. Porque o PS é corrupção, falhanço, compadrio, vaidade, arrogância, incompetência. Portugal não aguenta isto. Não aguenta o PS», escreve o jovem Portas. Quanto ao líder do CDS afirma: «Destruiu o dr. Freitas do Amaral a imagem que criou durante três anos. Da serenidade passou à arrogância. Da coerência à contradição total. Da inteligência à ambição. (...) Traiu os votantes CDS. Traiu a sua imagem. Traiu-se. Traiu Portugal.» Também o general é mimoseado com semelhantes epítetos. «Sr. Presidente, o sr. é quem tem mais responsabilidades na perda da democracia. Também o sr. está a demonstrar que é incompetente para exercer o poder. Incapaz. Em Portugal, neste momento, não há lugar para tibiezas. E o senhor, infelizmente, é um tímido. Mais nada.»

O general não gostou e convidou Helena Roseta para almoçar em Belém. «A refeição decorreu num clima muito azedo. Estavam presentes o Ramalho Eanes, a mulher e Pinto Balsemão, um convidado cuja presença ali nunca entendi muito bem. No final, a Manuela Eanes disse-me que a vontade do marido era mandar fechar o jornal.»

«NÃO RESPONDO»

O jornal não é encerrado, mas o general decide avançar com um processo. Sem saber que o artigo tinha sido escrito por um jovem de quinze anos.

Paulo Portas, acompanhado pelo pai, é interrogado no Tribunal da Boa Hora. «Quando lhe perguntam se tinha tido a intenção de ofender, diz: `Não respondo'. Era a resposta que os PC davam à PIDE. Aí percebi que o miúdo tinha fibra», conta o pai. Já então militava na Juventude Social Democrata (JSD), onde entrara aos 13 anos. As discussões durante asviagens para Vila Viçosa avivavam-se. Miguel, Paulo, e o pai, envolviam-se em calorosas discussões. «Normalmente, eu e o Paulo colocávamos em causa o papel do PCP e a política seguida nos países de Leste. O Miguel retorquia chamando-nos anticomunistas primários. Se havia alguma doença de que a famflia padecia era o militantismo», comenta Nuno Portas.

O envolvimento com a JSD tem em Sá Carneiro a principal razão de ser. «Eu era um militante sá-carneirista puro. Acho que se ele não tivesse morrido a minha vida teria sido muito diferente», afirma Paulo. É tão forte o farol sá-carneirista que o jovem Portasse envolve numa militância profunda. «Ele admirava o Sá Carneiro como um caudilho», diz Nuno Rocha, ex-diretor do Tempo, jornal onde iniciou a sua atividade jornalística.

Concorre às eleições para a associação de estudantes do colégio, vencendo uma lista de extrema-direita. No final dó liceu, assume ainda a direção do jornal da JSD.

«O jornal chamava-se Pelo Socialismo. Recusei-me a dirigir um jornal com esse nome e, horror dos horrores, passou a intitular-se Jovem Reformista», diz Paulo, rindo. «Era um jovem queque», afirma a irmã, Catarina. «Gozávamos com os pullovers em bico que ele usava.» Aos 18 anos filia-se no PPD-PSD e o cartão de militante é assinado pelo homem providencial que o empurrara para a política, uns dias antes de morrer no acidente de Camarate.

POR LINHAS TORTAS

O desaparecimento do homem da AD e a subida ao poder de Pinto Balsemão desiludem-no da política. «Ainda dei algum tempo à orfandade do Sá Carneiro. Ele era, porém, o meu vínculo ao PSD.» Terminado o liceu, ingressa, em 1979, no curso de Direito da Universidade Católica — onde conhece M anuel Monteiro. Ao contrário do que acontecera no ensino secundário, «onde era estudante de 16», desinteressa-se completamente e termina o curso com média de 13, depois de ter chumbado um ano. Jorge Miranda, professor de Direito Constitucional, recorda que era um rapaz muito inteligente «masque nunca se salientou como jurista». Antes de ingressar no curso, passa pelo Tempo, primeiro como estagiário, depois como comentador político. «Sá Carneiro chegou a telefonar para discutir os artigos com ele.» E em 1980 é, durante dez dias, assessor de imprensa do ministro dos Transportes do VI Governo Constitucional.

O falhanço no lançamento de um grupo de reflexão da Direita Liberal — que termina em românticas discussões com António Pinto Leite, António Lobo Xavier e Luís Nobre Guedes (de quem é padrinho de casamento) — e o final do curso de Direito levam-no a encarar a hipótese de estudar Ciência Política nos EUA.

