Dor crónica: “Era uma vez um estado de sofrimento interno e externo”

Teresa Fontinhas, coordenadora da Unidade Multidisciplinar de Dor do Hospital de Santa Maria com um dos modelos que mais mostra aos seus pacientes. A maioria dos doentes queixa-se de dores na coluna

“Uma pessoa com dor não faz nada.” Teresa Fontinhas, coordenadora da Unidade Multidisciplinar de Dor do Hospital de Santa Maria (Centro Hospitalar Lisboa Norte), trabalha há muitos anos com doentes com dor crónica. Na agenda da unidade há cerca de três mil doentes a que se juntaram, recentemente, cerca de 20 outros para a consulta de Dor pós-Covi-19 (já lá vamos).

No Dia Nacional de Luta Contra a Dor, que se comemora hoje, dia 15, alerta-se para a importância deste que é o 5.º sinal vital (depois da tensão arterial, frequência cardíaca, frequência respiratória e temperatura corporal).

No gabinete de Teresa Fontinhas a dor crónica é o centro do mundo. “Se tivéssemos de contar a história ‘era uma vez uma dor’, começávamos assim ‘era uma vez um estado de sofrimento interno e externo’. Uma pessoa que está deprimida sente mais a dor e uma pessoa que tem dor fica deprimida.”

Não falamos de uma dor que passa ao fim de uns dias ou de uma dor aguda, mas sim de um mal que perdura no tempo e é incapacitante. A dor crónica pressupõe que a mesma persista ao fim de, pelos menos, três a seis meses. “É uma dor em que já se fizeram terapêuticas anteriores” que não resultaram. Ali chegam os doentes, já com diagnóstico feito e referenciados por outros médicos. “Somo uma consulta de fim de linha.”

A médica Teresa Fontinhas ao lado da imagem que gosta de mostrar aos seus doentes. “Aquela é a escada da dor. Há sempre mais um degrau que podemos subir, principalmente numa perspetiva de bem-estar”, costuma dizer-lhes

A maior parte dos doentes têm problemas relacionados com a coluna (osteoarticular). “Coluna em cima, em baixo, que vai para as pernas, as hérnias discais, os nervos”, resume.

Depois, há outros pacientes com a chamada dor neuropática, relativa aos nervos e que provoca choques elétricos, formigueiro ou dormência. Por ali também passam alguns doentes oncológicos que tiveram complicações devido aos tratamentos. “A neuropatia pós-quimio é um problema gravíssimo e está perfeitamente identificado, sabemos quais são os tumores (pulmão, cólon, mama, e dois do sangue) e qual é a quimioterapia que a provoca. Os doentes ficam com picadas e dormência nas mãos e nos pés ao ponto de não conseguirem calçar os sapatos ou deixarem cair as coisas ao chão porque não têm força nas mãos”, explica. A ponto de, conta, ter doentes que “dizem que se soubessem que iriam ficar assim preferiam ter morrido do tumor”. A equipa do Santa Maria está a participar num estudo internacional para “ver se conseguimos melhorar a qualidade de vida destes doentes”.

Os pace-makers também tratam a dor crónica

Os tratamentos para os doentes com dor crónica passam por medicamentos específicos, antidepressivos que atuam na dor, não na perspetiva da depressão. “Doses pequenas de antidepressivos inibem a captação da serotonina e da noradrenalina, que são dois neurotransmissores que precisamos e que se desgastam pelo repetir da dor”. Na sala ao lado do gabinete, são feitas infiltrações para bloquear a dor (processo em que, com uma agulha, se bloqueiam os nervos que estão hipersensíveis) e outros tratamentos, como a ozonoterapia. A cereja no topo do bolo, como lhe chama a médica, é a neuro-estimulação medular. “Introduzimos dois elétrodos no espaço epidural e esses dois fiozinhos ficam presos ao músculo para-vertebral e ligam-se a um pace-maker que é programado e fica debaixo da pele.” Esta técnica, realizada no bloco operatório, é feita ali desde 2010, sendo que têm autorização para fazer 10 por ano.

