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Os grandes mistérios da história - Parte I

Mundo

A Atlântida existiu? Como foram construídas as pirâmides? Jesus Cristo teve mulher e filhos? Estas são algumas das perguntas intrigantes que aqui se formulam – seguidas das respostas possíveis

Muitas interrogações vivem ao sabor 
das modas; outras 
são eternas.

Os maiores mistérios que nos envolvem 
são os da origem do Universo 
e do significado da vida e da morte. Mas, para esses, a lâmpada das ciências e o relâmpago das religiões dificilmente nos darão algum dia respostas definitivas. E se entretanto nos dedicássemos, neste verão escaldante e de forma amena, 
a tentar desvendar outros, mais ao alcance dos nossos cérebros? Foi no banho que Arquimedes formulou o seu princípio e à sombra de uma árvore que Newton descobriu a Lei da Gravidade…

Os enigmas do género dos aqui propostos prendem-se sobretudo com a História e, sendo reflexo das preocupações humanas, vão surgindo à luz do dia prêt-à-porter, ao sabor dos gostos e das modas. Um exemplo: ao contrário do que se passava há algumas décadas, hoje pouco ou nada se fala de objetos voadores não identificados (OVNI); em contrapartida, o romance best-seller de Dan Brown, O Código Da Vinci, fez crescer, já neste século, o interesse pelos enigmas relacionados com sociedades secretas e práticas iniciáticas. Mas, como se lê numa famosa passagem do Eclesiastes, “o que foi é o que há de ser e o que se fez se tornará a fazer, de modo que nada há de novo debaixo do sol”. Estes focos de interesse “novos” são, na verdade, muito antigos, e a eles outros se seguirão a seu tempo.

Algumas perplexidades, como as que se relacionam com a Atlântida, o Jardim do Éden ou o Dilúvio, são no entanto tão antigas como a linguagem escrita e resistem ao passar dos milénios. Outras não passam de faits-divers jornalísticos relativamente recentes embrulhados em teias intrincadas. O denominador comum é o signo do mistério, esse grande ponto de interrogação que nos desafia e nos fascina.

Encontro 
com a Idade 
da Pedra - A história possível dos enigmáticos guanches

Quando os europeus chegaram às ilhas Canárias (também lendariamente relacionadas com a Atlântida) depararam ali com um estranho povo de pele e olhos claros – os guanches. Ao contrário dos Açores, da Madeira e de Cabo Verde, este arquipélago atlântico era habitado. Segundo as hipóteses hoje mais aceites, os guanches terão chegado às Canárias por volta do ano 1000 antes de Cristo e viviam ainda na Idade da Pedra quando foram “descobertos”, no século XIV. Cem anos depois estavam completamente dizimados pelos conquistadores castelhanos. A propósito: o nome Canárias deriva dos cães (canis) que proliferavam nas ilhas; os passarinhos que também lá existiam foram batizados a partir dessa designação.

À procura 
da Arca de Noé - Qual é a verdade sobre o Dilúvio 
e a célebre embarcação?

Terá atingido o mundo inteiro o “dilúvio de águas sobre a Terra” que Iavé (o Senhor Deus) anunciou que iria fazer desabar? Não. Sendo o Antigo Testamento obra de homens do Médio Oriente que nunca de lá saíram, a mãe de todas as cheias a que se refere o Génesis terá decerto atingido a planície fluvial da Mesopotâmia. O poema épico A Epopeia de Gilgamesh, compilado no século VII a.C. naquela região, faz alusão a um dilúvio idêntico. Claro como água. Da chuva.

Ninguém ignora que o semilendário patriarca Noé se salvou embarcando numa arca (barca) com os familiares e um casal de cada espécie zoológica. “E a arca repousou, no sétimo mês, no dia dezassete do mês, sobre os montes de Ararat”, especifica o Génesis.

Face a localização tão exata, muitas têm sido as tentativas para descobrir vestígios da arca. De vez em quando, lá vem a notícia: os seus restos foram encontrados. Mas depois tudo volta à estaca zero. E a aventura da busca vai prosseguindo, digna de Indiana Jones – com a diferença de que a arca da personagem encarnada por Harrison Ford era da Aliança entre Iavé e os israelitas, e não a de Noé.

