Relaxamento das medidas e regresso às aulas podem gerar uma segunda vaga, alertam especialistas na “reunião do Infarmed”

Reunião sobre a situação epidemiológica em Portugal no Auditório da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto Lucília Monteiro

Passados dois meses, estão de regresso as reuniões com especialistas, políticos, conselheiros de Estado e parceiros sociais sobre a situação epidemiológica em Portugal. Aquelas que ficaram conhecidas como as “reuniões do Infarmed”, por se terem realizado no auditório da Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos da Saúde, em Lisboa, voltam com um figurino diferente. O local do encontro de hoje decorre na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e a parte expositiva foi aberta, ou seja, transmitida em sinal aberto pelas televisões e pelo canal YouTube do Governo. A parte de debate e encerramento, que ainda decorre, são à porta fechada.

Os vários especialistas fizeram apresentações, ao longo de quase três horas, sobre a situação da pandemia desde a última reunião no Infarmed, em Lisboa, a 8 de julho, sobre o inquérito serológico a aplicação Stayaway Covid ou a plataforma de registo de casos.

António Costa a chegar à Faculdade de Medicina da Universidade do Porto
Foto: Lucília Monteiro

Se à entrada para o auditório da Faculdade de Medicina, o primeiro-ministro, António Costa, disse que “estamos num momento crucial” devido ao início das aulas, ao regresso de muito trabalhadores às empresas e à aproximação do outono, a ministra da Saúde, Marta Temido, reforçou, já dentro de portas, que “temos pela frente um contexto complexo”. Numa altura em que se começa a falar de segunda onda em vários países da Europa e em que o número de casos tem vindo a aumentar em Portugal, António Costa diz que é necessário continuar com as medidas de distância física e higiene porque há “mais possibilidade de contágio”. Pôs de lado um novo confinamento porque “sabemos o brutal peso “que tem no emprego e na economia.

Lá dentro, os técnicos foram apresentando os seus resultados e estudos. Pedro Pinto Leite, especialista em Saúde Pública da Direção-Geral da Saúde (DGS), no que diz respeito aos grupos etários, há um comportamento “muito semelhante desde o início da pandemia”, sendo que a “incidência vai sendo cada vez menor à medida em que avançamos no grupo etário”, com exceção dos indivíduos entre os 20 e os 29 anos e nas pessoas com 80 ou mais anos.

A faixa etária entre os 20 e os 29 anos apresenta uma “maior incidência ao longo do tempo” e com “uma trajetória crescente” entre 17 e 30 de agosto – último relatório quinzenal. Pinto Leite referiu que é “é necessário reforçar as medidas não farmacológicas”, como o uso de máscaras, lavagem das mãos e arejamento dos espaços.

R a subir

De acordo com os dados apresentados por Ausenda Machado, do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, o R(t) (número de pessoas que um infetado contagia) está agora em 1,12, em julho estava ligeiramente abaixo de 1. Sendo que na Região Norte está em 1,19 e em Lisboa e Vale do Tejo em 1,07. A zona Centro tem o maior índice de transmissibilidade, mas Ausenda Machado sublinhou que “nesta região o valor da incidência é inferior a 30 casos por dia”. A especialista do INSA mostrou que, desde o fim de junho, são feitos mais de 90 mil testes por semana e que, depois de um decréscimo, houve “um aumento da proporção de positivos concordante com a evolução epidémica” nas últimas semanas.

Marta Temido e Henrique Barros momentos antes do início da reunião
Foto: Lucília Monteiro

Henrique Barros, presidente do Conselho Nacional de Saúde, explicou o “Estudo Caso-Controlo” que irá ser realizado com mil pessoas infetadas e outras mil não infetadas. O estudo terá uma duração de dois meses e irá realizar-se na área de abrangência da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo com o intuito de “identificar fatores de risco para a infeção e estimar o contributo relativo destes fatores para a dinâmica da epidemia”.

A app que não é uma app

Quanto à aplicação Stayaway Covid, que já foi descarregada por 660 mil pessoas, José Manuel Mendonça, Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência, revelou que nove pessoas informaram através da App que estão contaminadas e que outras 18 ligaram para a Linha SNS24. O professor falou na importância da Stayaway Covid, dizendo “Isto não é uma app, pelo menos como as outras que se descarregam na loja da Apple ou da Google — isto é um sistema complexo, é uma rede social, se quisermos, que foi desenvolvida pela nata dos programadores europeus.

Para a ferramenta ver a luz do dia, foram tidas em conta muitas variáveis, como a privacidade, o consumo de dados, a adesão voluntária e a publicação do código fonte. “Não há dados pessoais envolvidos. Há anonimato completo. O infetado não sabe quem o afetou. Há anonimato de todos os intervenientes”, explicou.

Outro tema foram as vacinas que estão em estudo. O presidente do Infarmed, Rui Ivo Santos, acautelou que seis das oito vacinas que estão na fase 3 (a última) já estão a ser alvo de negociação a nível europeu.

Nenhuma vacina será disponibilizada sem ter sido sujeita a uma avaliação, primeiro, de segurança e, depois, de eficácia

Os dados da fase três da AstraZeneca/Oxford, BioNTech/Pfizer e Moderna são esperados em outubro. “Nenhuma vacina será disponibilizada sem ter sido sujeita a uma avaliação, primeiro, de segurança e, depois, de eficácia”, atestou.

Seguiu-se Maria João Brito, do Hospital Dona Estefânia, em Lisboa. A médica apresentou um estudo sobre a transmissão entre crianças e adultos e disse que a Covid-19 não se transmite “como a gripe, onde as crianças são frequentemente o caso índice nos disseminadores de infeção domiciliar e comunitária”. O estudo demonstra, isso sim, que os adultos contagiam mais as crianças, e que estes resultados “podem ser reconfortantes nas decisões sobre a reabertura das escolas”. Maria João Brito notou que a transmissão da SARS-Cov-2 em pediatria ainda é um enigma” e alertou que “com a entrada na gripe sazonal teremos um problema adicional”, porque “aí sim, as crianças poderão transmitir o vírus na comunidade”.

A transmissão da SARS-Cov-2 em pediatria ainda é um enigma

As escolas foram o tema de Carla Nunes, especialista em epidemiologia da Escola Nacional de Saúde Pública. E o que reportou pode descansar muita gente: “as escolas provavelmente não serão ambientes de propagação mais eficazes do que outros ambientes ocupacionais ou de lazer com densidades semelhantes de pessoas”, desde que as medidas adequadas sejam tomadas (distância física e higiene). Aliás, recordou que a abertura para os alunos do 11º e 12º ano não alterou a transmissibilidade entre os alunos que foram às aulas e os alunos que ficaram em casa.

Para Manuel Carmo Gomes, professor de Epidemiologia na Faculda “se as escolas reabrirem com contactos inter-pessoais em situação pré-Covid é provável uma segunda onda”, mas “se conseguirmos que apenas metade a um terço dos contatos” escolares pré-Covid forem mantidos, essa segunda onda pode ser evitada. No entanto, avisa: “se o relaxamento dos contatos na sociedade prosseguir após abertura das escolas até à situação pré-covid, não se consegue compensar a transmissão devido ao relaxamento na sociedade e há segunda onda”. O investigador, que falou por vídeo-conferência, notou que se devem ventilar salas e espaços partilhados e “evitar espaços fechados com não co-habitantes”. “Temos de introduzir regimes de flexibilização do regime de aulas: presencial, misto e virtual”, além de “maximizar os espaços disponibilizados” e “alargar ou ajustar horários de funcionamento”.

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