O futuro é seco: vamos mesmo ficar sem água?

Se perguntarmos a 20 pessoas quais são os grandes problemas do mundo, aqueles que não fazem sentido na era mais próspera da História, que respostas teremos? A pobreza? A fome? Sim, com certeza. Os baixos níveis de educação? As doenças? Provavelmente. As guerras? As alterações climáticas? Claro. Mas quantos se lembrarão da água, a mais primária de todas as necessidades humanas?

E, no entanto, morrem seis mil crianças por dia devido à falta de água potável ou a doenças relacionadas com a qualidade da água, como cólera, febre tifoide, hepatite A e disenteria, alerta a UNICEF. Três mil milhões de pessoas não têm sequer como lavar as mãos em casa. Em África, gastam-se 40 mil milhões de horas de trabalho só em transporte de água, tarefa quase exclusiva das mulheres (e, portanto, uma das razões da desigualdade de oportunidades). Em 2017, segundo um relatório das Nações Unidas, a água foi causa determinante de conflitos violentos em pelo menos 45 países. As guerras do Darfur e da Síria foram em grande parte provocadas por secas históricas.

O problema na agricultura Segundo um estudo da Gulbenkian, 71% dos agricultores não têm sequer contador de água, pelo que não fazem ideia de quanto gastam

O acesso generalizado a água limpa e a saneamento básico é o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 6, dos 17 que pertencem à Agenda das Nações Unidas para 2030, mas António Guterres já avisou que as coisas não estão a correr bem. “O objetivo está fora dos carris”, disse o secretário-geral da ONU, em julho passado. “A água encontra-se ameaçada quer pelo aumento da procura quer pela degradação das fontes e ecossistemas, devido às alterações climáticas, poluição e outras ameaças. A crise de água e saneamento exige uma resposta holística, sistémica e multilateral.”

É uma luta cada vez mais difícil de travar. O consumo tem crescido ao dobro da velocidade da população mundial. Enquanto isto, os cenários climáticos apontam para um aumento de secas prolongadas em regiões do mundo que já hoje estão em stresse hídrico. As Nações Unidas estimam que, até ao final desta década, 700 milhões de pessoas possam vir a ser obrigadas a migrar devido à falta de água.

Morrem seis mil crianças por dia por não terem o que beber ou de doenças provocadas pela má qualidade da água

A quantidade de água no planeta será a mesma, obviamente. O aquecimento global não quebra o ciclo, mas reforça assimetrias regionais. Na Europa, por exemplo, deverá haver uma diminuição da precipitação no Sul e um aumento no Norte (mais chuva, no entanto, não equivale a mais água disponível: fenómenos extremos que dão origem a inundações também resultam em danos nos sistemas de abastecimento e na contaminação da água potável).

Portugal, que já hoje tem carências em grande parte do território, encontra-se precisamente entre os países europeus em que o problema mais se vai acentuar. De acordo com a organização não governamental World Resources Institute, o País apresenta já um “alto stresse” hídrico, com gastos entre 40% e 80% da água disponível, e os cenários climáticos apontam para diminuições significativas de precipitação no Alentejo e no Algarve. Mas o consumo nacional aumentou 30%, entre 1995 e 2017. Continuamos a fiar-nos que a água cai do céu.

Como poupar sem saber o que se gasta?
Em Portugal, a maior parte da água é usada na agricultura: 75%, calcula o estudo O Uso da Água em Portugal, encomendado pela Fundação Calouste Gulbenkian ao C-Lab – The Consumer Intelligence Lab, apresentado no mês passado. A proporção está muito acima da média da União Europeia (24%), mas em linha com a média mundial (69%) e outros países do Sul da Europa, como Espanha e Grécia (79% e 81%).
No entanto, o setor tem passado pelos pingos da chuva, com as campanhas de sensibilização a concentrarem-se nas torneiras dos consumidores. “Um trabalho sério tem de ir muito além do consumo doméstico, que é o que tem sido feito”, aponta Filipa Dias, do Programa Gulbenkian Desenvolvimento Sustentável. “É urgente antecipar cenários de risco. A ameaça da crise da água é das mais elevadas, e a pressão é ainda maior devido às alterações climáticas.”