Nor euskaldunek? - Ou seja: quem são os bascos? A resposta é difícil

A origem do povo basco é totalmente desconhecida. Vindos de algures, instalaram-se num cantinho do que são hoje o Norte de Espanha e o Sudoeste de França. Mais ainda: a sua língua não é de origem indo-europeia e os seus genes são diferentes, quer dos dos espanhóis, quer dos dos franceses. Para cúmulo, as sucessivas invasões e ocupações de romanos, visigodos, árabes e francos não deixaram neles marcas assinaláveis. Uma só certeza: estamos perante um quebra-cabeças.

O continente perdido - O que sabemos de concreto sobre a Atlântida?

Terá existido um continente entre a Europa e a América, destruído por um cataclismo há 11 mil anos? Estaria esse continente politicamente unido numa rica e poderosa federação, cuja capital era uma maravilha arquitetónica chamada Poseidon? Teria esse estado ambições ao domínio universal? Haveria ali um metal que hoje desconhecemos, chamado oricalco? Teriam alguns atlantes sobrevivido à destruição e colonizado outros locais para eles transportando os seus conhecimentos? Perguntas como estas – e outras semelhantes – têm vindo a ser formuladas desde que, há mais de 2300 anos, o filósofo ateniense Platão aludiu a esse mundo perdido em dois dos seus diálogos: Timeu e Crítias. O assunto “hibernou” durante a Idade Média, mas no Renascimento despertou do sono secular através das obras A Nova Atlântida, de Francis Blake, e Utopia, de Thomas More. O grego utopia significa “não-lugar”, mas não habitarão as utopias connosco, nas nossas terras? A demonstrá-lo está a ligação tradicional entre a Atlântida e uma parcela do território português: os Açores. Todos ali conhecem a lenda segundo a qual as nove ilhas são os restos do continente engolido pelas águas.

Mas foi preciso esperar até ao século XIX para a Atlântida voltar a inflamar as imaginações. O principal responsável foi um homem baixo e forte, de cabelo ruivo e ar próspero. Ignatius Donnelly, advogado e político americano nascido em 1831, que publicou em 1882 Atlantis, The Antediluvian World (Atlântida, o Mundo Antediluviano) era aparentemente o autor menos indicado para um trabalho deste tipo. Congressista pelo Minnesota, chegou a candidatar-se, sem hipóteses de sucesso, à Casa Branca. O que o terá levado a interessar-se pelo mito platónico? Decerto, a face oculta das coisas, pois até um homem pragmático do interior da América tem forçosamente de sonhar.

Mas já 12 anos antes de Donnelly ter publicado o seu estrondoso best-seller, o escritor francês Júlio Verne tinha levado os protagonistas do romance Vinte Mil Léguas Submarinas a descobrirem as ruínas da Atlântida no fundo do oceano. A partir do último quartel do século XIX, o “continente perdido” nunca deixou de exaltar as imaginações de escritores populares e de ficção científica, mas também de ocultistas e de “meros” sonhadores. Em 1968, um mergulhador descobriu a norte da ilha de Bimini, nas Bahamas, uma estrutura de blocos de calcário de forma regular que se assemelha a uma calçada submarina. Tanto bastou para que se especulasse acerca de uma origem atlante dessa aparente obra humana.

Existem, contudo, outras teorias acerca da localização da hipotética Atlântida. Para citar as mais importantes, há quem a coloque no deserto do Sara e quem a identifique com a ilha grega de Santorini (antigamente chamada Thera), devastada por uma explosão vulcânica no século XVII a.C., quando fazia parte do império minoico. Crónicas chinesas desse tempo fazem menção a um “nevoeiro amarelado” que cobriu a Terra. Efeitos, no Extremo Oriente, da explosão mediterrânica?

Além da Atlântida, a recordação de outros hipotéticos continentes destruídos por cataclismos subsiste na memória dos povos. O de Mu localizar-se-ia no oceano Pacífico e o de 
Lemúria no Índico – e, claro, ambos seriam habitados por povos tecnologicamente evoluídos…

Fiat lux - Eletricidade 
no século XII?

