Como as empresas estão a reduzir as suas emissões – e a ganhar com isso

“Há dois tipos de empresas – as rápidas e as mortas.” Talvez esta máxima do mundo empresarial nunca tenha feito tanto sentido como agora. Num momento decisivo, em que se tenta travar o mais depressa possível as emissões de gases com efeito de estufa para mitigar as alterações climáticas, as empresas que mais depressa se adaptarem e limitarem o seu impacto ambiental são as que estarão mais bem preparadas para sobreviver.

A descarbonização da economia já está em curso, e tem mesmo de estar. Portugal foi o primeiro país da União Europeia (UE) a comprometer-se a ser neutro em carbono em 2050 (ou seja, daqui a 29 anos, não podemos emitir mais do que as nossas florestas, pastagens e matos conseguem absorver). Para conseguir cumprir essa meta, esta é a década mais importante, aquela em que terá de ser dado o maior impulso. O bloco europeu comprometeu-se, aliás, a reduzir as suas emissões em 55% até 2030, face aos níveis de 1990.

Portugal parte de uma condição mais favorável do que a maioria dos seus vizinhos europeus, conclui um relatório, publicado em maio, da consultora de gestão McKinsey, em colaboração com o BCSD Portugal (o braço nacional do World Business Council for Sustainable Development, associação global de empresas que se comprometem com o desenvolvimento sustentável). O País pode, até, atingir a neutralidade carbónica mais cedo, “dado o potencial de descarbonização a baixo custo que apresenta”, “sendo uma ambição maior viável”, lê-se no relatório. (A China comprometeu-se a ser neutra em carbono em 2060, 30 anos depois do pico das emissões estimado, em 2030. O pico das emissões portuguesas é de 2005, pelo que, se seguíssemos os prazos da China, poderíamos ser neutros em 2035.)

Voar com óleo Em maio, um A350 da Air France fez um voo transatlântico com 16% de óleo de cozinha usado no depósito Foto:GettyImages

Temos várias vantagens, face ao resto da Europa: uma menor pegada carbónica do que a média, intensidade carbónica mais baixa (muitas fontes renováveis e pouco carvão) e menor consumo energético nos edifícios (menos necessidade de aquecimento do que o Norte). No entanto, apesar de partirmos uns metros à frente, temos de estugar o passo e “acelerar as tendências recentes de descarbonização em 20%”, aumentando cinco a seis vezes por ano a capacidade eólica e solar, se queremos cumprir a meta dos 55% até 2030. Mas a mesma análise acrescenta que os custos iniciais dessa transição são relativamente baixos e o retorno, alto. E é esta linguagem que as empresas já estão a perceber: tornar o planeta um pouco melhor não é um gasto, é um investimento.

Regras iguais para todos
Hugo Espírito Santo, partner na McKinsey e um dos responsáveis pelo relatório Net-Zero Portugal – Caminhos de Portugal para a descarbonização, diz que a transição energética é “uma oportunidade para criar riqueza para o País”. “Temos condições únicas no sistema eletroprodutor – o Sol é o novo petróleo. E temos também potencial na floresta; se a protegermos, é uma alavanca muito eficiente”, garante, lembrando que, quando há um ano mau de incêndios, os 60 milhões de toneladas de CO2 emitidos podem subir para 80 milhões. “É mais barato proteger as florestas do que reduzir as emissões das cimenteiras.” A Secil, por exemplo, vai gastar €86 milhões para reduzir em 20% as emissões da sua fábrica do Outão.

Com o passar do tempo, a descarbonização ficará cada vez menos dispendiosa. Depois de um grande investimento inicial, quando a tecnologia ainda não era competitiva, hoje já há períodos em que as renováveis são mais baratas do que as energias fósseis. Os carros elétricos seguem o mesmo caminho, aproximando-se do preço dos automóveis com motores de combustão. E o hidrogénio será igualmente uma opção viável, no futuro. Tudo isto torna a sustentabilidade ambiental uma opção sustentável também do ponto de vista económico. “As empresas estão muito comprometidas com a descarbonização. Há uma pressão para isso dos consumidores, colaboradores e investidores”, assegura o consultor.

Aviões mais verdes

O setor da aviação, responsável por 2% dos gases com efeito de estufa, também tem um plano de redução de emissões

É difícil descarbonizar a aviação. Mas já há metas concretas: o Pacto Ecológico Europeu prevê que os aviões de companhias europeias usem uma percentagem crescente de SAF (sigla inglesa para combustível sustentável para a aviação), misturado com querosene. Deverá ser aprovado este verão um objetivo de 2% de SAF para 2025, passando para 5% em 2030, 20% em 2035, 32% em 2040 e 63% em 2050. Para ser considerada SAF, a matéria-prima não poderá competir com área agrícola para alimentação – na sua maioria, é etanol ou biodiesel produzido a partir de desperdícios do setor alimentar. Em maio, um A350 da Air France fez História ao atravessar o Atlântico, de Paris a Montreal, com 16% de óleo alimentar usado no depósito, evitando assim a emissão de 20 toneladas de dióxido de carbono.