ENTREVISTA A CATARINA DE ALBUQUERQUE: “A água contribui para o empoderamento das mulheres”

Muitos agricultores já se preocupam em poupar. Dos mais de 500 inquiridos no estudo da Gulbenkian, 65% praticam rega gota a gota, pelo menos em parte das suas explorações. Por outro lado, 71% não têm sequer contador. E como se pode poupar sem se saber o que se gasta?, questiona Filipa Saldanha. “O primeiro passo é medir o consumo, e isso ainda não é a regra. O segundo é apostar numa rega mais eficiente, usar apenas a quantidade necessária para a planta. Finalmente, aproveitar a tecnologia disponível, adequando as soluções ao perfil de cada produtor.”

Os resultados são surpreendentes, diz Filipa Dias, do C-Lab, que coordenou o projeto. “O agricultor, na dúvida, rega sempre a mais. Quando começa a medir e introduz as sondas [de medição de humidade no solo], passa a gastar menos 20% de água.”

Sete dicas para poupar água em casa

Sugestões de Catarina Barreiros, autora do site antidesperdício Do Zero

  • Guardar em recipientes a água do banho durante o tempo em que ainda está a aquecer para usar mais tarde na cozinha, no autoclismo, na rega, nas lavagens de casa…
  • Quem tiver hortas deve regar apenas fora das horas de calor, para evitar as perdas por evaporação. E se tiver controladores de humidade para pôr na terra, que custam €2 ou €3, melhor
  • Lavar sempre a loiça na máquina. Um minuto de lavagem à mão gasta dez litros, tanto como um ciclo inteiro na máquina
  • O autoclismo gasta cinco a 12 litros por descarga. Porque não aproveitar a água do banho? Os banhos da minha filha bebé dão para duas descargas
  • A água do desumidificador ou da máquina de secar pode ter usos menos nobres, como no ferro de engomar
  • Aproveitar a água da cozedura de leguminosas ou vegetais para fazer sopa
  • Fazer uma alimentação de base vegetal, que tem uma menor pegada hídrica. Mas atenção: o cacau consome muita água. Os dois alimentos com maior pegada hídrica são a carne de vaca e o chocolate

O setor não se preocupa muito com poupanças, porque a água é uma despesa residual, continua a investigadora, lembrando que os grandes custos são com pesticidas e herbicidas, além da energia. Mas está tudo ligado. “Se o agricultor fizer uma rega eficiente, com os fitofármacos a serem distribuídos pela água, gasta menos fitofármacos.” No caso da energia, as poupanças podem atingir os 30 por cento. Há um investimento inicial, sim, embora relativamente pequeno e de rápido retorno. Um agricultor algarvio que serviu de caso de estudo garante que recuperou o capital aplicado num ano.

A revolução agrícola
João Coimbra, produtor de milho na Golegã, começou a poupar água nos anos 90, porque não queria que os filhos herdassem terra seca. Deixou de praticar agricultura de alagamento, em que a água é distribuída pelos campos pela força da gravidade, e logo aí cortou o consumo para metade. Mas nessa altura a energia começou a aumentar de preço, encarecendo a utilização de aspersores. “Motores, máquinas… Muita gente recusava-se a mudar para este modelo por causa disso”, recorda.

Um trabalho a tempo inteiro Em África, gastam-se 40 mil milhões de horas só em transporte de água, tarefa quase exclusiva das mulheres (Foto: Christopher Furlong/Getty Images)

A poupança de energia foi a sua motivação para gastar (ainda) menos água. “Atualmente, pratico agricultura de precisão, adaptando a água ao que a planta precisa. As sondas de humidade, junto às raízes, dão informação constante; esses dados são trabalhados por um sistema de Inteligência Artificial que calcula a água necessária. Regamos com a certeza de que estamos a dar a quantidade certa à planta.”