A fazer fé nos escritos 
do diácono e investigador de temas insólitos Éliphas Lévi (1810-1875), um rabino francês do século XII chamado Jechielé, muito respeitado pelo rei Luís IX
(S. Luís), teria iluminação elétrica em casa. Crónicas contemporâneas aludem a um sistema de iluminação sem azeite nem torcida, de que ele detinha o segredo. Consta também que enviava descargas aos importunos que mexiam na aldraba da sua porta. A eletricidade é conhecida desde tempos remotos, mas a sua aplicação prática remonta apenas ao século XIX.

A ‘tecnologia’ das pirâmides do Egito - Como foram construídos tais prodígios arquitetónicos há 5500 anos?

Poucos monumentos são tão famosos como as pirâmides do Egito, sobretudo as três que se erguem em Gisé e que foram mandadas construir em meados do terceiro milénio a.C. pelos faraós que conhecemos pelos nomes gregos de Quéops, Quéfren e Miquerinos, mas que na realidade se chamavam Kkufu, Khafré e Menkauré.

Na Idade Média intrigavam quem as via. Desconhecia-se que se tratava de túmulos de soberanos de uma cultura e de uma religião “perdidas”, e nos meios judaico-cristãos corriam as mais diversas versões acerca da sua finalidade, uma delas a de que se tratava de celeiros mandados construir por José do Egito (personagem do Génesis) acautelando os anos de vacas magras que se avizinhavam. Depois, desprezadas por culturas que não as entendiam, serviram esporadicamente de pedreiras.

A expedição de Napoleão Bonaparte ao país do Nilo, iniciada em 1798, fez nascer o gosto pelas antiguidades egípcias e deu o impulso para o nascimento da egiptologia. O futuro imperador terá proferido, quando arengava aos soldados no local, uma frase que ficou célebre: “Do alto das pirâmides quarenta séculos vos contemplam.”

Mas, para além do fascínio despertado por estes monumentos, o que mais tem intrigado é como foram construídas, sem o auxílio de maquinaria. Não admira que a questão se coloque, quando sabemos que a chamada Grande Pirâmide (a de Quéops) mede 230 metros na base e 140 de altura e é composta por 2 300 000 blocos de granito de 2,5 toneladas cada um.

No último meio século, desde que o livro O Despertar dos Mágicos, de
Jacques Bergier e Louis Pawells (1960, edição portuguesa da Bertrand) lançou uma cultura de massas sensacionalista, ligada a temas pretensamente esotéricos, não têm faltado teorias tidas por explicativas. Umas recorrem à intervenção de seres extraterrestres, outras a levitação, outras a diferentes formas de magia que seria ocioso enumerar. Mas a que continua porventura mais enraizada nos espíritos com a “vantagem” de não recorrer a manifestações paranormais, é a de que as pirâmides foram construídas por multidões de escravos trabalhando à força de chicote. Nada indica, porém, que isto seja verdade. O processo utilizado na construção foi o mais simples e pacífico que se pode imaginar.

Durante as cheias do Nilo, que se prolongavam de julho a novembro, os camponeses ficavam desocupados e tinham de se refugiar das águas em locais mais elevados. Eram então ocupados em obras públicas, no quadro de uma estrutura estatal organizada e a troco de salário. 
A própria escravatura no antigo Egito foi residual, muito aquém da ideia feita de um povo gemendo ao peso de uma cruel opressão.

O egiptólogo português Luís
Manuel de Araújo insiste neste ponto no seu recente livro Os Grandes Mistérios do Antigo Egito (A Esfera dos Livros), sublinhando que não existe “nenhum testemunho escrito ou arqueológico que sugira que os construtores das pirâmides fossem escravos”. O método seguido pelos trabalhadores consistia em fazerem deslizar os blocos de pedra sobre tronco de madeira molhados, colocados sobre rampas de areia que iam subindo junto das faces da pirâmide.

