Jane Goodall, uma lenda da conservação da Natureza: “A janela está a fechar-se. A nossa oportunidade para agir é agora”

Jane Goodall, PhD, DBE

A nossa compreensão do mundo natural divide-se em a.G. e d.G – antes e depois de Goodall. Até 1960, o Homem encontrava-se sozinho no seu pedestal de sapiência, era o único animal capaz de construir, de moldar os materiais de forma a criar um objeto novo. Nenhum outro ser à face da Terra possuía o seu pensamento complexo, a mente prodigiosa que lhe permite fazer e usar ferramentas e armas.

Nesse ano, em julho, uma jovem inglesa de 26 anos chegou à floresta de Gombe, na Tanzânia, nas margens do lago Tanganica. Queria estudar os chimpanzés. Não tinha formação superior (a licenciatura e o doutoramento em Etologia viriam mais tarde), apenas uma paixão incontrolável por animais e a vontade de saber mais sobre eles. O desafio era ainda maior pela mais estúpida das razões: naquela altura, a primatologia era dominada por homens que não aceitavam mulheres nos trabalhos de campo.

Com o apoio incondicional da mãe e o amparo profissional do paleoantropólogo Louis Leakey, Jane conseguiu instalar-se em Gombe, para observar de perto a comunidade de chimpanzés de Kazakela e registar tudo o que via. Passo a passo, dia após dia, os primatas foram deixando a investigadora aproximar-se cada vez mais, até finalmente a aceitarem como se ela fosse um deles. Jane Goodall tornou-se assim, que se saiba, a primeira, e até hoje única pessoa do mundo, a ser aceite num grupo de chimpanzés.

Ao fim de alguns meses, a jovem descobriu, para espanto da comunidade científica, que os chimpanzés caçavam animais e comiam a sua carne. A grande bomba explodiria pouco depois: em 1961, há exatamente 60 anos, Jane testemunhou dois chimpanzés, que ela batizara de David Greybeard e de Goliath, a arrancarem as folhas de pequenos ramos de árvores para “fabricarem” paus que usavam para apanhar térmitas, escondidas nos seus buracos. E de repente o Homem tornava-se mais um animal, apenas um pouco mais evoluído do que os outros. Ao estudar os chimpanzés, Jane Goodall redefiniu o lugar da sua própria espécie.

“Os animais podem sentir medo e dor, têm emoções, podem estar contentes, felizes, tristes, conhecem o desespero”

Quanto mais observava, menos especiais as pessoas lhe pareciam. Tudo o que até então era considerado característica humana, Jane encontrava nos chimpanzés: carinho, amor, empatia, medo, inveja, até a capacidade de provocar guerras e de combatê-las com armas. Sim, os animais partilhavam as nossas qualidades mas também os nossos defeitos.

Ao longo das décadas seguintes, Jane continuou o seu trabalho de investigação, em simultâneo com projetos de conservação. Em 1977, fundou o Instituto Jane Goodall, dedicado à proteção dos chimpanzés e das suas florestas. Em 1991, alargou o trabalho de conservação criando a iniciativa Roots & Shoots, que começou com uma dúzia de adolescentes da Tanzânia, preocupados com o futuro da região, e que conta hoje com milhares de grupos espalhados por várias dezenas de países. Três anos depois, iniciou o projeto TACARE, que tem como objetivo a reflorestação de Gombe, dando armas às populações locais para combater a pobreza. Pelo caminho, desdobrou-se em palestras por todo o planeta (passando, em média, 300 dias por ano na “estrada”) e colecionou os mais prestigiados prémios pelo seu trabalho na conservação e na proteção dos animais e dos habitats.

A pandemia cortou-lhe as asas. Após seis décadas a viajar, Jane, hoje com 87 anos, regressou à sua casa de infância. Habituada a ir até ao fim do mundo, limita-se agora a ir ao fim da rua. Mas mesmo confinada, ela não parou. Pelo contrário. “Tem sido o ano mais agitado da minha vida”, garante, durante a entrevista à VISÃO, por Zoom.

