“Gostamos de atender às nossas necessidades de consumo, mas depois não aceitamos os seus impactos”

Foto: Marcos Borga

Pela primeira vez, o nosso país vai ser incluído no relatório Healthy & Sustainable Living, da GlobeScan, que tenta perceber as preocupações e as atitudes de consumidores de 30 países em temas de sustentabilidade. Responsável pelo inquérito em Portugal (que terá resultados em setembro) está a startup NBI – Natural Business Intelligence, com o apoio da AGEAS e da EDP.

Luís Rochartre Álvares, partner da consultora, diz que um dos objetivos é compreender o que leva as pessoas a serem muito mais ativas nas intenções do que nas ações – uma das conclusões do inquérito do ano passado. O engenheiro florestal e ex-presidente da Forest Solutions Group, do Conselho Empresarial Mundial para o Desenvolvimento Sustentável (WBCSD), dá também exemplos de como a agricultura e a floresta se têm adaptado aos novos tempos, com práticas mais sustentáveis.

No inquérito da GlobeScan do ano passado concluiu-se que dois terços das pessoas querem ter vidas mais saudáveis e sustentáveis, mas só um terço fez efetivamente mudanças nas suas vidas. O que falta para que as pessoas passem das palavras aos atos?
Essa é uma das questões-chave. Há uma diferença entre aquilo a que aspiramos e os nossos comportamentos. Esta diferença entre o aspiracional e o prático é o que nós procuramos descobrir: identificar as barreiras que dificultam as aspirações das pessoas informadas e como transformar essas intenções em atitudes reais, nas nossas escolhas, nas nossas compras.

As pessoas dizem não saber por onde começar. Pode ajudá-las?
Todos nós, quando consumimos, procuramos tomar decisões informadas. Há aqui duas dúvidas: uma é se existe informação consistente que nos permita tomar a decisão que queremos; a outra é económica, saber se a minha opção está de acordo com o orçamento. Sem dúvida que a tomada de consciência tem vindo a crescer. Agora, é importante focarmo-nos em como o consumidor, tendo tendência para determinada opção, a consegue exercer.

Também tendem a implementar mudanças se estas forem fáceis. Mas as mudanças necessárias para mitigar as alterações climáticas não são fáceis. É possível convencer as pessoas a alterarem os estilos de vida de uma forma mais substancial?
Acredito que as opções racionais podem perfeitamente ser tomadas, não com base no medo, mas numa informação desenvolvida. Eu vou consumir, vou optar por este tipo de produtos, por estas escolhas, porque me sinto bem com isso, não propriamente porque acho que o mundo vai acabar e que vamos todos morrer.

Alguns estudos demonstram que quem faz pequenos sacrifícios em prol do ambiente no seu dia a dia, com efeitos positivos marginais, está menos predisposto a fazer sacrifícios com maior alcance, como pagar taxas ambientais. Como resolver este paradoxo da “consciência verde tranquila”?
Estas são as questões para as quais o inquérito nos leva a refletir. Por exemplo, a diferença geracional é interessante. Quanto mais jovens são as gerações, maior é a predisposição para seguirem este tipo de opções. As novas gerações não só estão mais conscientes como estão mais disponíveis para tomar decisões sustentáveis.

Este ano, o inquérito vai incluir Portugal. Espera resultados muito diferentes de outros países? Portugal é dos países da Europa em que os efeitos das alterações climáticas serão mais profundos. A preocupação dos portugueses está em conformidade com esses cenários?
A média do comportamento do consumidor português não deverá ser muito diferente. Mas há algumas nuances regionais, como a da consciência das alterações climáticas: os EUA continuam a ser o país com menos consciência sobre a importância desses assuntos, e todos nós sabemos que aquele modelo económico é um grande responsável pelo que hoje vivemos. Confesso que estou ansioso para ver os resultados, porque é uma primeira fotografia. Não me parece que possamos sair muito do que é o comportamento normal, mas estou com alguma curiosidade.