Se há um mistério na antiga civilização egípcia é o da sua grandeza, pacifismo e culto da harmonia, qualidades que explicam que tenha perdurado, numa aparente imutabilidade, por mais de três milénios – tanto tempo como o que decorreu desde a Guerra de Troia até hoje…

Pouca terra, pouca terra - As máquinas a vapor do tempo de Cristo

Os mecanismos a vapor já eram conhecidos no século I, mas só seriam aplicados às indústrias e aos transportes 1800 anos depois. Está documentado que o sábio grego Herão de Alexandria, que viveu entre 10 e 80 da nossa era, concebeu o primeiro motor a vapor, a eolípila. O invento chegou a ter uso prático no teatro, como mecanismo de cena, mas daí não passou. Porquê? Em sociedades essencialmente esclavagistas como as da Antiguidade, não faltava força de trabalho braçal. E o capitalismo ainda não obedecia às regras de produção maciça a que assistiríamos a partir da Revolução Industrial. O genial Herão era um “professor Pardal”…

Onde fica o Paraíso? - Num resort turístico? Não. No Médio Oriente

Escondendo a sua nudez atrás de minúsculas parras, Adão e Eva foram o primeiro homem e a primeira mulher? Sim, segundo a tradição judaico-cristã. O simbólico casal viveu, de acordo com o relato do Génesis, num sítio chamado Jardim do Éden, vulgo Paraíso, e a procura de um paraíso é uma das grandes motivações humanas. Mas mais uma vez se prova que o verdadeiro cego é o que não quer ver. Porque a localização vem minuciosamente explicada na Bíblia: “E plantou o Senhor Deus um jardim do Éden, da banda do oriente, e pôs ali o homem que tinha formado. […] E saía um rio do Éden para regar o jardim, e dali se dividia em quatro braços. O nome do primeiro é Pison: este é o que rodeia toda a terra de Havila, onde há ouro. […] E o nome do segundo rio é Gion; este é o que rodeia toda a terra de Kush. E o nome do terceiro rio é Hidequel; este é o que vai para a banda do oriente da Assíria. E o quarto rio é o Eufrates.”

O paraíso fica, pois, entre o Eufrates (no atual Iraque), Havila (a Arábia), Kush
(a Etiópia) e o rio Gion (talvez o Nilo). A identificação do Pison é obscura, mas, se rodeava a Arábia, talvez se trate de uma alusão ao mar Vermelho e ao golfo Pérsico.

O ano em que começou 
a nossa era - Estaremos em 2017, em 2024, em 2021 
ou em 2011? É fazer as contas…

Não deve haver história mais conhecida no Ocidente do que a do nascimento de Jesus. Ninguém ignora o presépio, a estrela de Belém e os reis magos, embora seja livre de especular sobre o tipo de relação que terá havido entre José e Maria, a virgindade desta e a natureza de Jesus. Mas as biografias deste que nos chegaram apenas abrangem curtos períodos: são os quatro evangelhos, de autoria atribuída a homens que não se sabe ao certo quem foram: Mateus, Marcos, Lucas e João.
O curioso é que os pormenores dos relatos divergem. O da gravidez miraculosa de Maria e do seu parto consta apenas em Mateus e Lucas, mas com versões diferentes. Só Mateus é que se refere à estrela, aos magos, ao “massacre dos inocentes” decretado por Herodes, O Grande, e à fuga de José, Maria e Jesus para o Egito. Este evangelista deixa subentendido que os protagonistas são naturais de Belém e que o nascimento ocorreu na residência do casal, mudando-se para Nazaré apenas depois do regresso à Palestina. Mas, em Lucas, eles são naturais de Nazaré e deslocam-se a Belém para participar num recenseamento decretado pelo imperador Augusto. Ali, não encontrando lugar nas estalagens, resignam-se a passar a noite numa gruta que servia de estábulo, onde nasce a criança entre um burro e uma vaca, perante a adoração dos pastores. Ora, o nascimento em Belém, na Judeia, daquele que ficaria conhecido por “Nazareno” só pode explicar-se pelo esforço de identificar o advento de Jesus com o do Messias, profetizado no Antigo Testamento. Como é sabido, o Cristianismo assentou numa reinterpretação dos textos sagrados do Judaísmo, integrados na Bíblia cristã mas para serem lidos como prenúncios da “boa nova” que aí viria.

É difícil resumir estes temas em poucas palavras. Frederico Lourenço desenvolve-o magistralmente na sua edição da Bíblia traduzida do grego, em curso de publicação (Quetzal Editores).