Frequenta vários cursos de Verão em universidades estrangeiras, algumas delas promovidas pela Heritage Foundation, o bastião da cultura conservadora norte-americana, e fica livredo serviço militar.

FREITAS E MEC

E é por sugestão do professor que desancara aos 15 anos, Freitas do Amaral, que inicia o estágio de advocacia no escritório de Osvaldo Gomes, que nunca termina. Com João Braga e Nicolau Breyner, entretanto, envolve-se na candidatura presidencial de Freitas, sob a batuta dos coordenadores de imagem do professor, Maria Elisa Domingues, Artur Albarrane João David Nunes.

Freitas perde e Paulo apanha a segunda desilusão da vida. «Não há nada pior em política do que querer disfarçar. E ele quis disfarçar, não assumiu o seu passado no marcelismo», explica o diretor d' O Independente. Em contrapartida, a candidatura de Mário Soares contra-atacava, sobretudo nos tempos de antena televisivos, questionando o passado político do professor. Entretanto conhecera, ocasionalmente, uma pessoa na livraria Buchholz que veio a revelar-se fundamental para os projetos futuros — Miguel Esteves Cardoso (MEC). Em 1987, no seu dia de anos , durante um jantar em Lisboa, falam do descontentamento em relação aos jornais em que escreviam, o Expresso e o Semanário. «O MEC dizia que já não aguentava o 'capacete de esquerda' do Expresso. Eu estava farto de escrever num suplemento da Olá. No final do jantar estávamos a perguntar um ao outro porque razão não fazíamos um jornal». Luís Nobre Guedes reuniu o capital necessário e, em Maio de 1988, 0 Independente surge nas bancas.

A AVENTURA DO INDY

O número zero do jornal é um desastre. Nem chega a ser distribuído às agências de publicidade, devido às gralhas nos textos. MEC é o diretor e Paulo o diretor adjunto, trocando de posição em 90, quando o primeiro foi dirigir a revista Kapa. Em Janeiro de 1989, o Indy publica a primeira história que o notabiliza — o caso Cadilhe.

As manchetes explosivas sucedem-se e vão aumentando as tiragens, que passam de 30 para 60 mil exemplares, em 1991. Depois dá um salto para os 75 mil e em 1995, com o destacável do Guiness, a tiragem situa-se nos 110 mil.

O diretor merece o ordenado de 700 contos e as3 000 ações do Independente, que valem cerca de 30 mil contos.

É ele a grande alma do jornal — passa dias intermináveis ao telefone, acompanha o trabalho de cada um dos jornalistas, em Portugal e no estrangeiro. Os amigos queixam-se que deixou de ter tempo. A mãe (que também teve um programa na SIC, Interiores) continua a cuidar dele: compra- -lhe a roupa, trata-lhe das contas bancárias, mantém em ordem a casa. «Todas as semanas a minha empregada vai a casa do Paulo entregar o dinheiro de que ele precisa — e deixo-lhe algum no Independente, para as emergências», revela Helena Sacadura Cabral.

Na vida privada rodeia-se de alguns cuidados — tem um sinal telefónico combinado entre os amigos e não faculta a morada a ninguém. Não é para menos: recentemente foi espancado à porta de casa pelo filho de Helena Vaz da Silva, por causa de uma notícia em que se visava a eurodeputada do PSD.

O grande alvo do Indy são aqueles que chegaram ou chegam ao poder à sombra dos governos de Cavaco Silva. «O jornal apanhou muito bem o tom novo-rico do cavaquismo, daqueles que saíram da caverna para o palácio», diz Paulo Portas.

Mas há-de ser o ataque feroz à Europa de Mastricht, desencadeado semanalmente na coluna Pelo Contrário, que abre espaço ao surgimento de opiniões antifederalistas, sobretudo no CDS, cuja liderança é tomada por Manuel Monteiro em Maio de 1992.

O partido é renomeado e há quem saliente que, no novo CDS/PP, a sigla PP não significa Partido Popular mas Paulo Portas.

ENTREVISTA

Paulo Portas: "A Europa não é um puré de nações"

VISÃO — Manuel Monteiro daria um bom primeiro-ministro de Portugal?

PAULO PORTAS — Acho que sim. Mas é uma opinião pessoal. Faça lá a pergunta seguinte, que imagino qual seja.

