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Escritor João Pinto Coelho responde às críticas da embaixada da Polónia

Cultura

Lucilia Monteiro

A entrevista do vencedor do prémio Leya à VISÃO, a propósito do novo livro, continua a gerar debate. Hoje publicamos na íntegra a resposta do autor de Os Loucos da Rua Mazur ao embaixador da Polónia.

“O que nos deve perturbar acima de todas as outras evidências é o envolvimento criminoso de pelo menos quarenta cidadãos polacos e a passividade com que grande parte da cidade assistiu às atrocidades, tal como consta das conclusões da investigação do Instituto da Memória Nacional”. Esta é uma das passagens da resposta do escritor João Pinto Coelho à “carta aberta” do embaixador da Polónia. Na missiva, hoje enviada à VISÃO e que também publicamos na íntegra, o vencedor do Prémio Leya recusa discutir a sua obra de ficção nos termos em que a mesma foi tratada “em certa imprensa polaca”, mas reitera a sua preocupação “face aos sinais de intolerância” que a História sempre o aconselhou a vigiar. “Desprezá-los é irresponsabilidade cívica, não sentir incómodo é-o também”, justifica.

Esta reação surge na sequência da carta aberta do embaixador da Polónia em Portugal, na qual Jacek Junosza Kisielewski considerava as declarações do escritor João Pinto Coelho à VISÃO, a propósito da inspiração histórica do romance, "infundadas, fora do contexto histórico", e baseadas em "generalizações injustas". Também contactado, o grupo editorial Leya, que através da Dom Quixote publicou o livro que será apresentado esta quinta-feira, 29, na Bucholz (Lisboa), pelo padre José Tolentino Mendonça, referiu: “O júri do Prémio Leya distinguiu, consensualmente, o livro «Os loucos da rua Mazur», de João Pinto Coelho, pela sua qualidade literária, qualidade essa que a LeYa claramente reconhece ao autor e à obra, cuja leitura recomenda”.

RESPOSTA DE JOÃO PINTO COELHO À “CARTA ABERTA”

Uma nota inicial: por não considerar pertinente substituir-me ao autor da peça, não me pronuncio aqui sobre os dados que resultam da sua investigação, nomeadamente a quantificação das vítimas do massacre de Jedwabne ou o número de cidades onde terão ocorrido atrocidades semelhantes. As minhas declarações - fielmente reproduzidas - decorrem das perguntas objetivas que me foram colocadas, não me cabendo também discorrer sobre o enquadramento, contextualização ou demais critérios jornalísticos seguidos na reportagem. Procuro também abster-me de falar sobre o último livro que escrevi, já que, tratando-se de uma obra de ficção, não aceito que seja escrutinado nos termos que encontrei em certa imprensa polaca.

A carta aberta que me foi endereçada pelo senhor Embaixador da República da Polónia regista a forma objetiva e equilibrada com que no meu livro anterior, “Perguntem a Sarah Gross”, me refiro ao mal causado à Polónia pelo ocupante alemão nos anos 1939-1945. Referi-o nesse livro, refiro-o agora com “Os Loucos da Rua Mazur» - não deixa de ser oportuno registar que o exemplo dado pelo senhor Embaixador relativamente às crianças judias escondidas nos mosteiros e orfanatos geridos pelas freiras polacas surge explícito nas páginas finais do meu romance mais recente. Na verdade, tenho-o feito ao longo dos últimos dois anos, ao visitar dezenas escolas de norte a sul do país, transmitindo aos alunos portugueses partes menos conhecidas do período em causa, onde tão justamente cabem o sofrimento e os atos de heroísmo da nação polaca, quer durante a ocupação pela Alemanha nazi, quer ao longo dos mais de vinte meses de presença soviética. Mas a verdade inteira dita-me mais do que isso, e portanto também falo de Jedwabne, de Kielce, e de outras coisas que não deviam ter acontecido. A este propósito, recorda - e bem - o senhor Embaixador os mais de 6000 polacos distinguidos como «Justos entre as Nações» pelo Yad Vashem. Sublinho, no entanto, que esse é o mesmo instituto que reconhece a existência de milhares de cidadãos polacos que colaboraram com os ocupantes alemães, chantageando e denunciando os seus vizinhos judeus. Ocorre-me então perguntar se referir aqueles, omitindo estes, não se enquadrará nas tais declarações “fora do contexto histórico”, e baseadas nas “generalizações injustas” de que sou acusado no início da missiva.