Um dos problemas mais interessantes é o da datação. Há quantos anos nasceu, Jesus? Há 2017?... De acordo com dados irrefutáveis, o soberano helenístico Herodes, O Grande, morreu no ano 4 a.C. Se (a fazermos fé em Mateus) ele, ao saber que fora dado à luz um potencial Messias, ordenou que todos os bebés fossem mortos, Jesus terá nascido no mínimo quatro anos antes da data consagrada – o que faria com que “estivéssemos” em 2021, ou até em 2022 ou 2023.

Mas aqui surge outro problema: o do recenseamento. O único que conhecemos por aqueles anos foi mandado fazer quando Quirino era governador da Síria. Ora, este Quirino desempenhou o cargo por duas vezes, a primeira de 4 a 1 a.C. e a segunda de 6 a 11 d.C. Se a primeira datação pode ainda abranger o reinado de Herodes, a segunda já não. Este dado entra pois em colisão com a deslocação de José e Maria a Belém para esse efeito, apontada por Mateus quando Herodes decretou a “matança”, já que estão separados no tempo por dez (ou mais) anos.

Outra referência para a datação é o facto de o romano Pôncio Pilatos, que presidiu ao julgamento de Jesus, ter sido procurador da Judeia entre 26 e 36. A crucificação não pode, assim, ter ocorrido depois deste último ano. Está convencionado que Jesus morreu com 33 anos, o que fixaria em 27 ou 29 a data desse acontecimento. Quanto à estrela de Belém, há quem a identifique com o cometa Halley, que esteve visível em 4 a.C. Mas Kepler descobriu que em 22 de agosto de 7 a.C. houve uma conjunção astral produtora de forte luminosidade. Terá Jesus nascido nesse dia de há 2024 anos? Tanto uma data como outra cabem dentro do reinado de Herodes, e coincidem vagamente com o segundo mandato de Quirino.

Finalmente, a celebração do Natal em dezembro é uma convenção da Igreja para manter a tradição das festas saturnais de fim de ano, já que nenhum dos evangelhos cita um mês preciso.

Local assinalado com cruz - Onde fica o verdadeiro Santo Sepulcro?

A Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém, foi mandada construir no século IV pelo imperador romano convertido ao cristianismo Constantino no local onde, supostamente, Jesus foi crucificado e sepultado. Mas o sítio, identificado pela mãe do imperador, Flávia Helena (Santa Helena), pode não estar certo. No século XIX começou a ser levantada essa hipótese, e o general britânico Charles Gordon conseguiu persuadir a rainha Victoria e os seus compatriotas em geral de que descobrira o “verdadeiro” gólgota num local a norte da cidade. Esse terreno foi comprado por uma sociedade constituída para o efeito e tornou-se local de culto, mas estudos arqueológicos mais apurados demonstrariam que o túmulo ali existente é do tempo do rei Salomão, portanto mil anos anterior à morte de Jesus.

A família de Jesus - O “Nazareno” vivia com os irmãos 
e depois foi casado e teve uma filha?

Para os cristãos, Jesus era enteado do carpinteiro José (remoto descendente do rei David) e filho de uma virgem chamada Maria que engravidou por interceção do Espírito Santo. A sua identificação com a divindade é um dogma aceite pelos crentes, definido pela Igreja após múltiplos debates nos primeiros tempos da nova religião. O facto de Jesus ter permanecido solteiro coloca-o na margem da sociedade, pois na Palestina do seu tempo um tal estatuto não era bem aceite. Para parte dos crentes, a virgindade de Maria manteve-se enquanto ela viveu; para outros, perdeu-se depois da “imaculada conceção” de Jesus, subentendendo-se que houve relações com o marido. Que Jesus teve irmãos parece ser incontroverso, pois há referências a eles nos evangelhos de Mateus e Marcos. Para explicar a existência dessas figuras, os que defendem a virgindade perpétua de Maria argumentam que seriam filhos de outra mulher. Mas aqui terminam as referências oficiais à família de Jesus. Não há prova de que tenha deixado uma linhagem. Contudo, segundo uma tradição antiga, Maria Madalena, personagem dos evangelhos, teria sido mulher de Jesus e mãe de uma filha de ambos, Sara, sendo esta portanto de “sangue real” (ou o próprio Santo Graal). De acordo com essa lenda, após a morte de Jesus as duas cruzaram o Mediterrâneo e desembarcaram no Sul de França, aparentando-se depois os descendentes de Sara com os reis francos merovíngios. A dinastia merovíngia reinou entre os anos 476 e 750, mas face ao declínio esforçou-se por manter viva a linhagem de Santo Graal, criando para isso uma sociedade esotérica, o Priorado de Sião.