No fim de uma conversa cândida, repleta de risos, sorrisos e uma energia que seria invejável em qualquer idade, pedimos-lhe para nos falar das fotografias que tem na estante por detrás dela. “Esta sou eu e o meu ‘professor’ de infância, o meu cão Rusty, que me ensinou que os animais têm personalidade e sentimentos. É um dos meus heróis. Aquela ali em cima é a minha mãe. E este é outro dos meus amigos especiais, o David Greybeard.” Greybeard foi o primeiro chimpanzé que Jane viu a usar ferramentas – e o primeiro a aceitá-la no seio do grupo.

Um trabalho de paciência No início, Jane passava horas infindáveis a observar os chimpanzés através de binóculos. Até que os binóculos se tornaram desnecessários

O seu trabalho mudou a forma como o mundo vê os primatas. Mais do que isso, ajudou as pessoas a perceber que o ser humano não é assim tão único. Não estamos isolados na capacidade de fazer ferramentas, de trabalhar em conjunto e até de amar. De que forma essa perceção pode tornar o mundo um lugar melhor?
Devia fazer-nos tratar melhor os animais, porque sabemos que podem sentir medo e dor, têm emoções, podem estar contentes, felizes, tristes, conhecem o desespero. Mas nem sequer tratamos bem as outras pessoas, quanto mais os animais! Há algo dentro de nós que devíamos mudar, não há?

Quais foram seus primeiros momentos de assombro, quando começou a observar os chimpanzés?
Fiquei maravilhada ao ver como eram parecidos connosco, o quanto eu conseguia percebê-los mesmo sem saber nada sobre chimpanzés, porque beijar, abraçar, dar as mãos, acariciar… são as mesmas coisas que nós fazemos. Eles riem-se quando têm cócegas e quando brincam, e zangam-se uns com os outros, em família, muito como as nossas crianças. As mães-chimpanzés, devo dizer, são muitas vezes melhores do que muitas mães humanas.

Quais são as características mais “humanas” que testemunhou? A capacidade de cuidar do outro, a empatia, a audácia? Ou as mais negativas, como a agressividade, a disposição para o conflito?
Infelizmente, o lado agressivo deles é muito parecido com o nosso. A agressividade humana, ainda assim, é pior – temos um intelecto que nos permite sentar e falar sobre valores morais, pelo que sabemos o que estamos a fazer. Os chimpanzés só não fazem sempre o que lhes apetece quando há a intervenção de um indivíduo numa posição hierárquica superior. E isso, de certa forma, é o início da moralidade. Quando um mamífero numa posição superior acorre em defesa de um subordinado. Nem sempre, mas às vezes.

O instinto maternal…
Uma mãe-chimpanzé educa os filhos tal como uma mãe humana devia educar os seus: com muito contacto físico, muito afeto. Disciplina, também, mas sem castigos antes de a criança compreender o que fez de errado. Há tempos, no aeroporto, estava ao meu lado uma mãe com uma criança de três anos que entornou acidentalmente um pouco de leite; a mãe olhou para ela e disse-lhe: “Já sabes que vais levar, não sabes?” A criança começou a chorar, ela agarrou-a e levou-a para a casa de banho, suponho que para lhe bater. Isso é horrível! A criança não queria entornar o leite! Foi um acidente. A maioria das mães-chimpanzés é melhor do que esta mãe. O mais importante, e que eu tive a sorte de ter com a minha mãe, é o apoio. Apoie os seus filhos. É importante. Ao longo destes 60 anos em Gombe, em três comunidades de chimpanzés, observámos que os filhos de mães mais carinhosas e protetoras se dão melhor na vida. Atingem um grau mais alto na hierarquia.

“Uma mãe-chimpanzé educa os filhos tal como uma mãe humana devia educar os seus: com muito contacto físico, muito afeto”

Quando foi a última vez que esteve em Gombe? Está pior agora do que antes?
Está muito pior. Tenho lá uma equipa a continuar as investigações. É difícil, devido à Covid-19, mas a pesquisa continua, com distanciamento e usando máscaras [para não transmitir o vírus aos chimpanzés]. A última vez que estive em Gombe foi antes da pandemia. Mas só consigo lá estar dois ou três dias, duas vezes por ano. A minha missão agora é espalhar a palavra, dar esperança às pessoas, porque, se não tiverem esperança, elas desistem e não fazem nada. Há muitas más notícias, mas também há boas. É preciso contar as histórias de habitats a serem restaurados, de projetos de renaturalização, de agricultores a devolverem as suas terras mais pobres à Natureza, de animais a serem salvos da extinção… Se conhecerem estas histórias, as pessoas vão ter energia para pensar: “Se isto é possível, vamos tentar convencer os autarcas da minha cidade a dar espaço à vida selvagem ao lado da estrada, a abrir um corredor verde para insetos”, coisas assim.