Não lhe quero perguntar mais nada sobre este assunto.

Então mesmo sem me perguntar vou-lhe dizer, porque é uma coisa que às vezes me... Eu devo ser o único jornalista português a quem negam o direito de ter opiniões políticas, porque sou de Direita e amigo do Manuel Monteiro.

É o mentor do novo CDS?

Considero que algumas ideias por que eu e muitas pessoas em Portugal se bateram, designadamente em relação à questão europeia, abriram um espaço espiritual para que existisse um partido antifederalista. Para a Europa só exportamos soberania e ainda por cima perdemos democracia. Há cinco anos, a Europa era uma unanimidade nacional e uma irresponsabilidade. Os combates políticos não são concursos de modelos — são combates de ideias. Ou têm um espaço no mundo das ideias ou morrem. Os produtos políticos não são patés de supermercado. O primeiro valor por que me bati, e penso que de modo coerente, foi pela ideia de Nação.

Mas não basta ser antifederalista para ser nacionalista? O PCP também é contra a União Europeia.

O PCP é um partido intemacionalista, as pessoas é que se esquecem disso. O nacionalismo do PCP é puramente residual, porque para o PCP a comunidade política base é a Classe e não a Nação. O Bilhete de Identidade de um comunista é de classe, não é nacional.

Quais são os valores políticos que distinguem a Direita da Esquerda?

Para mim há dois valores que a Direita não pode deixar de ter — os de Nação e Liberdade.

Mas a Liberdade sempre foi um valor da Esquerda?

Não necessariamente. A boa pergunta, neste caso, é aquela que se faz nas universidades inglesas: «Entre a Liberdade e a Igualdade escolhe o quê?» Quem escolhe a Liberdade é de Direita. E um exemplo caricatural, académico. Mas é um facto que as pessoas de Esquerda tendem a valorizar mais o valor da Igualdade.

Nunca ouvi ninguém invocar mais a Uberdade do que o dr Mário Soares...

Mas tem a certeza que o dr. Mário Soares, valorativamente, é um homem de Esquerda? Por exemplo, acho que em termos de Política Económica o doutor Soares está à Direita de Cavaco. O dr. Mário Soares sempre teve uma relação muito mais despreocupada com o capital, os grupos económicos e o mercado do que Cavaco Silva, que sempre teve um problema qualquer com os ricos.

Porque é que se afirma anarco-conservador?

Acho que só se deve mudar quando se tem a certeza que isso é melhor. Não sou daqueles adeptos do «fascismo da mudança». Em Portugal existe uma idolatria da mudança, é politicamente correcto defendê-la. Eu não tenho a certeza que a mudança, tecnológica, social ou política, seja boa.

Depois penso que existem instituições fundamentais para a harmonia dassociedades e que se devem preservar — as igrejas, a família, a propriedade São coisas que estruturam a sociedade.

Entendo ainda que a primeira grande comunidade política é a nação, e continuará a ser. Isto também é um valor conservador. Estou a ler um livro do De Gaulle em que ele tem uma expressão fantástica sobre os eurofederalista: «Estes senhores pensam que é possível fazer um puré de nações». Eu acho que não, e penso que é perigosíssimo. Depois o Estado deve ter uma função política e social. Tudo o resto deve ser tirado ao Estado. Tomara eu que houvessem cem Champalimaud e Jardim Gonçalves.

Então e a componente anárquica?

Eu sou muito individualista, ao contrário dos conservadores. Não me sinto muito disciplinável. Se fosse militante de um partido seria dissidente seis meses depois. Eu acredito na maioria como uma regra de convivência mas não acredito que signifique razão. Sou um fundamentalista da Liberdade, mas não sou um fundamentalista da Democracia. Acho que a Democracia é apenas a melhor maneira de nos darmos uns com os outros. Mas tem quilómetros de defeitos. Aliás, a História prova que existiram dezenas de maiorias que não tiveram razão.

Não aspira a dirigir a Direita portuguesa?

Não me acho típico na Direita e não tenho vontade de convencer as pessoas das minhas ideias. A «Direita dos Salões», burguesa, está completamente feita com o regime — tem os seus piores vícios, partilha as asperversidades e tentações, é cumplice da sua mediocridade e indiferente à corrupção. Mas sobretudo não tenho vocação, para convencer rigorosamente ninguém. É-me indiferente se as minhas ideias têm 0,1 ou 10 de adesão