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Pelas terras de Amos Oz

Cultura

Jason Kempin

No dia em que é conhecida a notíca da morte de Amos Oz, recordamos a entrevista publicada na VISÃO de 10 de março de 2005. Releia a conversa com o escritor que diziam ser profeta

Viu nascer o estado israelita, viu por dentro duas guerras e vê, agora, entre judeus e muçulmanos, alguns sinais de aproximação. Refugiou-se no deserto para contar histórias de gente infeliz lidas como metáfora de um país. Conversa com o escritor que dizem ser profeta

Da varanda do Mishkenot Shaananim, vêem-se as muralhas. Dali em diante, aponta Amos Oz, era território jordano. A memória do autor (que combateu na guerra que, em 1967, haveria de reunificar Jerusalém sob o domínio israelita) é a memória dessa cidade onde Amos Oz nasceu há 66 anos e que, daqui a pouco, deixará. Em direcção ao Sul, ao deserto do Negev e também ao silêncio que lhe permite continuar a escrever histórias de famílias infelizes nas quais contra a sua vontade todos tendem a ver alegorias políticas.

Daquele que escolheu para apelido a palavra hebraica que designa «coragem» não surgirão declara-ções idealistas sobre o con.ito israelo-palestiniano. Amos Oz é o homem do compromisso sendo que este, no Médio Oriente, não quer bem dizer a mesma coisa que no mundo ocidental. Em A Tale of Love and Darkness, o seu último livro que as Edições Asa ainda estão a traduzir para português, Amos Oz conta na primeira pessoa a história da sua família que, por vezes, também se confunde com a história do povo de Israel. Talvez por isso lhe chamem profeta. Ele é que como adiante se con.rmará não se sente muito confortável nessa pele.

VISÃO: O que é que devia acontecer para que, no futuro, possamos dizer que os acordos de Sharm-el-Sheik foram bem sucedidos?

AMOS OZ: Teremos que ver os dois lados a recuar em certos aspectos. E ao mesmo tempo.

Em sua opinião, há condições para isso acontecer?

Não vou fazer uma profecia aqui. É difícil ser profeta em Jerusalém porque se trata de um lugar onde há demasiada competição. Pode acontecer, embora eu não espere que seja fácil nem rápido porque, em ambos os lados, existem fanáticos que tudo fazem para destruir o compromisso e, assim, cons-ruir este cemitério. A paz é uma cirurgia dolorosa entre israelitas e palestinianos.

O assassinato do antigo primeiro-ministro libanês Hariri é uma peça deste xadrez?

No sentido lato, é. Porque também ele demonstra o con.ito existente não entre o Islão e o Ocidente, mas sim entre os muçulmanos e os fanáticos.

Não se trata de um choque de civilizações?

De modo nenhum. Fanáticos e fundamentalistas existem no Médio Oriente, nos Estados Unidos (e não muito longe do Governo americano) e na Europa. E a ideia é sempre a mesma se não gosto de alguém, então, mato-o juntamente com os seus vizinhos; se não concordo com alguma coisa, então, mando-a pelos ares. Pessoas que fazem explodir clínicas de aborto na América ou vandalizam mesquitas e sinagogas na Europa só diferem de Bin Laden na escala da sua acção. A verdadeira guerra mundial é travada entre os fanáticos, para quem os fins justificam os meios, e todos nós, que por acaso até acreditamos que a vida humana é sagrada.

Foi um dos fundadores do movimento Peace Now. Que papel compete à sociedade civil neste preciso momento?

Fico contente que tenha mencionado a sociedade civil. A sociedade civil é tolerante por definição. Acredito que a existência da sociedade civil é uma pré-condição para a democracia.

Existe uma sociedade civil em Israel?

Existe sim. E isso é o que a Europa parece ignorar. Para muitos europeus, Israel é Ariel Sharon e, por isso, é que nas últimas semanas os europeus se têm interrogado: O que é que aconteceu ao terrível Sharon? Quem é este recém-nascido Sharon? Este país é um grande fórum a céu aberto. Na Palestina, também existe uma sociedade civil nuclear. Não é muito forte, mas é o princípio de uma sociedade civil que, noutros países árabes, não chega a existir.