Os chimpanzés ainda estão ameaçados, e talvez mais do que nunca, pela desflorestação e pela caça ilegal. A extinção é uma ameaça real?
Não, porque nas áreas onde trabalhamos (e agora estamos em sete países africanos) desenvolvemos o nosso projeto Take Care, ou TACARE: trabalhamos com as populações locais que agora entendem que proteger o ambiente não é apenas proteger a vida selvagem mas também as pessoas. E ensinamos sobre os chimpanzés nas escolas, para que as crianças também queiram protegê-los.

Um mundo de homens
Os primatas aceitaram Jane mais depressa do que muitos primatólogos que, na altura, eram contra a presença de mulheres nas investigações de campo

Sessenta anos depois do seu trabalho pioneiro, que lições ainda não foram assimiladas na nossa relação com os animais?
Estamos sempre a aprender. Não sei se viu My Octopus Teacher [A Sabedoria do Polvo, na Netflix, que ganhou o Oscar de Melhor Documentário neste ano]… Abriu uma janela nova para o tipo de relacionamento, de conexão, que pode haver entre um ser humano e uma criatura tão inteligente, com um cérebro tão diferente, como que um cérebro em cada um dos oito braços, e cada braço a crescer e a funcionar separadamente… Ainda não conheci pessoalmente o Craig Foster [produtor e protagonista do documentário], mas temos falado. É um homem adorável, que me tem contado sobre a sua “vila de polvos”, como ele lhe chama, em que ele até viu um polvo macho em comportamento sexual com uma fêmea, o que é raríssimo.

Quando tinha 10 anos, o seu sonho era ir para África e viver com os animais. Muitas crianças têm esse tipo de sonho de infância, mas muito poucas o seguem quando crescem. O que foi diferente consigo? O seu querer era mais forte?
O mundo em que cresci era diferente. A II Guerra Mundial, os racionamentos… Aprendemos a valorizar tudo. Eu tinha só 5 anos quando a guerra começou, mas ainda assim aprendi a não dar nada por adquirido. Não havia televisão, portanto lia livros. Quando li o Tarzan, aos 10 anos, decidi que queria ir para África, viver com os animais selvagens e escrever sobre eles. Na verdade, eu interessava-me por animais desde que nasci. A minha mãe contava que eu levava minhocas para a cama, quando tinha ano e meio, e ficava a olhar para elas para perceber como conseguiam andar sem pernas.

“Salvar o ambiente não é só salvar os animais. E os brancos não podem chegar e dizer: ‘Saiam, queremos esta região para a vida selvagem’”

A sua mãe sempre a apoiou nas suas decisões de vida.
Sempre me encorajou, mesmo quando os outros se riam de mim e me diziam que não tinha dinheiro, blá-blá-blá. Ela dizia-me: “Se queres mesmo isso, aproveita cada oportunidade, e se não desistires, talvez encontres uma solução.” É tal como com os chimpanzés – se tivermos uma mãe, um pai ou um professor que nos transmita um sentimento de autoestima, conseguimos fazer o que quisermos. Claro, também precisamos de querer muito, e eu era mesmo apaixonada pela ideia de ir viver com os animais.

Perseguir esse sonho seria difícil para qualquer um, mas naquela época era particularmente difícil para uma mulher. Quão diferentes são os tempos modernos, em termos de igualdade de oportunidades, e o que nos falta ainda conquistar?
Há muito mais mulheres do que nunca nos negócios e na política. Mas há um longo caminho a percorrer em países onde as mulheres ainda são subjugadas, como a Índia, o Paquistão… Em muitos outros, há injustiças, como salários diferentes para o mesmo trabalho. As coisas estão a mudar. Há cada vez mais mulheres em cargos de relevância. O movimento feminista também mudou: antigamente, as mulheres conseguiam chegar ao topo, porque tinham aquela agressividade masculina; hoje, conseguem-no usando as características mais femininas, sendo mais gentis e pacientes. Lembro-me sempre de uma história que me contou, há muitos, muitos anos, o chefe de uma aldeia da América do Sul: “A nossa tribo é como uma águia, em que uma asa é masculina e outra é feminina, e só quando ambas forem iguais é que a nossa tribo será capaz de voar.” Achei lindo, porque é assim que deve ser. Mulheres e homens têm qualidades diferentes. Temos algumas em comum, mas precisamos de equilíbrio. Precisamos do lado maternal que as mulheres desenvolveram através da evolução. Ainda temos um longo caminho a percorrer, mas estamos a chegar lá. Há pessoas muito boas a trabalhar para que sejam dados os próximos passos.

