Michael Shellenberger “Nenhum país rico tem o direito de dizer a um pobre para não queimar carvão”

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Depois de muitos anos como ativista, Michael Shellenberger começou a pôr em causa os dogmas do movimento ambientalista. O processo culminou na publicação de Apocalipse Nunca (Dom Quixote, 464 páginas, €22), em que conclui que, apesar de reais, as alterações climáticas não são o nosso problema ambiental mais grave. Pelo caminho, ataca as energias renováveis, a reciclagem e a ideia de que estamos a provocar uma extinção em massa. Shellenberger acusa os ambientalistas de escolherem os factos que lhes dão razão e ignorarem os outros – acusação de que, aliás, ele próprio é acusado, incluindo por cientistas que cita no livro.

É um ambientalista arrependido?
[Longa pausa] Não, sou o verdadeiro ambientalista.

Que erros cometeu nos seus primeiros tempos como ambientalista?
Não fazer a minha própria investigação e confiar, sem espírito crítico, em ideias que me foram transmitidas, em vez de as investigar por conta própria.

Quando os cientistas dizem que o Homem está a provocar alterações climáticas, muitos ambientalistas dizem “oiçam a Ciência”. Quando os mesmos cientistas apontam a energia nuclear ou a engenharia genética como soluções, acusam-nos de serem pagos por lobbies. Porquê?
Porque é uma religião apocalíptica. Dizem que os humanos são maus, estão a destruir o mundo e só precisamos de voltar a modos de vida mais primitivos, supostamente mais naturais. Por isso, escolhem a ciência que lhes dá razão. As alterações climáticas são reais, e concordo que temos de fazer alguma coisa quanto a isso, mas o Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas [IPCC] nunca diz que ameaçam a civilização. O que diz é que poderia haver mais mortes por doenças e desastres se tudo o resto se mantivesse igual. O movimento ambientalista é uma religião apocalíptica que escolhe a dedo certos factos para construir uma narrativa.

O Michael também escolheu ciência a dedo para este livro. Por exemplo, diz que não estamos a viver uma sexta extinção em massa e, para isso, cita parte de um artigo científico – um artigo que conclui precisamente que a extinção é real ou, pelo menos, iminente, conclusão essa que omite no seu livro.
Há dois organismos científicos que refletem o consenso científico, e nenhuma dessas organizações diz que estamos numa sexta extinção. Para isso, mais de 75% das espécies têm de estar a extinguir-se, e não há nada que se aproxime disso. A grande maioria das espécies não está em risco de extinção, e há todos os motivos para acreditar que a pegada ambiental da Humanidade irá diminuir. Não conheço a citação em particular, mas sinto-me muito confiante de que não há bases para afirmar que estamos a causar a sexta extinção em massa.

Duvida dos cenários de pontos de rutura das alterações climáticas, devido à incerteza dos mecanismos do clima. Mas não deveria essa incerteza assustar-nos o suficiente para evitarmos esse risco, tendo em conta o que está em jogo?
Deixe-me só acrescentar mais um ponto sobre a última pergunta: de acordo com a IUCN [União Internacional para a Conservação da Natureza], 0,8% das espécies na Terra foram extintas desde 1500 e apenas 6% das espécies estão ameaçadas de extinção. Para que seja uma extinção em massa, tem de ser superior a 75 por cento.

Essas extinções de 75% ocorreram ao longo de milhares de anos, e a sua comparação é com um período de 500 anos. A correlação não pode ser feita assim.
Sim… Mas as pessoas têm a ideia criacionista, não científica, de que os humanos vieram à Terra e todos os animais estavam bem e fomos nós que causámos a extinção. Não, sempre houve espécies a extinguir-se.

