Esteve toda a sua vida na linha da frente na luta epidemiológica contra vírus que colocam em risco a vida humana. Uma fama que lhe chegou quando se tornou um dos investigadores que descobriu o vírus do Ébola em 1976, a partir de uma amostra de sangue de uma freira doente que trabalhava na República Democrática do Congo. Meteu-se mesmo com a sua equipa num avião para ajudar a população enferma em Yambuku, epicentro do surto, a pouco mais de mil quilómetros da capital do país, Kinshasa. Depois de descobrir como o vírus se propagava, isolou os doentes e conseguiu parar a epidemia num par de meses. Na década seguinte, promoveu o desenvolvimento de um programa internacional de prevenção, deteção e tratamento do Vírus da Imunodeficiência Humana, vulgo da sida, no Burundi, Costa do Marfim, Quénia, Tanzânia e Zaire. De 1994 a 2008 foi diretor executivo do Programa Conjunto das Nações Unidas para o VIH/Sida, cargo que ocupou até final de 2008. Agora, Peter Piot, um belga de 71 anos, luta numa outra frente, depois de ter sido infetado pela Covid-19 em março.
“É a chamada vingança dos vírus”, conta o hoje diretor da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, que contou esta sua nova experiência New York Times, por Skype. “Tornei-lhes a vida difícil, agora estão a ver se me apanham”, brinca o conhecido caçador de vírus, para logo depois reconhecer que julgou mal esta presa. “Sim, subestimei o quão rápido se espalharia. O meu erro foi julgar que era como o SARS [que deu nome à epidemia que tomou boa parte da Ásia em 2003], cujo alcance era bastante limitado. Ou como a gripe. Mas não é.”
Ilustração viva do que acontece ao organismo
Desde o início do ano que a vida lhe tem mostrado como estava enganado. Ainda esteve em Singapura, no final de janeiro, e no início de março, voou para Boston, nos EUA, para ouvir uma palestra sobre a importância da vacinação. Quando lhe perguntaram se ele estava preocupado com a Covid-19, um ainda descontraído Peter aconselhou: “digamos que devemos fazer tudo para evitar ser infetados, porque ainda não conhecemos os resultados desse possível contágio.” Agora, Piot tornou-se uma ilustração viva do que acontece num organismo.
De volta a Londres, esteve ainda em várias conferências, numa festa de aniversário com meia centena de pessoas e ainda se passeou por cinco restaurantes da cidade onde vive. Mas, além de evitar o habitual aperto de mão, não tomou mais precauções. “A verdade é que não sei onde fui infetado.”
A meio daquele mês de março, quando já se contabilizavam mais de 300 mortes no país, decidiu passar a trabalhar a partir de casa – apesar de a Grã-Bretanha só ter decretado o confinamento uma semana depois disso. Três dias depois, na noite de 19 de março, começou a sentir febre e dores de cabeça. “O meu pensamento imediato foi: Oh, céus, espero que não seja Covid-19″. Só que, dia após dia, sentia-se cada vez mais cansado, e a temperatura não baixava dos 38 graus. “Foi como se tivesse sido abalroado por um autocarro: exaustão extrema e dor generalizada, até o couro cabeludo me doía se lhe tocasse.”
Um mês sem vinho, pela primeira vez

Foto: Stan Honda/ AFP via Getty Images
Foi um sentimento completamente novo para aquele que é um dos virologistas mais famosos do planeta. É que, apesar de todo o tempo que passou em lugares onde imperam mosquitos e afins, nunca esteve gravemente doente – em toda a sua vida, confessa. “Digamos que é a primeira vez na minha vida de adulto que não bebo vinho mais de um mês seguido”.
No fim de março, quando finalmente conseguiu fazer o teste, o resultado não deu margem para dúvidas: era positivo. A febre continuava a aumentar. A dada altura, ultrapassou os 40 graus e Piot começou a sentir-se confuso. Foi quando correu para a urgência do Royal London Hospital. O seu nível de oxigenação já estava perigosamente baixo e o raios-x mostrava líquido nos dois pulmões. Tinha ainda indício de formação de coágulos sanguíneos.
“Agora, em vez de médico, era o paciente”, conta, a recordar em que o deitaram numa maca. Estava exausto, mas também meio apático. Nessa noite a Covid-19 levava Gita Ramjee, conhecida investigadora sul-africana na prevenção do VIH e professora honorária na escola de Piot. Já ele só se lembra de pensar: “espero que não piore…”
Recebeu antibiótico intravenoso e oxigénio e era acordado a cada duas horas para verificar a pressão arterial e outros sinais vitais. “Estava particularmente receoso de ser colocado num ventilador. É verdade que podem salvar vidas, mas também podem causar muitos danos. E a partir desse momento as hipóteses de sobreviver são as mesmas que no ébola: cerca de um terço…”
De volta ao hospital
Até que finalmente, Piot teve alta – a oito de abril. “Um alívio. Só queria andar na rua, a respirar o agora ar não poluído de Londres”. Mas quando chegou a casa, desfez-se em lágrimas. Antes de sair do hospital testara negativo para o SARS CoV-2, nada que ainda assim o livrasse de uma de uma reação à posteriori do seu sistema imunitário. “Ficava muitas vezes sem fôlego”. Uma semana depois, era o coração que dava sinal – 165 batimentos por segundo. A percentagem de oxigénio no sangue baixou drasticamente, outra vez. E voltou ao hospital.
Fizeram-lhe uma radiografia ao tórax e, desta vez, os sacos dos pulmões davam sinal de uma verdadeira tempestade de citocinas, que ameaçavam bloquear o caminho para o oxigénio. Os médicos ponderavam interná-lo de novo. Com a ajuda de um esteroide intravenoso foi então possível reduzir a inflamação, um anticoagulante fez o resto para evitar mais coágulos. Ainda assim, na semana passada, os exames ainda mostravam que parte dos seus pulmões ainda não estava completamente limpa.
“Descansar? Não é o meu forte…”
Os seus maiores receios? Tomar esteroides muito tempo pode ter efeitos colaterais, como perda de massa muscular, enfraquecimento dos ossos e diabetes. Além disso, pode ter de tomar anticoagulantes para o resto da vida, sem que os pulmões recuperem por completo. “Claro que se pode viver com isto, mas…”, sublinha, antes de rematar: “as pessoas pensam que quando se apanha Covid-19 morre-se e tudo o resto é uma gripe. Mas não é tão simples como isso.”
Agora, apesar de praticamente recuperado, Piot ainda não está autorizado a voltar ao trabalho. “Tudo o que me dizem é: ‘Descanse! Descansar! Descanse! Só que esse não é o meu forte…”