Quão importante é resolver o problema da pobreza como meio para salvar o ambiente?
É absolutamente crucial. Essa é uma das três coisas que eu refiro sempre nas minhas palestras. Primeiro, temos de mudar o nosso estilo de vida, que é insustentável. Segundo, não podemos continuar a varrer para baixo do tapete a questão do aumento da população mundial – hoje somos 7,2 mil milhões de pessoas, e seremos cerca de 10 mil milhões em 2050, a usar recursos naturais finitos. Terceiro, sim, a pobreza – aliviar a pobreza é fundamental, porque se uma pessoa vive, por exemplo, em África, perto das florestas onde há chimpanzés, e está na miséria, terá de cortar árvores para cultivar alimentos ou para ganhar dinheiro com a madeira. Se não o fizer, como vai sobreviver? E uma pessoa pobre na cidade vai comprar a comida mais barata, sem se dar ao luxo de saber de onde veio e como foi produzida, se prejudicou o ambiente ou se implicou atos de crueldade com os animais. Não, só compram o mais barato para sobreviver. É por isso que trabalhamos para aliviar a pobreza em África, ajudando as comunidades a encontrar formas de ganhar a vida sem destruir o ambiente. Recorremos ao microcrédito para que elas possam criar os próprios pequenos negócios sustentáveis. Em 1990, havia mais gente a viver em redor de Gombe do que a região podia suportar. As pessoas cortavam as árvores… É por isso que começámos o programa TACARE e o expandimos, e está mesmo a resultar. Salvar o ambiente não é apenas salvar os animais, e sobretudo não pode ser uma coisa em que os brancos chegam e dizem: “Saiam, queremos esta região para a vida selvagem.” Essa atitude nunca levará à conservação real. Não pode.

Um génio entre primatas Jane considerava o macho alfa Figan o chimpanzé mais inteligente de Gombe

Alterações climáticas, desflorestação, poluição, extinções e, agora, a pandemia. Ainda encontra motivos para se sentir com esperança no futuro?
Sim, e uma delas é que as pessoas normais já perceberam que fomos nós a provocar esta pandemia, que o desrespeito pela natureza e pelos animais criou as condições para um vírus como este passar dos animais para os humanos, nascendo uma nova doença zoonótica. Nós dependemos do ambiente para ter comida, água, tudo, mas essa dependência está a destruir os ecossistemas e a aproximar espécies do colapso. Um dos motivos de esperança é o nosso cérebro, este intelecto que nos diferencia de outros animais (ainda que esses animais sejam, na realidade, bem mais inteligentes do que as pessoas julgavam, incluindo os domésticos, muitos a viver em condições horríveis). Agora estamos a encontrar soluções, energias renováveis, as pessoas já pensam na pegada ecológica… O nosso cérebro está finalmente a ser usado para nos tirar desta trapalhada em que nos metemos. E a Natureza é resiliente. Se lhe dermos uma oportunidade, ela regenera-se. Locais destruídos ficam outra vez saudáveis e vibrantes de vida, como aconteceu com as árvores à volta de Gombe, com mais espaço para os chimpanzés.

