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Rogério Charraz: Uma entrevista sem medo do escuro e um videoclip em estreia absoluta

Cultura

Ao terceiro disco, o músico continua a pôr de lado o GPS preferindo aventurar-se por sonoridades diversas em que o amor é mesmo o único fio condutor.

Não Tenhas Medo do Escuro em versão revista e aumentada, para incluir os dois temas mais recentes e que fazem parte da banda sonora da novela O Sábio, em exibição na RTP, é o disco mais recente de Rogério Charraz. Um álbum de melodias simples mas bem conseguidas e com muito humor à mistura, particularmente nos temas escritos por José Fialho Gouveia. Em entrevista à VISÃO, o músico e compositor falou do disco, produzido com recurso ao crowdfunding, uma plataforma de financiamento colaborativo, mas também da carreira, que começou em 1999, numa União de Loucos. E ainda nos deixou ver, em estreia absoluta, o novo videoclip de Sempre Que o Amor Nos Acontece, num dueto com Luanda Cozetti

Este disco ‘Não Tenhas Medo do Escuro’, o terceiro da sua discografia, foi fruto de uma campanha de crowdfunding, é verdade? Foi por falta de apoios ou foi mesmo um desafio?

É verdade sim. Foi a forma que encontrei de poder financiar e concretizar o disco sem ter que estar à espera da chamada ‘indústria musical’. É uma ferramenta muito útil que permite que quem gosta de ti e da tua música te apoie, o que acaba por reforçar a relação entre o músico e o público que vais fidelizando.

Qual foi a verba reunida e em quanto tempo?

Reunimos sete mil euros em cerca de um mês, que pagou toda a produção, promoção e fabrico do disco. Foi um número arriscado porque a plataforma avisou-nos logo de início que a média das campanhas andava entre os 2.500 e os 3 mil euros e que poucos tinham conseguido até ao momento estes valores para este tipo de campanha. As recompensas para quem participou foram várias, desde ter o disco antes mesmo da sua saída no mercado, a t-shirts alusivas e até mesmo direito a menção nos agradecimentos do disco.

O disco tem várias sonoridades. Há canções como Chuva nos Beirados, que remete para o cante alentejano, mas também o SMS, com a Kátia Guerreiro, o Lá Vai Ela ou o Sempre Que o Amor Nos Acontece que soam a fado...

Quem conhece os meus três discos percebe que é uma característica da minha música. Eu não me encaixo num só estilo, tenho a flexibilidade de poder compor e fazer arranjos que abrangem vários estilos e gosto de o fazer. Esses momentos que refere fazem sentido porque sou filho de um alentejano e portanto o cante faz parte das minhas raízes. E o fado também faz parte de mim, a minha mãe sempre adorou a Amália, e nos últimos anos tenho feito muitos amigos e trabalhado com muita gente do fado.

As letras do José Fialho Gouveia, e são cinco neste disco, são muito datadas, ou seja, tratam de temas que qualquer pessoa percebe que são atuais, falam de coisas que seriam ficção científica no século XX. GPS, SMS, erros no sistema, por exemplo. Mas todas têm em comum o amor. Podemos dizer que são canções de amor do século XXI? Ou 4.0, como agora se diz? (risos)

Muito curioso falar em 4.0, e em breve todos perceberão porquê. De facto são canções muito inteligentes porque falam de amor recorrendo ao léxico da tecnologia moderna. Muitas delas fazem-nos sorrir, mas às tantas pomo-nos a pensar naquilo e percebemos que a brincar se diz muita coisa séria.

Como é que se conheceram e como nasceu esta parceria com ele?

Conhecemo-nos numa tertúlia de amigos. Eu já o conhecia e era grande fã do Bairro Alto, um dos melhores programas de entrevistas da TV portuguesa dos últimos anos. Até já lhe disse que é uma das minhas frustrações nunca ter sido convidado (risos). Também sabia que tinha feito letras para nomes de que gosto muito como o Zambujo ou a Ala dos Namorados. Por isso desafiei-o para escrever algumas letras para mim. Ele disse-me que tinha lá várias coisas ‘na gaveta’ que me enviou, e foi daí que saíram esses 5 temas, que eu espero que sejam os primeiros de muitos, porque acho que o Zé está na senda dos grandes letristas deste País, como o João Monge, o Carlos Tê, e outros. Confesso que já tenho mais duas ou três letras dele musicadas, sendo que ainda nem ele as ouviu.

Há uma canção incontornável no seu segundo disco, O Submarino Irrevogável. Foi uma canção que saiu em 2014 escrita por si e com um destinatário demasiado óbvio. O que o inspirou para a escrever?

