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Os cinco livros que Bill Gates gostou mesmo de ler em 2017

Cultura

Jim Urquhart/ Reuters

O bilionário filantropo, e co-fundador da Microsoft, assume-se como um leitor militante e revela quais foram as suas melhores leituras do ano que agora finda

O presidente da Bill & Melinda Gates Foundation poderia ser um bom rosto para campanhas de sensibilização para a leitura. No seu blog, o co-fundador da Microsoft já escreveu isto: “Ler livros é a minha maneira preferida de aprender sobre um novo assunto. Desde criança, leio uma média de um livro por semana.” E as suas escolhas de cabeceira vão muito além da tecnologia, fluxos de capitais ou filantropia – em 2016, por exemplo, o bilionário escolheu um romance de David Foster Wallace, a biografia do co-fundador da Nike, Phil Knight, e um tomo sobre os genes da autoria de Siddartha Mukherjee.

Em 2017, cinco livros ganharam a preferência de Bill Gates, e todos podem ser arrumados em prateleiras diferentes, já que os temas vão da comédia à guerra do Vietname, em géneros tão diferentes como a ficção, a biografia, o ensaio e a novela gráfica. “Ler é a minha forma preferida de satisfazer a minha curiosidade”, assegura ele num artigo publicado na revista norte-americana TIME. E o magnata acrescenta: “Embora tenha a sorte de conhecer muita gente interessante e de poder visitar lugares fascinantes através do meu trabalho, continuo a acreditar que os livros são a melhor maneira de explorar novos tópicos que nos interessam.” Estas sugestões, garante, são perfeitas para quem quiser “enroscar-se à lareira com um belo livro nesta altura do ano”.

Uma novela gráfica inspirada na vida de uma família vietnamita

Uma novela gráfica inspirada na vida de uma família vietnamita

Uma lareira é um luxo que Thi Bui seguramente só conheceu quando a sua família fugiu para os EUA em 1978. Em criança, esta vietnamita sonhava ser advogada de direitos civis, hoje a sua profissão passa pelos bancos das escolas onde é professora. A sua primeira novela gráfica, The Best We Could Do (Harry N. Abrams, 2017), criada a brancos e laranjas suaves, é caraterizada por Bill Gates como “belíssima”, “uma memória pessoal profunda que explora o que significa ser-se refugiada e mãe”. O tema parte da própria experiência de Thi Bui que, ao ser mãe, investigou o passado dos pais e as suas estratégias de sobreviência num país invadido por inimigos.

O drama dos despejos na América profunda

O drama dos despejos na América profunda

A miséria e a exploração dos pobres é um tema mais ou menos tabu nos EUA. Mas é certamente o assunto central de Evicted: Poverty and Profit in the American City (2016, Penguin Books), de Mathew Desmond, outro dos livros presentes na lista escolhida por Bill Gates: “Se se quer realmente compreender como as razões que provocam a pobreza estão interligadas, então devem ler este livro sobre a crise de despejos no Milwaukee", recomenda. Acrescenta ainda: "Desmond escreveu um retrato brilhante de americanos a viver na pobreza. Este autor proporcionou-me uma visão, melhor do que qualquer outro livro já lido, sobre o que significa ser-se pobre neste país.”

A biografia de um comediante 'fora da caixa'

A biografia de um comediante 'fora da caixa'

Da prateleira da análise social passa-se depois para a secção de biografia, genero no qual Gates recomenda Believe Me: A Memoir of Love, Death and Jazz Chickens, (Penguin Books, 2017) de Eddie Izzard. Este comediante britânico com um gosto assumido por travestis e sem medo do politicamente correto, pode ser reconhecido pelo público português em filmes tão diversos como Valquíria, Os Doze de Ocean ou As Crónicas de Nárnia: Princípe Caspian. É um dos “cómicos favoritos” de Bill Gates, que caracteriza a história pessoal de Izzard como “fascinante”: “Ele sobreviveu a uma infância difícil e trabalhou implacavelmente para superar a sua ausência de talento natural e tornar-se uma estrela internacional. Se forem grandes fãs dele, como eu, adorarão este livro. A sua voz na escrita é semelhante ao registo que tem em palco, e dei por mim a rir às gargalhadas durante esta leitura”, conta.

Os dilemas de um espião vietnamita

Os dilemas de um espião vietnamita

Um livro que teve bom acolhimento crítico em Portugal, tendo vencido o Prémio Pulitzer 2016 e sido escolhido como livro do ano para os principiais jornais norte-americanos, é outra das escolhas de Bill Gates: O Simpatizante (Elsinore, 2017), de Viet Thanh Nguyen, é um relato forte sobre um espião dividido entre a lealdade ao Viet Cong e a nova vida em Los Angeles com os compatriotas, que incluem o general responsável pela elaboração da lista de autorizados a embarcar nos últimos voos a saírem do Vietname do Sul em pleno conflito. A guerra do Vietname é, sem dúvida, um dos temas que captaram a atenção de Bill Gates durante 2017, e, sobre este livro, o filantropo tem apenas elogios para oferecer: “A maioria dos livros que li e filmes que vi sobre o Vietmane são feitos sobre a perspetiva americana. O romance premiado de Nguyen apresenta uma visão necessária sobre o que era ser vietnamita e ser apanhado entre os dois lados do conflito. Apesar de sombrio, O Simpatizante é uma história que agarra o leitor.”

Por fim, o quinto livro da lista do bilionário é uma panorâmica dedicada a um elemento fundamental da civilização, a energia, desde a descoberta das pilhas até às atuais e incontornáveis energias renováveis. Energy and Civilization: A History (MIT Press, 2017), do cientista e ativista checo-canadiano Vaclav Smil, é definido por Bill Gates como “uma obra-prima”: “Não é o livro mais fácil de se ler, mas, no fim, sentimo-nos mais espertos e melhor informados sobre como as inovações energéticas alteram o destino das civilizações.”

A história das fontes de energia que mudaram nações

A história das fontes de energia que mudaram nações

Mas para este leitor frequente, a mesinha de cabeceira ou o sofá junto à lareira, tiveram mais volumes empilhados a que dedicou a sua atenção em 2017. Três deles são mencionados neste texto da TIME: Black Flags: The Rise of ISIS (edição Random House, 2015), de Joby Warrick, que Gates caracteriza como “uma lição de história convincente sobre como o ISIS conseguiu obter poder no Iraque”; The Color of Law- A Forgotten History of How Our Government Segregated America (2017) de Richard Rothstein, que o ajudou a saber mais sobre “as forças que impedem a mobilidade económica” e “o papel que as políticas federais tiveram na criação da segregação racial nas cidades americanas”; e, por fim, numa nota surpreendente, Gates assume ter adorado Turtles All the Way Down, de John Green, traduzido em Portugal com o título Mil Vezes Adeus (Edições Asa): a história de Aza, uma rapariga de dezassete anos que se vê compelida a investigar o desaparecimento do bilionário Russell Pickett em troca da recompensa de cem mil dólares. “Lida com temas sérios como a doença mental, mas as histórias de John são sempre divertidas e cheias de ótimas referências literárias”, confessa o filantropo.