Foi precisamente em Gombe que nasceu um dos braços mais importantes do Instituto Jane Goodall, o programa Roots & Shoots, que hoje está presente em dezenas de países [incluindo Portugal] e envolve dezenas de milhares de crianças.
O nosso programa para jovens começou em 1991, na Tanzânia, com 12 alunos do Secundário, e está agora em mais de 65 países, com membros que vão do jardim de infância à universidade. Isto é dar aos jovens poderes para agir, para que eles possam escolher. Não somos nós a dizer-lhes o que eles têm de fazer. Crescem em ambientes diferentes, são de idades e de grupos socioeconómicos distintos… Os programas encaixam-se nas suas realidades. Entre eles, o grupo escolhe três projetos: um para ajudar as pessoas; outro, os animais, e outro ainda, o ambiente, até porque tudo está ligado. A minha maior fonte de esperança é ver os jovens determinados, apaixonados, que acreditam ser capazes de mudar o mundo. E estão mesmo a fazê-lo, a influenciar os pais e os avós, a pressionar as empresas, obrigando-as a tornarem-se mais éticas, não só em relação ao planeta mas também aos seus trabalhadores. Outro motivo de esperança são os espíritos indomáveis, pessoas que enfrentam forças que parecem impossíveis de derrotar e que não desistem até serem bem-sucedidos. Não estou a falar só de ícones como Nelson Mandela e Martin Luther King. Vejo cada vez mais gente inspiradora à minha volta. Há uns anos, conheci um homem que nasceu sem braços e sem pernas, só com uns pés a sair da anca, que ele usa para se transportar numa prancha de skate. Tem imensa vida! Estávamos no mesmo palco e eu ia sentar-me no chão, mas ele saltou para o meu lado no sofá. Se eu olhasse só para os olhos dele, nunca desconfiaria que havia alguma coisa de errado. Perguntei-lhe porque não usava próteses, e ele disse que não gostava, que talvez arranjasse umas um dia, quando subisse ao Evereste.

O braço de Jane Goodall em Portugal

Este ano, comemora-se o 30º aniversário do Roots & Shoots, o programa de educação ambiental criado pela primatóloga. O arranque deu-se com um grupo de 16 estudantes da Tanzânia, em 1991. Hoje, está presente em dezenas de países. Em Portugal, o projeto iniciou-se em 2006, pela mão da Sociedade Portuguesa para a Educação Humanitária (SPEdH), na sequência de um congresso que organizou sobre o bem-estar animal, em Lisboa, encerrado por Jane Goodall, na sua primeira visita ao nosso país.

O Roots & Shoots funciona de forma descentralizada, com grupos locais, explica Maria Francisca de Abreu Afonso, uma das coordenadoras do programa em Portugal. “Qualquer pessoa pode formar um grupo Roots & Shoots. Amigos, uma turma numa escola ou numa faculdade, uma família, uma avó e os seus netos, irmãos, vizinhos… Nos grupos que envolvem crianças, é importante haver um adulto responsável. O único requisito é fazer, por ano, um projeto que ajude as pessoas, os animais e o ambiente”, os três pilares de Roots & Shoots.

Desde a sua criação, conta, os projetos têm passado por plantação de árvores, limpeza de praias, reabilitações de parques, criação de postos de compostagem, ajuda a animais de rua e de canis, recolha de roupa para doação, ensino de Português a imigrantes e prevenção de bullying e de racismo. O Roots & Shoots é financiado por donativos. Ao nível mundial, e tal como o Instituto Jane Goodall, tem a classificação máxima de transparência (quatro estrelas), atribuída pela Charity Navigator.

É uma proponente da mudança individual como forma de alcançar uma mudança global. Mas o mundo precisa de grandes ações. O seu programa Roots & Shoots é uma forma de massificar a mudança individual a uma escala que realmente faça a diferença?
Sim, é parte desse processo. As mudanças estão a acontecer. É impressionante o que tem sido alcançado; jovens de diferentes partes do mundo a reunirem-se virtualmente, a perceberem que muito mais importante do que a cor da pele, cultura, língua e religião é o facto de sermos todos seres humanos. Aliás, uma das coisas de que falamos nesses grupos é de discriminação, e vários disseram que aqui, nestas reuniões virtuais com gente de todo o mundo, foi a primeira vez que não sentiram qualquer discriminação. Fiquei chocada ao descobrir que as pessoas da Europa de Leste se sentem discriminadas em Inglaterra. Tenho três netos, e são todos o que se chama “cor de café” (a mãe deles é da Tanzânia), e eu nunca sonhei que se sentiriam discriminados neste país, mas perguntei-lhes e eles disseram: “Oh, sim, andamos numa escola internacional, mas sentimos a discriminação.” Temos de resolver isto.