Há um preço a pagar por esta evolução, literalmente – o custo do SAF é três a cinco vezes superior ao do combustível tradicional. No caso do voo transatlântico da Air France, os passageiros pagaram apenas um valor simbólico de quatro euros a mais. Mas algumas companhias europeias já vieram apelar a que as metas de SAF se estendam a todos os voos com origem na UE, para não criar uma situação de concorrência desleal. A obrigatoriedade de cumprir as quotas de SAF nos voos de longa distância também preocupa as empresas, que ficarão em desvantagem competitiva com as de outras regiões.

O setor empresarial já percebeu que não há outro caminho, frisa João Meneses, secretário-geral do BCSD, que representa para cima de 100 companhias com objetivos de sustentabilidade e que, juntas, representam mais de 10% do PIB português. Mas o ritmo não é igual para todas. “Há empresas que anteciparam o net zero para 2030 ou 2040 e há outras que estão ainda a tentar perceber que financiamentos vêm aí. Essas são sobretudo as pequenas e médias empresas.”

É aqui que deve entrar a regulação. “É preciso apoiar quem é sustentável e penalizar quem não é. Quando uma t-shirt custa dez euros, não está a pagar os impactos sociais e ambientais.” Um empurrão é fundamental nesta altura, defende, dando o exemplo de Henry Ford. “No início, definiu um preço abaixo do preço de custo para os seus carros, porque era o que o mercado podia tolerar, e passou a ser rentável quando ganhou escala. A sustentabilidade também precisa de ganhar escala.” Desta forma, o mercado ajusta-se, não deixando que empresas que fazem um esforço financeiro para se tornarem mais sustentáveis fiquem em desvantagem competitiva em relação a outras, que não se preocupam com critérios ambientais. “Os fundos europeus podem ajudar a fazer esta transição agora.”

Em simultâneo, a UE, que tem os critérios “verdes” mais exigentes do mundo, deve evitar “dumping ambiental”, avisa Hugo Espírito Santo, que propõe medidas como impostos transfronteiriços de dióxido de carbono para que as empresas de fora joguem com as mesmas regras das europeias. “Vejo um problema de competitividade entre países e regiões, em que uns estão comprometidos com a sustentabilidade e outros não.”

Os efeitos da pandemia
Mesmo sem uma estratégia pública forte da cenoura e do chicote, o cerco começa a apertar-se para as empresas que tentam ignorar a sustentabilidade. Um dos sinais mais decisivos vem da banca. “O setor financeiro tem um papel muito importante, e o Banco Central Europeu impôs parâmetros ambientais nos testes de stresse”, diz Hugo Espírito Santo. Projetos como centrais a carvão ou a construção de edifícios com fraco isolamento terão cada vez mais dificuldades em financiar-se. “O risco ambiental é uma coisa que os bancos e as seguradoras entendem. Vai ser mais fácil obter empréstimos para projetos ‘verdes’ ou sem risco ambiental, com taxas mais atrativas.” No reverso da medalha, o capital será cada vez mais caro para empresas menos sustentáveis, porque o risco é assumido como maior, o que fará com que os preços dos produtos e serviços finais sejam menos competitivos.

Compensar as emissões Milhares de empresas apostam no carbon offsetting. Plantar árvores é o tipo de projetos mais comum Foto: GettyImages

As portas do investimento externo também se estão a fechar. “Nos países nórdicos, já há várias firmas de investimento que só investem em projetos e empresas sustentáveis, porque começa a provar-se que são os que têm mais retorno a longo prazo.”

Não é só no Norte da Europa. A suíça Zurich, por exemplo, uma das maiores seguradoras do mundo, cortou todos os investimentos nas indústrias que considera serem mais lesivas do ambiente – carvão, petróleo de xisto e areias pesadas –, abandonando 96 das 268 entidades em que tinha fundos aplicados. “Se não estivermos ao lado dessas empresas, vamos obrigá-las a mudar a forma de trabalhar. Com os investimentos a desaparecerem, as operações ficam muito dificultadas”, diz António Bico, CEO da Zurich Portugal. Ao mesmo tempo que desinveste nas indústrias mais poluidoras, o grupo vai aumentando os investimentos em projetos de eficiência de recursos, renováveis e outras áreas com impacto positivo no clima. Em 2020, o portefólio “verde” estava nos 4,9 mil milhões de euros.