O Islão não tem grande apreço pela sociedade civil?

O Islão não é excepção. Temo que nenhuma religião tenha grande apreço pela sociedade civil.

Mas o que é que a sociedade civil israelita deve fazer?

Deve prosseguir com o que, até agora, tem sido feito. Deve dar todo o seu apoio de forma a promover a existência de mais compromissos pragmáticos. Não se trata de genuflectir e dizer aos palestinianos: «Abdicamos de tudo, dêem-nos o vosso amor. Vós sóis maravilhosos, nós somos terríveis. Perdoem-nos.» Neste preciso momento, penso que a sociedade civil (juntamente com os partidos de esquerda) deve impedir que a extrema direita derrube o Governo de Sharon. Isto pode parecer muito estranho, mas eu acordo a meio da noite a pensar que vou dizer aos meus delegados no knesset [parlamento de Israel] para votarem em Sharon.

O que é que, a seu ver, permitiu esta aproximação?

Foi fundamental a morte de Yasser Arafat? Na sociedade israelita os problemas não são resolvidos porque, de repente, um dos partidos se arrepende e se considera um cretino. Nem sequer porque alguém inventa uma fórmula mágica que faz com que, de um momento para o outro, todos passem a adorar-se e a viver em lua-de-mel.

O «let's make love not war» do discurso pacifista tradicional...

...que, aliás, é uma declaração muito estúpida. A sociedade israelita está cansada e quer um compromisso. O que, para mim, permitiu esta aproximação foi o cansaço. E cansaço significa compromisso. E o compromisso não significa capitular, antes encontrar os outros a meio caminho. E isto pode acontecer, se se acabar com o pensamento idealista da Europa que considera que o compromisso é desonesto e oportunista.

A Europa está habituada a resolver os seus problemas com revoluções.

O que se relaciona com o facto de a Europa ser quase o mais violento dos cinco continentes. Se juntarmos todas as atrocidades cometidas por Saddam Hussein e Bin Laden, mesmo assim não pode justificar a quantidade de sangue inocente derramado pela Europa e pelos europeus. E esta é a razão pela qual eu considero que a Europa deveria ser um pouco mais cautelosa e táctil nos conselhos que dá aos judeus e aos muçulmanos, porque ambos foram vítimas dela.

Segundo o estereótipo europeu, é estranho que a paz esteja a ser feita por um falcão.

Não há nada de estranho nisso. Pense-se nos grandes líderes mundiais. Quem é que, na América e na União Soviética, conteve a guerra fria? Vimos Churchill a desmantelar o império britânico, vimos De Gaulle, vimos Gorbachov, vimos Sadat a vir aqui a Jerusalém.

Falando agora na América. Foi influente a nova política americana para o Médio Oriente?

De uma forma determinante, não. Porque não é possível instaurar a democracia. Não sou daqueles paci.stas que criticam a violência a todo o custo. Às vezes, uma arma é necessária. Contudo, nesta questão, a América sabe a resposta. Em 1945, a América construiu a sociedade civil na Europa e no Japão com o Plano Marshall.

A «vergonha» de que a Europa nunca chegou a recuperar.

Mas, na minha opinião, esse foi talvez o acto mais grandioso de toda a história da humanidade. Os Estados Unidos deram uma parte do produto interno de todo aquele império a estrangeiros. Claro que o objectivo era travar Estaline e o comunismo, mas o Plano Marshall é a razão pela qual a sociedade civil europeia recuperou da crise. Por isso é que, agora, a Europa deve apoiar a sociedade civil na Palestina. A Europa tem, neste momento, a oportunidade de ser a «doadora» do Plano Marshall.

Novamente uma pergunta para o profeta: acredita mesmo que isso é possível?

Não sei se a Europa o fará, mas acredito sinceramente que o devia fazer. Pede-me profecias e, de profecias, eu só posso dar as do passado.