Quanto à tragédia de Jedwabne:

Salvo melhor opinião, o que está em causa tem de ir para lá dos incentivos ou da permissividade dos alemães; o que está em causa tem de ser muito mais do que a militância dos quatro instigadores locais; o que nos deve perturbar acima de todas as outras evidências é o envolvimento criminoso de pelo menos quarenta cidadãos polacos e a passividade com que grande parte da cidade assistiu às atrocidades, tal como consta das conclusões da investigação do Instituto da Memória Nacional - o mesmo a que se refere o senhor Embaixador. Acrescenta-se ainda na carta aberta que o caso da tragédia em Jedwabne, o mais bem investigado até agora, levanta muitas dúvidas quanto ao seu desenvolvimento e responsabilidade, e que a regra do processo judicial no mundo civilizado é condenação apenas das pessoas, cuja culpa foi provada. Permito-me, ainda assim, recordar que aquilo que foi demonstrado até à data foi suficiente para que dois presidentes da República da Polónia, designadamente os senhores Aleksander Kwaśniewski e Bronisław Komorowski, com um intervalo de dez anos, se tenham deslocado a Jedwabne para, na presença de familiares das vítimas e diversas entidades, pedirem desculpa pela tragédia enquanto representantes máximos da nação polaca.

Clarifico ainda aquilo a que o senhor Embaixador se refere como um abuso. Não existiu nas minhas declarações qualquer intenção de estabelecer correspondências entre este passado trágico e a presente crise migratória, particularmente sobre o modo como a Polónia geriu e gere as suas fronteiras. A referência aos muitos países que no final dos anos 1930 fecharam as portas aos refugiados judeus visou precisamente recordar aqueles que hoje apontam o dedo acusador a esse passado obscuro, esquecendo a sua indiferença de então.

Quanto aos tempos atuais:

No último mês de agosto, numa carta endereçada a um dos fundadores do partido Lei e Justiça - atualmente no poder -, a União das Comunidades Judaicas da Polónia expressou a sua preocupação relativamente a acontecimentos recentes, referindo-se expressamente ao recrudescimento de manifestações de antissemitismo e à sensação de insegurança que delas resulta.

Também este ano, o Centro de Pesquisa sobre o Preconceito, da Universidade de Varsóvia, apresentou um relatório no qual se refere ao aumento significativo, desde 2014, de atitudes negativas na Polónia face aos judeus, expresso pela crescente aceitação e popularidade do discurso antissemita, sobretudo por parte da população mais jovem.

Não questiono o esforço das autoridades polacas no combate às manifestações xenófobas e racistas, ou aos crimes de ódio reportados, por exemplo, no último relatório da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa; muito menos desvalorizo as iniciativas que visam reconstituir os traços da cultura judaica no país ou o empenho por parte de uma larga percentagem da população na promoção de um debate e diálogo aberto acerca das relações seculares com os judeus - e que eu próprio testemunhei nas várias visitas que fiz desde 2009. Pelo rigor a que me obrigo, nunca me referi a um perigo iminente; falei, sim, em desconforto, reiterando agora a minha preocupação face aos sinais de intolerância que a História sempre me aconselhou a vigiar. Desprezá-los é irresponsabilidade cívica, não sentir incómodo é-o também. Olho o mundo em meu redor, assisto ao que se se passa na Europa, encontro esses indícios em muitos lugares - a Polónia não é, infelizmente, uma exceção.