Os jovens parecem estar muito mais preocupados e a exigir mudanças do que qualquer geração anterior. As pessoas responsáveis estão finalmente a ouvir o apelo?
Há um grande problema com a forma como fazem as exigências. Os adultos que estão no poder não gostam de ficar debaixo do holofote a serem pressionados pelos jovens. Acabam por prometer mudanças e, depois, não fazem nada. Digo sempre às crianças para fazerem o que eu faço: contem histórias de um modo que abram um caminho para o coração de quem está a ouvir. Sim, podem ser feitas regras e leis e regulações, mas há sempre maneira de contorná-las. Agora, se conseguirem levar uma pessoa a mudar por dentro… Vou dar um exemplo com um episódio que se passou comigo. Apanhei um táxi para o aeroporto de Heathrow. Estava cansadíssima e só queria dormitar, mas o taxista reconheceu-me e começou a falar comigo. “A senhora é igual à minha irmã, e não tenho paciência para gente assim, que só se preocupa com os animais e não quer saber das pessoas.” Passei, então, para o banco do pendura e comecei a falar-lhe dos nossos projetos, do TACARE, como trabalhávamos com crianças. Descrevi-lhe como os chimpanzés eram parecidos connosco, contei-lhe tudo de que me lembrei. Ele continuou mal-humorado. Quando chegámos ao aeroporto, eu não tinha dinheiro trocado e ele não tinha troco. Disse-lhe então para entregar as 10 libras que ele me devia à irmã, para ajudá-la o trabalho dela no abrigo de animais. Quando regressei a casa, três semanas mais tarde, tinha no correio uma carta da irmã. “Primeiro”, dizia a carta, “quero agradecer-lhe o donativo. Segundo, o que a senhora fez ao meu irmão? Ele já veio por três vezes ajudar-me no abrigo! Está diferente!” Não é uma grande história? É uma das minhas favoritas de sempre.

Falou há uns minutos da pandemia. Além da morte e do medo, a Covid-19 também nos deu um vislumbre do que pode ser um futuro mais limpo. Essa imagem pode ajudar a impulsionar a mudança de que precisamos?
Acredito que sim. Pela primeira vez, milhões e milhões de pessoas nas grandes cidades tiveram o luxo de respirar ar puro e de ver estrelas a brilhar, e que a névoa de poluição não deixava ver antes. Neste momento, querem voltar aos velhos tempos, pelo que a mudança não vai acontecer rapidamente, mas quando se recordarem disto, e os filhos perceberem o que estão a perder, vão querer tornar o mundo melhor. E as catástrofes provocadas pelas alterações climáticas, como fogos florestais, furacões e inundações… Quero dizer, o Bangladesh está a ser consumido por inundações! Literalmente. É terrível. Mas, sim, as pessoas vão querer mudar. Em alguns países, os governos estão a ser forçados a mudar; noutros, nos autocráticos, a mudança só acontecerá quando as crianças e os jovens de hoje chegarem ao poder. Sei que as coisas vão alterar-se, porque senão é o nosso fim. Só precisamos de aguardar, com esperança de que ainda tenhamos tempo. Não temos muito. A janela está a fechar-se. A nossa oportunidade para agir é agora. É encorajador saber que tantos países se comprometeram a mudar, no Acordo de Paris. Porém, nenhum está a cumprir os seus compromissos…

Vive para conhecer gente nova e conversar sobre animais, conservação da Natureza e ambiente. A pandemia roubou-lhe isso: está há mais de um ano confinada na sua casa de infância. Foi um ano muito difícil para si?
Tem sido o ano mais agitado e mais exaustivo de toda a minha vida! Todos me dizem: “Oh, deve ser tão tranquilo estar em casa o dia todo, sem ter de viajar…” Não! Viajar e dar palestras à volta do mundo, 300 dias por ano, era muito menos cansativo do que isto. Muito menos! Agora estou aqui a falar consigo, à tarde vou participar numa conferência virtual de uma grande universidade, à noite tenho outra palestra… Tem sido assim todos os dias. Não tenho folgas nem sábados nem domingos. E até no meu aniversário e no Natal, passei a maior parte do dia a trabalhar. O lado positivo – e há sempre um lado positivo, sabe? – é que neste ano alcancei… eu achava que eram mais algumas centenas de milhares de pessoas do que num ano normal, mas o meu diretor de comunicação, nos EUA, corrigiu-me: “Jane, não: alcançaste milhões de pessoas a mais, e em muitos mais países, do que era habitual.” Consegui falar com muito mais gente, ainda que virtualmente, pelo Zoom, e algumas delas começaram a chorar e diziam-me: “Nunca pensei que algum dia tivesse a oportunidade de falar consigo. E mesmo que não esteja aqui, consigo vê-la, ver o seu sorriso.” Portanto… Sim, este ano teve coisas boas.

