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Racismo em Silicon Valley (ou como os vanguardistas das tecnológicas são, afinal, conservadores)

Economia

Travis Kalanick, o fundador da Uber foi afastado da presidência na sequência de uma série de escândalos

Danish Siddiqui / Reuters

Há cada vez menos negros e latinos a trabalhar em Silicon Valley, enquanto as mulheres, seja qual for a sua “cor”, se queixam de discriminação. As minorias não têm a vida facilitada mesmo entre a geração dos “Millennials”

Os preconceitos estão todos lá. E ninguém melhor para os mostrar ao mundo do que Steve Bannon, “herói” da extrema-direita americana, ex-estratega de Donald Trump. Dizia ele que “quando dois terços ou três quartos dos CEO (presidentes executivos) de Silicon Valley são da Ásia, então…”. A frase ficou no ar, mas a sugestão estava feita.

O problema de Bannon, já se sabe, não é só a ideologia. O seu site de “noticioso”, o Breitbart News, publica diversas notícias falsas e outras pérolas, que ostentam títulos como “Não existe discriminação na contratação de mulheres nas empresas tecnológicas; elas simplesmente são muito más nas entrevistas” ou “Os métodos contracetivos deixam as mulheres feias e malucas”.

Mas voltando a Silicon Valley e aos asiáticos. Um estudo da organização não governamental Ascend Foundation, publicado esta semana, mostra que os trabalhadores de origem asiática até são mais contratados do que os negros ou os latinos. No entanto, é menos provável que sejam promovidos, quando comparados com os trabalhadores brancos. Steve Bannon e os seus exageros em relação à quantidade de CEO vindos da Ásia…

O referido estudo mostra ainda que existe um continuado preconceito racial em Silicon Valley, tendo aliás a representação de trabalhadores negros e latinos diminuído ao longo dos anos. “Não tem havido nenhuma mudança para os asiáticos e outras minorias ao longo do tempo, sejam homens ou mulheres”, disse ao jornal The Guardian Buck Gee, um dos autores do documento, que analisou o emprego em Silicon Valley entre os anos de 2007 e 2015.

Para alguns grupos, continua o autor, “até é pior agora”. Os executivos negros diminuíram em 18%; as trabalhadoras negras nas tecnológicas são agora menos 13 por cento; o declínio da representação dos latinos, homens e mulheres, foi de cerca de 5 por cento…

Parece mentira, tendo em conta que falamos da geração dos “Millennials”, os nascidos após 1981. Dizem os estudos que são digitais e globais, que não conhecem fronteiras e, por isso, são uma geração mais aberta e tolerante do que a dos seus pais…

Dizem os estudos. A prática mostra outra coisa. No último ano, aliás, cresceram as polémicas em torno da misoginia dos executivos de Silicon Valley, debaixo de uma chuva de acusações de assédio sexual contra as mulheres. (Leia mais aqui)

A polémica estalou também na Google, quando um dos seus engenheiros divulgou uma nota que dizia isto: “As opções e as capacidades de homens e mulheres divergem, em grande parte devido a causas biológicas, e estas diferenças podem explicar o porquê de não existir uma representação igual de mulheres (em posições) de liderança”.

O engenheiro foi despedido. Mas os números não deixam que a realidade se esconda. Até em Wall Street há muito mais mulheres do que em Silicon Valley. Elas são 55% da força de trabalho do Bank of America; 54% na JP Morgan e no Citigroup. Por outro lado, representam 32% dos trabalhadores do Facebook; 31% da Apple e 29% da Google.

Apesar de tudo, continua o estudo da Ascend Foundation, as mulheres brancas ainda conseguem “furar” até ao nível do executivo, em maior número do que os homens e as mulheres das minorias prejudicadas em função da cor da pele.

Os “Millennials”, afinal, não ficam nada bem no retrato. Já cantava a grande Elis Regina: “Minha dor é perceber; Que apesar de termos feito tudo o que fizemos; Ainda somos os mesmos e vivemos; Ainda somos os mesmos e vivemos; Como os nossos pais…”