Diz, finalmente, o senhor Embaixador que o artigo, ao falar do mal que nas situações extremas se pode revelar numa pessoa “igual a nós”, carece de fiabilidade e recorre às generalizações fáceis. A historiografia da Shoah e de outras tragédias mais recentes incide cada vez mais no retrato dos perpetradores. Ao mergulharmos nas suas histórias, encontramos pessoas assustadoramente parecidas com cada um de nós, homens e mulheres capazes de amar os seus filhos, a quem se fosse perguntado se seriam capazes de cometer atrocidades, negariam com a mesma convicção com que cada um de nós o afirma hoje.

No entanto, fizeram-no.

Olhar para o seu exemplo, atentar nas suas semelhanças connosco antes de revelarem as suas faces de monstro, perturba. Ainda assim, uma réstia de dúvida sobre o nosso próprio carácter pode ser o melhor legado que a História nos reserva.

João Pinto Coelho, autor de «Os Loucos da Rua Mazur», em 27 de novembro de 2017

NOTA DO JORNALISTA

Numa carta aberta dirigida ao escritor João Pinto Coelho, na qual me incluiu enquanto autor da entrevista que fiz ao vencedor do Prémio Leya, publicada na edição de 16 de novembro último, o senhor embaixador da Polónia faz referência às generalizações, a seu ver injustificadas, sobre o massacre de judeus por cristãos polacos no contexto da II Guerra Mundial, a pretexto do referido artigo. Tece também considerações quanto aos princípios pelos quais se deve orientar o jornalismo “fiável e de referência”. Por estes dias, li também, com espanto, em alguns órgãos de informação polacos, que, enquanto autor da entrevista, eu teria alinhado na “retórica” do escritor do romance “Os Loucos da Rua Mazur”, situação a que o senhor embaixador é certamente alheio, mas que importa aqui assinalar para melhor compreensão dos leitores.

Começo por referir que, ao contrário do que se possa pensar, não caí de paraquedas na temática. Nem sequer na Polónia, já agora. Visitei o País em duas ocasiões, ambas demoradas: uma, em 2012, e outra já este ano,

no verão, tendo, nas duas viagens, calcorreado dezenas de quilómetros e usado os transportes públicos. Nessas ocasiões, e sem incluir a quantidade considerável de leituras que venho fazendo sobre a temática, visitei Varsóvia, Cracóvia, Nowa Huta e, obviamente, Auschwitz e Birkenau. Não deixei de fora, das duas vezes, a fábrica de Oskar Schindler, o Galicia Jewish Museum, a praça Bohaterów, o Museu da Resistência Polaca, o magnífico Museu da História dos Judeus Polacos, entre muitos outros locais, cuja preservação e divulgação são também a marca do respeito da Polónia pela memória, identidade e cultura. O que sei, o que sabemos hoje sobre o heroísmo de milhares de polacos no contexto da II Guerra Mundial não está, nem estará nunca em causa. Sou ainda testemunha da vitalidade cultural e cívica de Kazimierz (bairro judeu de Cracóvia), onde todos os anos se realiza o festival de cultura judaica.