Teresa Fontinhas na sala onde se fazem alguns tratamentos de dor crónica, no Hospital de Santa Maria. Ao seu lado tem o ecógrafo que foi oferecido por uma doente com dor pós-Covid-19

“Nós temos técnicas que aliviam, mas depois há a fisioterapia, que as pessoas acham que não faz nada, mas que é fundamental.” Daí a parceria estreita com a Unidade de Medicina Física e Reabilitação onde encontrámos Guilhermina Faias, 85 anos, a fazer o treino de marcha e obstáculos, sob o olhar atento da terapeuta e de Fernanda Gabriel, a fisiatra que acompanha os doentes pós-Covid-19. Enquanto Guilhermina levanta uma perna e a outra de seguida para caminhar e passar por cima de dois rolos e uma caixa que estão no chão a servir de obstáculos, amparada por duas barras laterais, Fernanda Gabriel conta-nos que a idosa “esteve internada com Covid-19 em dezembro de 2020”, tendo passado pela UCI, e que, meses depois, continuou a queixar-se de que perdera alguma mobilidade. “Com a infeção teve uma diminuição da capacidade funcional e respiratória”, explica a fisiatra. Neste caso, a Covid-19 veio agravar algumas comorbilidades. Mas Guilhermina não se ficou e agora, já com algumas horas de fisioterapia, sente-se “menos cansada e com mais força muscular”.

A fisiatra Fernanda Gabriel, coordenadora do serviço de Medicina Física e Reabilitação do Hospital de Santa Maria. Atrás, Guilhermina Faias, 85 anos, faz o seu treino de fisioterapia de marcha e obstáculos

A consulta de Dor pós-Covid-19

Voltamos ao gabinete de Teresa Fontinhas onde há uma grande fotografia na parede (tirada pela própria) cuja imagem é uma praia da Costa Alentejana com uma escada de madeira para acesso ao areal. É para aquela fotografia que aponta muitas vezes durante as consultas. “Aquela é a escada da dor. Há sempre mais um degrau que podemos subir, principalmente numa perspetiva de bem-estar”, diz.

Foi, também, nessa perspetiva, que foi criada a consulta de Dor pós-Covid-19 no final do verão. Por lá já passaram cerca de “20 e tal doentes”, das “mais diversas idades” e com os mais “diversificados problemas”, sendo que os mais frequentes estão relacionadas com a parte osteoarticular (braços, pernas, joelhos, coluna) devido aos “prolongamento do estado inflamatório causada pela Covid-19”.

A dor, em particular a dor crónica, tem impacto na pessoa muito para além do sofrimento que lhe
causa, nomeadamente, sequelas psicológicas, isolamento, incapacidade e perda de qualidade de
vida

“A maioria da dinâmica da infeção Covid tem a ver com um estado inflamatório gigante, e esta inflamação traduz-se não só na parte respiratória, mas também numa inflamação generalizada e, muitas vezes, atinge os pontos fracos que as pessoas já tinham. Por exemplo, pessoas que tiveram um fratura há vários anos, no sítio da fratura tiveram muitas dores. Quem antes teve muitas dores nos joelhos e que até tinha a situação controlada, depois da infeção voltou a ter dores.”

A vintena de doentes de Teresa Fontinha, a especialista que recebe os doentes de Dor pós-Covid-19, estiveram internados em enfermaria ou, até, mesmo só em isolamento em casa. Quem esteve nos cuidados intensivos é tratado na Unidade de Medicina Física e Reabilitação, dado que os internamentos em UCI provocam lesões musculares.

“A dor dos meus doentes está relacionada a ver com lesões antigas, tenho até pacientes que voltaram a ter dores nas cicatrizes de operações antigas. Nos locais onde já houve inflamações antigas houve agravamento de dor.”

Mas, como já se disse, é muito aleatório. Umas das pacientes é colega de Teresa Fontinhas no hospital. “Tem 30 e tal anos e era uma pessoa saudável. Passou a ter imensa dor nas articulações. Ia para o carro e parecia uma velhinha a andar”, recorda.

Os tratamentos na consulta de dor têm resultado e os doentes “saem daqui bem”. Um dos doentes, como forma de agradecimento à Unidade Multidisciplinar de Dor, ofereceu ao departamento um equipamento que há muito os médicos reclamavam: um ecógrafo. As ecografias para se fazerem as infiltrações de bloqueio dos nervos são fundamentais. O presente, cujo valor ronda os 70 mil euros, está bem ao lado da cama onde se fazem os tratamentos e amarrado com cadeado. Dali não sai.

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