Durante muito tempo, imperou o greenwashing. Parece-lhe que hoje as empresas estão mais proativas? Há uma verdadeira mudança em curso?
As questões da transparência das empresas passaram a ser auditadas, seja por processos formais seja por processos informais, pelos diversos stakeholders. O processo de verificação é muito mais sólido. Há uns anos, dizia-se: “Vamos pintar-nos mais de verde porque é bom para a reputação.” Agora, é bom para os mercados financeiros. Portugal já começou a fazer emissões de green bonds e green loans, e as empresas só têm acesso a esse tipo de financiamento se conseguirem demonstrar que efetivamente estão a fazer alguma coisa e não apenas a contar histórias. O sistema financeiro tem vindo a transformar-se de uma maneira radical e começa a exigir a prova do que se está a fazer. Por outro lado, os investidores associam maiores riscos às empresas menos sustentáveis.

O seu trabalho passa muito por dar suporte técnico e científico às empresas, nomeadamente na agricultura, na eficiência de recursos e na adaptação às alterações climáticas…
Temos alguns grandes proprietários rurais portugueses que nos pedem as projeções dos impactos das alterações climáticas a 20, 30 e 40 anos, para eles definirem as suas decisões empresariais em termos futuros – se os seus modelos, hoje, que são um misto de agricultura, de floresta, de criação de gado e outro tipo de atividades, terão resiliência face às alterações climáticas. Neste momento, eles próprios sentem que não é uma discussão intelectual, é uma realidade.

Esperava-se um retrocesso em relação às preocupações ambientais das empresas, com a crise da Covid-19, mas isso não aconteceu

A agricultura está a tentar minimizar os seus impactos ambientais?
No século XX, tornámos a agricultura mais eficiente, com a mecanização, a utilização dos adubos de síntese, dos herbicidas e dos pesticidas, o que nos ajudou a diminuir muito a fome no mundo. Este modelo teve um crescimento e atingimos o ponto de inflexão. Agora, temos de renaturalizar, de voltar a utilizar os ciclos naturais, não por uma questão ideológica mas porque os ciclos naturais nos ajudam a obter melhores resultados em qualidade, em economia e em impactos. Nós, na NBI, ajudamos os agricultores a olhar para o equilíbrio dos ecossistemas. Ajudamo-los a ser mais eficientes, diminuindo os impactos ambientais sobre a água, sobre a biodiversidade… Também é importante dizer que se esperava um retrocesso em relação às preocupações ambientais das empresas, quando a crise da Covid-19 se abateu sobre a economia nacional, mas isso não aconteceu.

A agricultura moderna não tem boa fama. É uma imagem injusta?
A agricultura e a produção florestal… Ficamos muito satisfeitos por atender às nossas necessidades de consumo, sejam as necessidades alimentares, as de fibra e de embalagens dos produtos florestais ou até as de materiais de construção. Mas depois não aceitamos os seus impactos. Na verdade, temos tido uma evolução muito positiva em relação a esses efeitos, mas ainda há este desconhecimento, que tem que ver com uma cada vez maior urbanização da população.

Liderou o Forest Solutions Group e tem uma longa carreira dedicada às florestas. Porque as florestas de produção, em Portugal, são o mau da fita?
Os meus últimos três anos no WBCSD, com responsabilidades na agenda florestal, permitiram-me perceber que essa é uma constante mundial, mas temos em Portugal características diferenciadas. Se no nosso país a opinião pública está contra as monoculturas de eucalipto, na Austrália está contra as monoculturas de pinheiro-bravo; no Brasil, contra as de teca. É a questão das espécies importadas. Este tipo de discussão é assim nas florestas, mas ninguém questiona se devemos ter batatas na Europa, apesar de ela vir da América do Sul. As culturas, sejam agrícolas ou florestais, globalizaram-se. Aqui o problema continua a ser a tal dissociação. E há uma série de mitos urbanos quanto aos efeitos negativos.

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