Inspirou-me a raiva e a frustração que sinto ao ver certas figuras deste País usarem e abusarem do poder sem se importarem minimamente com o bem-estar e o futuro daqueles que os elegeram. Vivemos num tempo em que tudo tem uma duração muito curta, e o que hoje é um escândalo, amanhã caiu no esquecimento. Hoje provoca-se uma crise política, amanhã é-se promovido a vice primeiro-ministro. Quis que esta canção fosse uma espécie de lembrete como há agora nos telemóveis. Cada vez que alguém a ouve, lembra-se que houve um tipo que mentiu, enganou, manipulou, esteve envolvido em processos pouco claros.

Mas a canção trouxe-lhe problemas? Concertos cancelados, por exemplo...

É claro que me trouxe problemas. Não esquecer que quando a canção saiu, o indivíduo visado fazia parte da maioria que governava o País a nível nacional e com grande peso autárquico. Não tive concertos cancelados porque as coisas hoje em dia processam-se de forma mais silenciosa. Mas tive concertos que estavam encaminhados e de repente não se concretizaram, além de ter sido o single - e estou a promover o já o nono da minha carreira - que menos passou na rádio e na TV. Nunca ninguém disse que não, assim diretamente, mas foram adiando, adiando.

Recuando um pouco até ao início de carreira, que começou com uma banda chamada União de Loucos, em 1999, que depois mudou o nome para Boémia. Que influências musicais tinha então? O que ouvia nessa altura?

Não eram muito diferentes das de hoje. As nossas grandes influências eram os Trovante, o Jorge Palma, o Sérgio Godinho, o Zeca, o Rui Veloso. E descobrimos juntos o Fausto, o que nos marcou muito.

Entretanto o grupo terminou e o Rogério avançou para um projeto a solo mesmo sem nunca ter sido frontman, nem sequer cantado. Isso é curioso. Foi preciso coragem, mas a coisa correu bem, pelos vistos...

O grupo que eu saiba não terminou, eu é que saí. A dada altura tínhamos posturas e expectativas que deixaram de ser compatíveis. Eles continuaram e eu saí, pensando que o meu percurso na música iria ficar por aí, nunca me passou pela cabeça uma carreira em nome próprio. Não gosto de a classificar a solo, porque tenho estado muito bem acompanhado por músicos, letristas, etc. Acontece que tínhamos uma data acordada vinte dias depois da nossa derradeira conversa, e como eles não a queriam fazer, e eu nunca gostei de faltar aos meus compromissos, fui buscar dois músicos com quem nunca tinha tocado, ensaiei um repertório e fiz o que nunca tinha feito: ser a voz principal e a cara de um projeto. Pensei que iria fazer essa data e ficar por aí, mas a coisa correu bem e marcaram outra. Quando dei por mim estava com os fins de semana quase todos preenchidos e dois anos mais tarde concorri com dois originais ao festival Cantar Abril, em Almada, e cheguei à final com um dos temas. Nesse dia tinha quase uma centena de pessoas de propósito para me ver e alguns deles ficaram danados por eu não ter ganho nenhum prémio e organizaram um jantar-concerto onde até tocou o José Mário Branco e cuja maior parte da receita reverteu para a gravação do meu primeiro disco. Desse bonito gesto nasceu A Chave, o meu primeiro disco e passados seis anos aqui estamos a promover o terceiro.

E já são muitas as parcerias que foi fazendo pelo caminho. Ainda só tem três discos mas já tem colaborações com muitos nomes grandes da música portuguesa. Abrir logo com José Mário Branco e Rui Veloso não é para qualquer um. E depois veio a Luanda Cozetti, o Danny Silva e agora a Kátia Guerreiro e a Marta Pereira da Costa, isto só para citar alguns...

Pois, mais o Fernando Tordo, o Júlio Resende, o Rui Pregal da Cunha, sem contar que no ano passado o Richard Bona gravou um tema meu no disco da Marta. Não sei muito bem como explicar, é um dos meus maiores orgulhos, trabalhar com essa gente que admiro e com quem aprendi tanto a ouvir os seus discos e a assistir aos seus concertos. E, mais gratificante ainda, vieram porque quiseram, porque gostaram das canções e acreditaram no meu trabalho. Não houve contrapartidas financeiras, nem pressão de editoras ou qualquer tipo de incentivo extra. Costumo dizer que são as medalhinhas que orgulhosamente carrego no peito, porque para mim a música é um ato de partilha, e quando se tem a sorte de o fazer com gente tão talentosa...

A apresentação do disco Não Tenhas Medo do Escuro, numa edição especial que contém Sempre Que o Amor Nos Acontece e Porto de Abrigo, prossegue com concertos no Pinhal Novo (24 de abril), Évora (25 de junho), Setúbal (28 de julho), Sintra (22 setembro) e Moura (11 novembro). Pelo meio, Rogério Charraz estará também em Albufeira, a 30 de abril, convidado por Maria Viana, e a 6 de maio em Lisboa, a convite de Pedro Branco.