Defendeu que existem duas guerras no conflito israelo-palestiniano. A primeira a justa é aquela em que os palestinianos reivindicam um estado. A segunda a injusta tem a ver com os movimentos islâmicos que querem destruir Israel. A minha pergunta é: no que diz respeito a esta segunda guerra, Israel sempre fez jogo limpo?

Certamente que não. A primeira guerra travada por Israel é uma guerra de sobrevivência. A outra guerra é uma guerra travada para obter território que envolve direitos históricos e lugares sagrados. E, em ambos os lados, esta é a história do dr. Jekill e Mr. Hyde. O problema é que, como num filme desprezível de Hollywood, os europeus sempre quiseram saber quem são os bons e quem são os maus. Os europeus sempre quiseram assinar petições contra os maus, adensar manifestações a favor dos bons e, assim, sentirem-se bem com a sua própria consciência. Mas eu tenho uma percepção diferente do confito israelo-palestiniano. Em certo sentido, o século XX foi de fácil compreensão.

Como assim?

Colonialismo era mau, descolonização era boa. A guerra no Vietname estava errada, a saída da América do Vietname estava certa. O apartheid preconizava o mal, o fim do apartheid preconizava a perfeição. Só que tudo isto criou na cabeça dos euro-peus uma lógica que, aplicada ao Médio Oriente, não funciona. Porque nem israelitas nem palestinianos têm para onde ir.

Nem como escritor se sente identificado com a Europa?

Não me vejo como europeu porque, em primeiro lugar, escrevo em hebraico. E, depois, porque não só os meus pais, que eram europeus, foram violentamente chutados da Europa como parte da minha família foi morta pela Europa. Em mim encontrará um homem que está farto de cromossomas europeus.

Mudou-se há alguns anos para o deserto. O que é que procura no Negev?

Algum silêncio, alguma solidão e algum abandono que me permita escrever. Es-crever um poema é como se fosse uma noite de amor, escrever um conto é um namoro, mas escrever um romance é um casamento.

Quando um dia lhe disseram que daria um excelente primeiro-ministro, respondeu que não era Vaclav Havel. Mas qual deve ser, em sua opinião, o papel de um escritor num país destes?

Não posso responder a essa pergunta. Tudo o que posso fazer é dizer o que sinto que devo fazer. E, no meu caso, sinto que devo erguer a minha voz e gritar. Escrevo muitas vezes artigos e publico-os sempre em jornais de direita. Porque eu não quero comunicar com as pessoas que pensam da mesma forma que eu, o que quero é chegar aos outros. Também integro algumas manifestações e tenho encontros com palestinianos.

No passado, combateu na Guerra dos Seis Dias e na Batalha de Yom Kippur. Também é uma forma de participar?

Sim, é verdade. Nunca lutarei porque alguém discorda de mim ou por aquilo a que vulgarmente se chama interesses nacionais ou por territórios extras. Prefiro ir para a prisão a lutar nestas circunstâncias. Apenas lutarei se alguém tentar matar-me, a mim ou ao meu próximo, e se alguém tentar tornar-me num escravo. Isto é que os europeus não compreendem que, no mundo real, se tem que escolher entre vários tons de cinzento.

Existe uma tendência para ler as suas histórias de forma alegórica. Serão elas um modo de fazer a história deste país?

Eu só quero contar a história de algumas famílias. Se vivesse numa sociedade onde não me deixassem escrever, faria como Milan Kundera que, sob o domínio comunista, criava histórias ale-góricas. Mas, quando pretendo defender que o con.ito entre israelitas e palestinianos se resolve com um com-promisso, sento-me e, numa hora, escrevo um artigo. As pessoas tendem a ler o trabalho dos escritores provenientes de qualquer zona problemática do mundo como uma alegoria acerca do modo como eles vêem o que se passa. É uma perda de tempo considerar todos os romances dos escritores da América Latina como nada mais do que fábulas de ditadores. É uma perda de tempo ler uma história escrita por mim como nada mais do que uma simbologia da guerra israelo-palestiniana.