Dentro de casa, o espírito é o mesmo. A multinacional, que se comprometeu a ser neutra em carbono em 2050, quer que 100% da sua eletricidade nos 214 territórios onde trabalha venha de fontes renováveis já em 2022 (em Portugal, o valor está hoje nos 98%). “As empresas têm obrigações sociais para cumprir, não só económicas, e devem dar um impulso para a consciencialização coletiva, começando pelos seus colaboradores”, comenta António Bico.

A pandemia pode mesmo vir a dar uma ajuda à transição em curso, defende o gestor, começando pela diminuição drástica das viagens de avião. “Eu andava sempre de mala feita… Mas o turismo profissional não vai voltar. Não é preciso, a tecnologia deu provas. Temos uma necessidade muito pontual de fazer reuniões presenciais. Fomos obrigados pela pandemia a viver o futuro mais cedo. Esta é uma oportunidade única e o planeta agradece.” Antes dos confinamentos, conta, a empresa procurava um edifício em Lisboa para juntar os cerca de 450 funcionários, distribuídos por dois escritórios. Essa opção já foi posta de parte. “Tomámos a decisão de ter um regime de trabalho híbrido, a partir de casa e no escritório, rotativo. Vamos abandonar um dos edifícios e ficamos só no da sede. Serão muito menos viagens pendulares, casa-trabalho.”

Mas a pandemia tem um potencial efeito pernicioso na descarbonização: a crise económica pode fazer com que as empresas com menor folga financeira adiem os seus investimentos na redução de emissões.

As lições da pandemia O teletrabalho veio para ficar, e o planeta agradece

Os clientes premeiam o “verde”
A descarbonização das empresas está em curso e é imparável, mas acontece a duas velocidades. “Felizmente, já existem muitas empresas que adotam práticas sustentáveis na sua cadeia de valor, não só a nível da produção, como também na distribuição. Em Portugal existem excelentes exemplos. Mas, infelizmente, estes exemplos não são transversais a todo o tecido empresarial”, lamenta Luís Miguel Ribeiro, presidente da AEP – Associação Empresarial de Portugal. “Ainda há um longo caminho a percorrer, que dependerá da capacitação das empresas, sobretudo as de menor dimensão, que constituem a esmagadora maioria do nosso tecido empresarial, face ao insuficiente nível de conhecimento, nomeadamente ao nível das implicações que acarretará a transição energética.” A AEP lançou em abril o projeto EcoEconomy 4.0, para passar a mensagem e estimular práticas sustentáveis, com o foco nas micro, pequenas e médias empresas.

O presidente da associação defende uma discriminação positiva na alocação de verbas públicas (a começar pelos mecanismos de financiamento do Plano de Recuperação e Resiliência) para o setor privado, para apoiar projetos alinhados com princípios ambientais. E pede um maior investimento na ferrovia para o transporte de mercadorias e passageiros, por ser mais sustentável do que o rodoviário.

Compensar o que não se consegue cortar

O carbon offsetting é uma das ferramentas a que as empresas mais recorrem para reduzirem a sua pegada carbónica

Por mais que descarbonizem as suas operações e cadeias de valor, as empresas terão (quase) inevitavelmente emissões de gases com efeito de estufa associadas à sua atividade. É aqui que entra o carbon offsetting – compensação de emissões. Esta solução consiste em investir em projetos que absorvam o dióxido de carbono ou evitem emissões.

O mais comum, no primeiro caso, é tão simples como plantar árvores, que vão servir de sumidouro de CO2. No segundo caso, podemos estar a falar de projetos de eficiência energética, energias renováveis ou substituição de fontes mais poluidoras por outras mais limpas. Uma empresa (ou mesmo um governo) pode decidir melhorar a eficiência energética de um bairro ou substituir os fornos a carvão por fornos solares numa comunidade remota, contabilizando para si as emissões evitadas.

Estes investimentos não têm necessariamente de ser aplicados no país onde a empresa opera. A prática mais habitual é, na verdade, investir em regiões menos favorecidas, o que tem um custo-benefício mais favorável. É mais barato reflorestar áreas no Congo do que na Suíça, sendo que, do ponto de vista global, pouco importa ao planeta se o dióxido de carbono é absorvido em África ou na Europa.

Do lado das empresas, continua Luís Miguel Ribeiro, só há vantagens em apostar na descarbonização. “Os estudos têm mostrado que cada vez mais os consumidores valorizam bens ou serviços com menor pegada ambiental. Partindo deste princípio, investir na descarbonização também é uma forma de as empresas darem resposta às exigências do mercado e, por esta via, se diferenciarem e adquirirem uma vantagem competitiva face à concorrência.”