O mundo está hoje melhor do que imaginou que estaria, quando partiu para África, há 60 anos?
Não imaginei como estaria. Ninguém poderia imaginar a situação em que estamos agora. É demasiado horripilante. Está tudo lá, naquele livro, o 1984. Foi tudo previsto, mas eu nunca pensei nisso. Estava totalmente dedicada a descobrir tudo o que podia sobre os chimpanzés e a tentar mudar a atitude das pessoas em relação aos animais. Mudanças… Bom, a Ciência mudou, embora não o suficiente. Os jovens mudaram. Hoje, amam os animais da maneira certa. Em setembro, vai sair um livro meu, a que chamei O Livro da Esperança, porque… Sabe, se não tivermos esperança, desistimos, não é? Se não acreditarmos que vamos fazer a diferença, porquê fazer alguma coisa? Mas a esperança é contagiosa. Quando um jovem de 16 anos está completamente deprimido, não encontra nada de positivo na sua vida… Bom, o que há de errado à tua volta? Estás preocupado com essa ribeira contaminada, a mesma ribeira onde o teu pai costumava pescar? Então, junta-te aos teus amigos e tenta resolver essa situação. E outros jovens olharão para o teu exemplo e farão o mesmo com as ribeiras deles. E depois a água começa a chegar mais limpa aos rios e, depois, aos oceanos. É isso que nos dá esperança, que nos inspira e incentiva a continuar a trabalhar e a fazer mais e mais. E caso não funcione, não podemos desistir. Só temos de voltar a tentar.

Uma vida extraordinária

3 de abril de 1934
Cinco anos antes de começar a II Guerra Mundial, nasce Valerie Jane Morris-Goodall, em Londres, filha de Mortimer, um engenheiro, e de Vanne, uma escritora. Quando tem um ano, o pai dá-lhe um chimpanzé de peluche, que a criança chama Jubilee e leva para todo o lado.

1944
Jane lê Tarzan e decide que quer ir para África. É inseparável do seu cão Rusty, que lhe mostra como os animais são inteligentes e têm emoções.

1956
Após a guerra, os pais divorciam-se. Sem dinheiro para a universidade, Jane torna-se secretária em Londres. Quando uma amiga a convida para a visitar no Quénia, volta para a casa de família, em Bournemouth, e torna-se empregada de mesa, para pagar a viagem.

1957
No Quénia, Jane conhece o paleoantropólogo Louis Leakey, que se impressiona com os conhecimentos sobre animais da jovem e a contrata como assistente.

14 de julho de 1960
Com 26 anos, Jane chega à reserva de Gombe, na atual Tanzânia, para estudar chimpanzés. A mãe acompanha-a, exigência das autoridades coloniais britânicas para a deixarem trabalhar.

1961
Um chimpanzé que ela batizara de David Greybeard aceita-a no seu grupo. Faz então as descobertas mais extraordinárias sobre chimpanzés: que comem carne e constroem ferramentas. O seu mentor, Leakey, diz que, a partir daquele momento, “é necessário redefinir a ferramenta, redefinir o Homem ou aceitar os chimpanzés como humanos”.

1962
Jane regressa a Londres para licenciar-se e tirar um doutoramento em Etologia. No ano seguinte, a National Geographic publica um artigo de capa com o seu trabalho e depois um documentário, tornando-a famosa em todo o mundo.

1964
Casa-se com Hugo van Lawick, fotógrafo da revista. O casal tem um filho em 1967 e divorcia-se amigavelmente em 1974.

1975
Casa-se com Derek Bryceson, diretor dos parques nacionais da Tanzânia, que morrerá em 1980 de cancro.

1977
É fundado o Instituto Jane Goodall, dedicado a estudar e a proteger os chimpanzés.

1991
Jane cria o programa Roots & Shoots.

2004
Kofi Annan, secretário-geral da ONU, nomeia-a Mensageira da Paz, um dos graus honoríficos mais altos das Nações Unidas.

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