Não é possível escrever a História através da ficção?

Claro que é. Mas esse não é o meu ramo. Se alguém me disser que a Hannah [de O Meu Michael] representa 0,2% da po-pulação israelita, não me importo. Não estou interessado em elegê-la primeiro-ministro.

Então começou a escrever apenas porque queria contar histórias?

Absolutamente. Não conheço ninguém que não precise de contar ou de ouvir contar histórias. E precisamos de o fazer porque temos necessidade de comparar as nossas vidas com as vidas dos outros. Um grupo de mulheres velhas sentadas a recordar tempos antigos, um grupo de homens carregados de memórias de que por vezes não se lembram, dois amantes que, à noite, na cama, contam um ao outro o que se passou. Tudo isto vem antes da religião, da política e da sociologia e não pode ser justi.cado pelo desejo de mudar o governo ou o mundo. Ler um romance e começar uma revolução? Este entendimento só demonstra que quem o profere não percebeu nada do romance.

Gostava que me contasse a história de quando conheceu Ben Gurion.

Conto essa história no meu último livro, A Tale of Love and Darkness. Em 1959, Ben Gurion assinou um ensaio sobre Espi-nosa. E eu escrevi uma carta discordando da sua interpretação da obra de Espinosa, carta essa que, para meu espanto, foi publicada. Recebi depois um telefonema convocando-me para um encontro às seis da manhã do dia seguinte. Eu era apenas um soldado, nem sequer tinha uns sapatos para além das botas da tropa, e ia participar num debate ideológico-fillosóco com o meu superior máximo?

E o que se seguiu não foi propriamente um debate.

Nada disso. Passei essa noite em claro e, no dia seguinte, tremia tanto que o secretário teve que me empurrar para dentro da sala onde estava Ben Gurion. Entrei e ele começou imediatamente a dar-me uma lição sobre Espinosa. Falou, falou e, quando o secretário o interrompeu, virou-se para ele e disse: «Não vê que estou a ter uma das melhores conversas dos últimos anos?» Continuou a falar e, no final, disse-me: «Gostei muito de falar consigo. Da pró-xima vez que estiver na cidade, apareça, por favor.»

BILHETE DE IDENTIDADE

Nasceu em Jerusalém em 1939 e, durante muitos anos, viveu no kibbutz Hulda onde se cultivava algodão.

Fundador do movimento Peace Now, mudou-se recentemente para o deserto do Negev, não muito longe da cidade de Arad, onde vive com a mulher e o filho.

Continua a dar aulas de literatura na Universidade de Ben Gurion e, todos os anos, surge nas listas de escritores «candidatos» ao prémio Nobel.

EM PORTUGUÊS

O MEU MICHAEL (1968) Asa O romance mais conhecido de Amos Oz que relata o casamento de Hannah Gonen com Michael, um homem ho-nesto mas extremamente desinteressante.

A CAIXA NEGRA (1987) Dom Quixote A história de Ilana, uma mulher israelita que não consegue esquecer o seu ex-marido, agora professor universitário em Chicago.

CONHECER UMA MULHER (1989) Dom Quixote O retrato psicológico de um agente de espionagem que, após a morte da sua mulher, decide reformar-se.

A TERCEIRA CONDIÇÃO (1991) Asa Fima é recepcionista numa clínica ginecológica de Jerusalém e quer aliviar todos os sofrimentos do mundo.

NÃO CHAMES À NOITE NOITE (1994) Asa Numa cidade junto ao deserto de Negev, a morte de um adolescente vai interferir na relação de um casal já de si fragi-lizada pelo tédio e pela incomunicabilidade.

UMA PANTERA NA CAVE (1995) Asa Um falso livro juvenil passado em 1947, o último ano do mandato britânico na Palestina.

O MESMO MAR (2002) Asa Um romance em verso no qual se cruzam as vidas de cinco personagens e o retrato de um país Israel, claro na actualidade.