Isto para dizer que, a mim, não me apanham descalço a pisar os estilhaços de um tempo nem a emprenhar pelos ouvidos, quanto mais não seja por respeito aos leitores da VISÃO, independentemente das controvérsias que se tecem. Como qualquer jornalista que honre o seu ofício num mundo inflamado pelas redes sociais, pelo sensacionalismo e pelo imediatismo, tento fazer, o melhor que sei e posso, o “trabalho de casa”. E esta entrevista a João Pinto Coelho não fugiu à regra. Não me limitei a ler o novo romance nem a consultar elementos que me permitissem definir o perfil do escritor. Muito menos a generalizar a partir da Wikipédia ou de teorias mais ou menos fantasiosas. A temática do livro, a sua inspiração ficcional a partir de acontecimentos históricos, obrigou-me a aturada pesquisa sobre Jedwabne e as zonas sombrias desse e de outros acontecimentos. Aprendi no jornalismo, na vida e nos livros que a História nunca é a preto e branco. Li algures, e tenho-o repetido publicamente quando a oportunidade surge, que a memória é resultado da dialética entre a lembrança e o esquecimento. Se esquecemos tudo, não somos nada. Se recordamos tudo, não podemos continuar a viver. Mas o certo é que não podemos construir a concórdia a partir da ignorância e do silêncio sobre os factos. Tornar o passado presente, não vacina contra a incultura, o fanatismo e a estupidez. Mas falar dele, resgatá-lo para a luz é a melhor pedagogia contra o regresso do ódio e da violência.

Foi com esse propósito que meti mãos ao trabalho.

Dito isto, e para que também não fiquem dúvidas aos leitores sobre as bases em que sustentei as passagens supostamente mais polémicas do meu artigo sobre João Pinto Coelho e o seu livro, deixo aqui uma lista, necessariamente curta, das fontes consultadas.

Com os melhores cumprimentos

Miguel Carvalho

The Legacy of Jedwabne (2005)

Documentário sobre o massacre, com testemunhos contrastados sobre os acontecimentos ocorridos em Jedwabne, a 10 de julho de 1941, com destaque para o depoimento de um antigo autarca da cidade, Krzystof Godlewski, que reconhece a sua própria mudança de opinião sobre o massacre de judeus às mãos dos seus “vizinhos” e que contribuiu para iluminar parte do passado oculto da cidade. https://www.youtube.com/watch?v=0zOdb9ythfE

Vecinos – El extermínio de la comunidad judía de Jedwabne (Critica)

Em 2001, o historiador Jan Tomasz Gross, nascido na Polónia e naturalizado norte-americano, filho de pai judeu e mãe cristã, escreveu este livro polémico (Neighbours no original) onde descreve ao pormenor o que terá ocorrido em Jedwabne, apontando para cerca de 1600 judeus mortos nos acontecimentos já referidos.

Jedwabne Memorial book (1980) – Yizkor Book Project

Com relatos, testemunhos e episódios da comunidade judaica de Jedwabne, ao longo de décadas. https://www.yiddishbookcenter.org/collections/yizkor-books/yzk-nybc313798

A Moral Reckoning: The Role of the Catholic Church in the Holocaust and Its Unfulfilled Duty of Repair (2003) - Vintage Books

Um livro de Daniel Goldhagen, autor do também polémico Os Carrascos Voluntários de Hitler. Nesta obra, refere os massacres de Jedwabne e a forma como os governos polacos e a Igreja Católica foram gerindo a divulgação do que ocorreu naquela cidade do nordeste da Polónia.

Entrevistas, artigos e declarações da jornalista polaca Anna Bikont, autora da investigação The Crime and the Silence, sobre Jedwabne, que situa o número de vítimas entre 600 a 900 pessoas. Eis um exemplo: https://elpais.com/cultura/2016/02/17/actualidad/1455736429_759806.html

Matanças de judeus por polacos

https://www.haaretz.com/world-news/europe/.premium-1.770707 https://elpais.com/diario/2002/11/04/internacional/1036364412_850215.html http://www.nytimes.com/2001/03/17/arts/poles-and-the-jews-how-deep-the-guilt.html

Manifestações extremistas e xenófobas

https://www.publico.pt/2017/11/12/mundo/noticia/dezenas-de-milhares-de-nacionalistas-marcham-em-varsovia-1792259 https://www.washingtonpost.com/news/worldviews/wp/2017/11/12/pray-for-an-islamic-holocaust-tens-of-thousands-from-europes-far-right-march-in-poland/?utm_term=.2d7f0bcb73d7 http://www.bbc.com/news/world-europe-41958199