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Dez figuras da Feira do Livro de Guadalajara: O Tradutor

Cultura

No último fim de semana da Feira Internacional do Livro (FIL) de Guadalajara, a maior da América Latina, a Visão destaca dez figuras que marcaram a edição deste ano, que teve Portugal como Convidado de Honra. Do Prémio Nobel Orhan Pamuk ao último grande imperador asteca, sem esquecer os responsável pela divulgação da Literatura Portuguesa nos países hispanofalantes, eis uma viagem por livros, traduções e mitos. Neste artigo, o Tradutor

José Javier Villarreal

José Javier Villarreal

Juan Rodrigo Llaguno

Sem tradutores não haveria literatura. A afirmação talvez seja exagerada, mas faz todo o sentido na FIL. Há na literatura um alcance global que só a tradução proporciona. “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”, dizia Tolstói. A frase remete para a necessidade de se cantar o que nos torna únicos. Contudo, nela também se afirma a possibilidade de as histórias individuais chegarem aos quatro cantos do mundo.

Sem tradutores não haveria literatura. Ou pelo menos uma feira como a de Guadalajara, nem a presença de Portugal como Convidado de Honra. Aos muitos tradutores mexicanos (e espanhóis e de toda a América Latina) deve-se a divulgação do melhor que se escreve em português. Muitos visitam, com curiosidade, o Pavilhão de Portugal na FIL, como José Javier Villarreal, que em nove perguntas conta à Visão a sua relação com a língua de Camões, poeta que definiu o seu caminho.

Como se deu o encontro com a Língua Portuguesa?
Com a leitura, na escola, de Os Lusíadas, de Camões. Obviamente que o Pessoa de Octávio Paz foi decisivo. Mas só comecei a ler em português, no Texas, nos EUA, quando descubri os poetas brasileiros, nomeadamente Drummond de Andrade.

Qual foi a sua primeira tradução?
Em 2000 traduzi uma antologia de Manuel Bandeira, o que deu início a uma relação mais próxima com a língua portuguesa, publicada pela Universidade Autónoma do México, onde 15 anos depois publicaria Nove Poetas Portugueses para um Novo Século, organizada por Nuno Júdice. Foi uma antologia muito importante para mim, pois permitiu-me perceber as diferenças, semelhanças e pontes entre os poetas portugueses e brasileiros. Uma só língua com duas tradições e múltiplas forma de viver e cantar a vida.

Que outros escritores de Língua Portuguesa já traduziu?
Oswald de Andrade, Murilo Mendes, Lêdo Ivo, Ferreira Gullar, Paulo Leminski, Nuno Júdice e Armando Freitas Filho, a par de antologias de poetas portugueses e brasileiros.

Que autores de língua portuguesa gostaria de traduzir?
Os autores de língua portuguesa de agora, vozes fundamentais da expressão lírica do nosso tempo, uma imensa zona de privilégio para um tradutor. Gostaria de traduzir (numa lista que obedece ao gosto mas também ao desconhecimento): Adélia Prado, Francisco Alvim, Ana Cristina Cesar, Ana Luísa Amaral, Margarida Vale de Gato, Jorge Reis-Sá. Exemplos de uma exploração e de um assombro constantes.

Tem algum autor preferido?
Nuno Júdice. Neste último ano convivi com 250 poemas seus, a partir de uma selecção de Ricardo Marques. É uma obra de grande maturidade, uma proposta lírica em marcha. Conheci a sua poesia em 1995, com Um Canto na Espessura do Tempo. Não sabia nada do poeta, mas os poemas cativaram-me. E comecei a seguir a sua obra.

Do que mais gosta na Língua Portuguesa?
A língua é uma casa, um espaço que se habita. Imagino-me como um caranguejo eremita que anda à procura da sua carapaça. Também posso ver-me como um glutão que tudo deseja e nunca se sacia. Rendo-me ao contágio, pertenço a um país que é produto da mestiçagem, incluindo a literária. E as línguas portuguesa e espanhola dão um excelente casamento.

Qual o maior obstáculo na transição para a Língua Espanhola?
Lezama Lima tem uma frase que, mais do que um flagelo, é um incentivo, imperioso e perturbador, mas também sumamente propositivo: “Só o difícil é estimulante”. Trata-se de ter tempo, de nos determos e contemplar, de imaginar, erotizar, dar a volta, enroscar ou estirar. De que falo? Da tradução, do ouvir, de escutar para poder avançar. Na realidade, dançamos sobre um centro, criamos uma coreografia num espaço aparentemente já dado, mas não totalmente traçado porque há uma vontade, uma fé em encontrar um gato de três pés. Continuo a falar da tradução. A grande tensão e possível queda é a velocidade, o aprisionamento, a atração pelo demónio que falsamente se espelha entre as línguas portuguesa e espanhola. Esse é um perigo, uma pedra, uma piscina sem água. Talvez essa tentação não seja tão sedutora em outras línguas. Talvez. Um dia, Julio Ortega, excelente crítico peruano, advertiu-nos que a palavra milagre quer dizer na verdade ver mais além. Quem sabe se isso não é a própria tradução, um ver mais além, um milagre.

O que faz uma boa tradução?
A paixão, sem dúvida. A compreensão de que só é possível quando conhecemos e assumimos todas as partes. Amar a língua de chegada, mas também estar seduzido não pela língua de origem, mas pelo manejo que o autor faz da dita língua. É assumir que se está diante de uma exceção. O nosso autor maneja o seu idioma de tal forma que se torna único dentro do seu próprio continente linguístico, uma tradição, que se vê perturbada e robustecida com a sua obra. O trabalho do tradutor é transportar essa força para outro continente linguístico.

Qual a melhor definição de um tradutor?
Um leitor cuidadoso, lento, com ritmo na sua leitura e pensamento. Recentemente, li um comentário sobre as versões que Borges fez de Walt Whitman que me emocionou. “Tão sublimes, quanto inexatas”. Fiquei pasmado. Não sei se é possível ter uma tradução sublime sem ser inexata. A tradução literária pode ser muitas coisas, vista a partir de diversas perspetivas e obedecer (ou não) a teorias que procurem dar-lhe garantias ou certificados de qualidade. Podemos mudar os nomes, falar de tradução, versão, aproximação, homenagem, paráfrase, à maneira de..., mas de uma coisa estou convencido: a tradução literária nunca pode ser literal.

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