Estas e outras hipóteses são o tema do livro especulativo O Santo Graal e a Linha Sagrada, de Michael Baigent, Richard Leigh e Henry Lincoln (1987, edição em português da brasileira Nova Fronteira), que deu algum brado na altura mas nada de comparável ao sucesso que estava reservado a outro autor, este assumidamente ficcionista: o americano Dan Brown, autor do romance O Código Da Vinci, de 2003 (Bertrand). Este desenvolveu o tema ao jeito do thriller, criando uma corrente temática em que se inscreveriam múltiplos epígonos.

Assim, a Ordem do Templo, fundada em Jerusalém durante as Cruzadas, terá emanado do Priorado de Sião, e os Templários terão procurado nas ruínas do Templo de Jerusalém documentos confirmativos da descendência de Jesus. Mais ricos do que os reis cristãos e detentores de segredos que contrariavam a versão oficial sobre Jesus, cedo se tornaram alvo na abater – razão pela qual Filipe, O Belo, de França, os perseguiu, processou e eliminou em 1307, com a cobertura do Papa Clemente V.

De acordo com antigas tradições prolongadas e desenvolvidas pelos referidos escritores especulativos, em França os Templários sobreviventes terão mantido no seio do Priorado de Sião os segredos relacionados com a linhagem de Cristo. A procura do Santo Graal seria a busca dos documentos levada a cabo pela Igreja com o fim de os destruir, competindo ao Priorado preservá-los e restaurar a dinastia merovíngia, não só em França mas em toda a Europa.

Independentemente destas teorias sem bases sólidas, é um facto que em finais do século XIX e inícios do XX o pároco da localidade de Rennes-le-Château, no Sul de França, passou a dar grandes sinais exteriores de riqueza depois de se ter deslocado a Paris. Os autores referidos levantam a hipótese de Bérenger Saunière (assim se chamava o padre) ter descoberto, escondidos do interior de uma coluna da igreja, documentos comprometedores para a versão oficial da vida de Jesus, e que os terá vendido por bom preço à hierarquia católica. De acordo com a linha especulativa, esses segredos só poderiam estar relacionados com a linhagem de Jesus.

João Paulo, 
o Breve - Só o deixaram ser papa durante um mês?

O patriarca de Veneza Albino Luciani foi eleito Papa em 26 de agosto de 1978. Ao saber do resultado da votação quis recusar o cargo, no que foi contrariado pelos colegas de conclave. Consta que terá comentado que outro merecia muito mais do que ele ocupar o lugar, referindo-se ao polaco Karol Wojtyla. Por fim, adotou o nome de João Paulo I,
rejeitou a coroação e recusou-se a ser transportado em liteira.

Passados 33 dias foi encontrado morto no seu quarto. A versão oficial é que faleceu vítima de enfarto, mas não houve autópsia. Não tardaram a surgir especulações acerca dessa doença súbita, associada a pressões exercidas sobre ele pela Cúria romana. Daí à 
teoria de que foi assassinado foi um ápice. No livro Em Nome de Deus
(D. Quixote), o investigador britânico David Yellop sustenta que foi eliminado por elementos da Cúria com ligações à Máfia por estar a tentar deslindar a trama dos obscuros negócios financeiros do Vaticano. O sucessor, eleito em 22 de outubro, seria exatamente o seu favorito, Wojtyla (João Paulo II).

Para adensar a dimensão misteriosa da história, uma revista de atualidades italiana contou que Albino Luciani visitou certa vez a irmã Lúcia no Carmelo de Coimbra e que esta terá predito que ele um dia seria Papa, “mas por pouco tempo”.