“Hipopótamos da cocaína” são um problema na Colômbia e abatê-los não está fora de questão

É um dos criminosos mais conhecidos de todos os tempos. Fundador do cartel da droga de Medellin, a segunda maior cidade da Colômbia, nos anos 1980, a ele foram atribuídos raptos, bombardeamentos e os mais diversos assassinatos. Mas Pablo Escobar, o conhecido chefe-mor do tráfico de cocaína, em tempos dos homens mais ricos do mundo, morto a tiro no final de 1993, é também o responsável por aquilo que hoje os cientistas classificam como uma bomba-relógio ecológica.  

Tudo por causa do grupo de hipopótamos originalmente importados por Escobar para o seu jardim zoológico privado, que se multiplicaram de tal maneira que ocupara boa parte do rio Magdalena, um dos principais cursos de água do país. Segundo um estudo publicado já este 2021 no Biological Conservation Journal, só o abate dos animais permitiria mitigar o seu impacto ambiental. Mas a decisão não é propriamente unânime.   

“É óbvio que temos pena destes animais, mas como cientistas precisamos de ser honestos”, disse à BBC a bióloga colombiana Nataly Castelblanco, uma das autoras do estudo. “Os hipopótamos são uma espécie invasiva na Colômbia e se não matarmos agora uma parte da sua população, a situação poderá ficar fora de controlo em apenas 10 ou 20 anos”.  

Narco-legado 

A ascensão dos chamados “hipopótamos da cocaína” começou exatamente depois de, em 1993, as autoridades terem abatido Pablo Escobar e terem confiscado a sua propriedade de luxo, chamada Hacienda Napoles, a 250 quilómetros de Bogotá, a capital do país. Os animais encontrados foram de imediato distribuídos pelos jardins zoológicos de todo o país – mas não os hipopótamos. “Logisticamente, era difícil deslocá-los, por isso as autoridades deixaram-nos lá, provavelmente pensando que os animais não sobreviveriam muito tempo”, sublinhou ainda Nataly Castelblanco.  

Só que, em vez disso, a comunidade cresceu e multiplicou-se. Desde então, e ao longo destes anos, os especialistas colombianos têm tentado calcular quantos vivem nos cursos de água do país – com estimativas a rondar os 80 a 120 animais. “É o maior grupo a viver fora de África, a sua região natal”, acrescentou já o conservacionista Carlos Valderrama. E o grande receio agora é que a comunidade continue a aumentar.  

É isso que os cálculos feitos pela equipa de Castelblanco indicam. A população deverá atingir os 1400 espécimes já em 2034, se não se avançar com nenhum tipo de abate – o que é considerado um crescimento muito extraordinário, tendo em conta que todos descendem do grupo original de um macho e três fêmeas. No seu estudo, para impedir que a espécie se tornasse um legado impossível de aguentar, o ideal será abater cerca de 30 animais todos os anos. “Trata-se de animais que aproveitaram aqui uma oportunidade de crescimento extraordinária, porque não têm predadores naturais em toda a América do Sul, o que significa que podem reproduzir-se muito mais facilmente”.  

Do seu lado, têm ainda um clima muito mais favorável, já que em África, a população é em parte controlada por períodos de seca, que são eventos raros na Colômbia. “Aqui encontraram condições tão ideiais que começam até a reproduzir-se em idades mais precoces”, frisou ainda a bióloga colombiana. Resultado? “Estão a espalhar-se pela maior bacia hidrográfica da Colômbia, na qual muitos milhares de pessoas ganham a vida. E já há avistamentos de hipopótamos até 370 quilómetros da Hacienda NapolesÉ como estar num filme do Parque Jurássico”.  

Só 4 animais esterilizados em 8 anos 

Mas há também quem se oponha à ideia de abater parte daquela população, como é o caso de Enrique Ordoñez, biólogo da Universidade Nacional da Colômbia, para quem estes “hipopótamos da cocaína” oferecem a esperança de preservar os seus números globais, já que são considerados uma espécie vulnerável por ONG’s como a União Internacional para a Conservação da Natureza. “Um programa de esterilização seria uma forma muito melhor de controlar a população”, avançou aquele especialista à CNN.  

Mas são procedimentos que estão longe de ser simples e baratos, como afiança ainda o conservacionista Valderrama, que há já mais de dez anos conduziu uma operação de castração de um daqueles animais, como parte de uma experiência para estudar opções de controlo daquela população. “Estamos a falar de um bicho que pode pesar cinco toneladas e ser muito agressivo. Tem uma força tal que, mesmo depois de o sedar, quase derrubou a grua que estávamos a usar no procedimento”.  

Daí agora considerar que a castração por si só não é opção, tendo em conta que o preço poderia alcançar qualquer coisa como 40 mil euros – e que apenas quatro animais foram esterilizados com sucesso entre 2011 e 2019. “A maioria vive em zonas selvagens de difícil acesso, o que lhe permitirá continuar a reproduzirem-se muito facilmente”, rematou.  

O peso da opinião pública 

O que impede então as autoridades de avançar com medidas mais drásticas? Segundo contam os media internacionais, é extamente a opinião pública. Mas os jornais locais começaram a noticiar aquele estudo e as suas conclusões, que a bióloga Nataly Castelblanco começou a receber abusos e ameaças de morte. 

“Algumas pessoas na Colômbia podem ficar muito zangadas quando falam sobre os hipopótamos”, reconheceu Castelblanco, acrescentando: “as pessoas tendem a compreender muito mais sobre espécies invasivas quando falamos de plantas ou criaturas mais pequenas, mas não quando se trata de um mamífero ‘maciço’ que muitos podem achar giro.” 

É certo que na Colômbia não há registo de ataques mortais a pessoas, mas no início do verão passado os ânimos exaltaram-se quando um trabalhador agrícola foi gravemente ferido por um hipopótamo, numa cidade perto da Hacienda Napoles. Mas apesar do receio de futuros ataques, ainda está bem presente na memória de todos o enorme protesto público que se levantou quando os soldados do exército colombiano foram chamados para abater o hipopótamo Pepe em 2009, depois de este ter sido considerado uma ameaça às comunidades locais. “A opinião pública está deveras a dificultar todos os nossos esforços para controlar esta população”, reconhece também David Echeverri, biólogo que trabalha para a agência ambiental colombiana. “Sabemos que é um tema que divide as pessoas”, disse ele, “e é por isso continuamos a procurar outra solução. Mas…” 

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