Ilhas Desertas: Viagem ao santuário natural português que (quase) ninguém conhece

Um ícone visto de perto Durante a reportagem da VISÃO, um lobo-marinho aproximou-se do barco – caso raro, o que espantou os vigilantes da Natureza a bordo

Desliga-se o motor do bote de borracha e ali ficamos ao sabor do vento. É em silêncio quase absoluto que Rosa Pires se deslumbra com o lobo-marinho a cirandar a embarcação, ora com o focinho à superfície ora a rodopiar junto ao motor do barco, num sereno bailado natural. De forma empírica, a bióloga marinha reconhece ser um macho juvenil que pode ter parasitas ou estar em fase de muda de pelagem. Esta é uma situação invulgar, até para Rosa Pires, com quase 30 anos de trabalho no mar das ilhas Desertas, a zelar pela conservação da foca-monge-do-mediterrâneo (Monachus monachus), a foca mais rara e ameaçada do mundo. “Não costumam ter este comportamento, aproximar-se muito do bote e durante tanto tempo. Mergulhar como um golfinho também não é frequente, mas aconteceu”, sussurra Rosa, de sorriso aberto.

Restam 700 lobos-marinhos no mundo, uma espécie ameaçada, segundo a União Internacional para a Conservação da Natureza

Assim que o bote foi cercado por três lobos-marinhos (o nome pelo qual é conhecida a espécie na Madeira), Lourenço Alves, vigilante da Natureza, atira a câmara GoPro para dentro de água. É graças a este vídeo que se conseguirá identificar o subadulto “13” pelas manchas laterais, “um lingrinhas que terá nascido em 2019”. O “13” é dos animais que mais interagem com as pessoas, um comportamento comum dos machos, caracterizados por dois orifícios no ventre, enquanto a fêmea tem mais cicatrizes nas costas, devido à técnica de acasalamento. Um ritual subaquático em que há jogos de perseguição num casal fiel entre si e ao seu ninho.

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