Voltando aos cenários de rutura…
O IPCC não usa cenários de rutura para calcular o que pode acontecer. Discute pontos de rutura, claro, como eu, mas estes não são considerados Ciência. E a razão para isso é que há demasiada especulação sobre os elos da cadeia da causalidade. Por exemplo, os cientistas mudaram de ideias sobre a Amazónia: costumavam pensar que as alterações climáticas resultariam em mais chuva, e agora dizem que vai resultar em menos chuva. Não estou a dar esse exemplo para sugerir que os cientistas não sabem nada; estou a dizer que estes fenómenos são complicados. Acumulam-se essas cadeias de causalidade e é difícil encontrar um cenário catastrófico. Asteroides, supervulcões, pandemias e guerras têm maior probabilidade de risco catastrófico do que as alterações climáticas.

O movimento ambientalista é uma religião apocalíptica que escolhe a dedo certos factos para construir uma narrativa

O crescimento económico tem estado, até agora, correlacionado com um maior consumo de energia e dos recursos naturais. Devemos ajudar as nações pobres a prosperar sem delapidar os recursos e queimar mais combustíveis fósseis?
Seria pouco ético e hipócrita impedi-los de se desenvolverem como nós fizemos. Nenhum país rico tem o direito de dizer a um país pobre que não pode queimar carvão.

As nações desenvolvidas não podem ajudar as outras a alcançar uma vida melhor de uma forma mais limpa? Não podemos pagar pelos serviços do ecossistema, para que o seu crescimento seja um pouco mais limpo do que o nosso?
Devemos ajudar os países pobres a urbanizarem-se, industrializarem-se e a intensificarem a agricultura. As nações criam parques naturais à medida que enriquecem. Em locais como o Congo, devemos apoiar a criação de fábricas, apoiar a construção de uma grande barragem hidroelétrica para fornecer eletricidade barata e fiável e ajudar os seus agricultores a adotarem a irrigação com fertilizantes e tratores para aumentar significativamente a quantidade de alimentos que produzem.

Falou de barragens. Mas, no seu livro, diz que as energias renováveis não são a solução.
Apoio a criação de grandes barragens nos países pobres. Não apoio os painéis solares nem as turbinas eólicas, porque não se pode confiar neles durante fenómenos meteorológicos extremos, aumentam o custo da eletricidade e têm efeitos ecológicos negativos sobre aves, morcegos e insetos.

As barragens também têm efeitos negativos sobre os ecossistemas…
Sim, é verdade. Por exemplo, no Brasil, a alternativa nuclear era preferível. Mas o Congo não está pronto para o nuclear.

No livro, também critica a guerra ao plástico.
É um escândalo. Uma quantidade significativa dos resíduos nos oceanos deve-se aos esforços dos países ricos para reciclar o plástico: 90% do plástico colocado em contentores de reciclagem nunca é reciclado. Parte significativa vai para países pobres e, depois, para os oceanos. Estão a brincar com a reciclagem, quando temos soluções para os resíduos: aterros e incineradoras.

As palhinhas tornaram-se o símbolo da guerra ao plástico, apesar de representarem apenas 0,3% do plástico no mar. É porque as pessoas gostam de soluções simples?
Sim, porque nos é familiar e porque, obviamente, é fácil para uma câmara municipal ou um governo proibir palhinhas de plástico. Os políticos podem fazer uma conferência de imprensa e reivindicar a virtude ambiental. E é interessante como as pessoas se zangam quando dizemos que as palhinhas são um pormenor: estamos a privá-las do prazer de se sentirem moralmente superiores por terem feito algo tão trivial como deixar de usar palhinhas. É literalmente o mínimo que se pode fazer. É uma coisa estúpida.

Não é republicano nem negacionista. Como encara o facto de o seu livro estar a ser usado por republicanos como prova de que as alterações climáticas não são reais ou não são importantes?
Não posso assumir a responsabilidade pelos comportamentos de outras pessoas. A minha opinião é que as alterações climáticas são reais – só não são o fim do mundo. As pessoas que me criticam por falar com os conservadores, essa ideia de que o meu livro está a ser usado pela “má religião”… Tenho amigos que se zangaram comigo por ter ido à Fox News. Bom, não me convidam para ir à CNN nem à MSNBC… Mas, mesmo que me convidassem, continuaria a querer falar com os conservadores. Esta ideia de que não devíamos falar uns com os outros é preocupante.

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