Essa recompensa, contudo, não é transversal a todas as indústrias nem a todos os consumidores, alerta João Meneses, do BCSD Portugal. “Ainda é quem tem mais dinheiro e mais informação – as classes mais altas – que está disposto a pagar mais por produtos sustentáveis. Por outro lado, o setor agroalimentar, por exemplo, está mais disponível para investir na sustentabilidade do que o têxtil, porque há aqui uma ligação à saúde: as pessoas estão disponíveis para vestir lixo, mas não para comer lixo.”

O setor têxtil costuma passar pelos pingos da chuva, quando se discute a urgência de descarbonizar a economia, embora seja responsável por cerca de 10% das emissões de dióxido de carbono (e calcula-se que atinja os 26% em 2050). Mas também já começa, ainda que timidamente, a lidar com o problema das mais diversas formas, desde a reutilização de tecidos usados e materiais reciclados ou mais sustentáveis no fabrico de novas peças à minimização dos consumos de água.

Poupar, poupando o ambiente
Há hoje vários projetos europeus de incentivo à redução da pegada carbónica das operações de logística e transporte. O maior é o programa Lean & Green, da organização sem fins lucrativos GS1, que prepara e certifica planos de ação em cinco passos rumo à descarbonização; as empresas têm direito à primeira de cinco estrelas quando atingem uma redução de 20% das suas emissões (no prazo máximo de cinco anos), depois de auditadas por entidades externas. No nosso país, o projeto começou em 2019 e já “premiou” duas empresas com a primeira estrela: a Delta e a Nestlé Portugal.

Produzir energia A instalação de painéis fotovoltaicos em armazéns, fábricas e escritórios está a tornar-se popular em Portugal – é um investimento que compensa

“Alguns dos melhores exemplos de descarbonização apresentados por estas empresas são a colaboração com retalhistas para otimizar a utilização do espaço de carga no transporte de mercadorias, na entrega e no regresso, em iniciativas de articulação e parceria; a utilização de software de gestão de rotas para garantir a otimização das entregas, conseguindo reduzir emissões e custos; a incorporação de veículos elétricos sempre que possível e a formação em condução eficiente”, enumera João Castro Guimarães, diretor-executivo da GS1 Portugal.

Este é um investimento que compensa, e não só a longo prazo, acrescenta. “Alterações da frota para redução de emissões de gases com efeito de estufa têm um impacto positivo na redução do consumo de combustível, o que, com o recente aumento do preço dos combustíveis, tem resultado num assinalável retorno de investimento, superior ao que era expectável.”

Mesmo com todos os esforços de redução dos impactos ambientais, subsiste um dilema: como garantir o crescimento infinito das economias num planeta com recursos finitos? Uma das formas de minimizar o problema é dar nova vida ao que é velho – e há cada vez mais empresas especializadas no restauro de equipamentos. “Quando consumimos qualquer coisa nova, estamos a consumir matéria-prima. Facilitar o acesso a produtos de economia circular é uma grande solução”, diz Camille Richard, diretora de responsabilidade social e corporativa da Back Market, uma startup francesa de aparelhos eletrónicos recondicionados, presente em vários países e que chegou a Portugal este ano. Metade do mercado automóvel é dos usados, continua. Porque não fazer o mesmo no mercado da eletrónica de consumo, um dos que têm maior pegada ecológica? “Temos de consumir de maneira diferente, consumir melhor, para reduzirmos o nosso impacto.”

Como reduzir a pegada da sua empresa

Modernize a frota automóvel, substituindo os carros com motor a combustão por elétricos;

Otimize as rotas e as cargas dos camiões, para minimizar as viagens e transportar o máximo possível (recorrendo, por exemplo, a software de gestão de rotas);

Aposte no transporte ferroviário sempre que possível;

No escritório, implemente um sistema rotativo (teletrabalho/trabalho presencial), para reduzir as viagens dos funcionários;

Instale painéis fotovoltaicos nos edifícios da empresa. Ao fim de quatro anos, em média, o investimento está pago. A partir daí, tudo é lucro;

Marque menos reuniões presenciais, aproveitando as ferramentas tecnológicas popularizadas durante a pandemia;

Garanta que os equipamentos são desligados ao final do dia – um computador em standby continua a gastar energia;

Faça um contrato com o fornecedor de eletricidade que garanta que a energia consumida foi produzida com recurso a fontes renováveis;

O plano A deverá ser sempre o corte de emissões. Mas será virtualmente impossível descarbonizar completamente as operações a curto ou médio prazo. Nesse caso, entra em ação o plano B: o carbon offsetting (ver caixa Compensar o que não se consegue cortar)

CAPA DA EDIÇÃO