Nos anos 90, João Coimbra precisava de 1,25 mil litros para produzir um quilo de milho. Hoje, bastam-lhe 382 litros

A diferença é abissal. “A rega em excesso também não é produtiva. Antigamente, com 10 mil metros cúbicos, produzia oito toneladas de milho. Agora, com 6 500 metros cúbicos, produzo 17 toneladas”, garante João Coimbra, que foi objeto de análise no estudo da Gulbenkian/C-Lab. Ou seja, para produzir um quilo de milho, precisava de 1,25 mil litros – hoje bastam-me 382 litros. Um rendimento quatro vezes superior, e que ainda pode ter margem para melhorar. “Continuamos a fazer testes para reduzir o consumo ao máximo.”

É urgente incentivar outros agricultores a fazer o mesmo caminho, defende Filipa Dias. A certificação, para ajudar a distinguir comportamentos sustentáveis, é uma das saídas. “Os agricultores não valorizam a água porque não têm de demonstrar nada. Há vontade no setor, mas é preciso apoiar e definir prazos, numa estratégia sustentada para as próximas décadas.” Filipa Saldanha, da Gulbenkian, concorda. “Oitenta e cinco por cento dos produtores não têm de cumprir qualquer requisito sobre a água. A grande distribuição devia identificar e recompensar as melhores práticas.”

Afonso do Ó, consultor em água e alimentação da organização não governamental do ambiente ANP/WWF, admite que a agricultura está cada vez mais eficiente. Mas acrescenta que isso não chega. “Há situações e sistemas em que não podemos expandir mais o regadio.” Em vez disso, “continuamos a reforçar a oferta”. Chumbos como o da exploração de abacates numa propriedade de Lagos, no Algarve, que, no mês passado, teve parecer negativo da Agência Portuguesa do Ambiente devido ao volume necessário de água, parecem ser movidos mais por mediatismo, devido à contestação pública contra o projeto, do que por uma estratégia sustentada, acusa. “Os laranjais consomem o mesmo, o milho ainda mais. O abacate não pode ser o demónio no Algarve, como o olival no Alentejo ou os eucaliptos no Centro do País. É preciso medir o risco em cada caso, e gerir a partir daí.”

Dinheiro por água abaixo
A agricultura é o setor que mais água consome, mas está longe de ser o único em que há desperdício: a rede de distribuição tem perdas médias de quase um terço do total. E há concelhos do País onde praticamente quatro em cada cinco litros desaparecem algures entre a fonte e o destino, em fugas e desvios de água. Em Macedo de Cavaleiros, “evapora-se” 79,7 por cento. Um estudo recente do Banco Mundial, que analisou seis países europeus, pôs Portugal no primeiro lugar da água não faturada, com 30% de perdas médias (a Hungria surge em segundo, com 25%; Áustria, Suécia e França têm 20%, e a Dinamarca ligeiramente menos de 10%).
A questão das fugas, devido acima de tudo a infraestruturas antigas e danificadas, é muito heterogénea. Normalmente, os concelhos com menor densidade populacional (e menos receitas) têm mais dificuldade em investir na substituição de condutas. “É uma assimetria brutal”, sublinha Rui Godinho, presidente da Associação Portuguesa de Distribuição e Drenagem de Águas (APDA) e ex-administrador da EPAL (empresa que reduziu as perdas em Lisboa de 25%, na década de 2000 a 2010, para os atuais 10,1%). “Dois terços dos sistemas de água e saneamento têm menos de 20 mil habitantes. Lembro-me de um caso no Alandroal: era preciso levar água a uma aldeia, mas isso significava instalar 20 quilómetros de canalizações.” Uma das soluções é a agremiação de empresas municipais, para ganharem escala, propõe.

Nem sempre é necessário um investimento massivo na substituição de condutas. “É possível reduzir rapidamente as perdas e sem gastar muito dinheiro”, garante Pedro Perdigão, CEO do grupo Indaqua, responsável pela distribuição nos três concelhos com menores perdas do País: Vila do Conde (9,4%), Santo Tirso e Trofa (10%). Nos sistemas que gere, a empresa instalou sensores que monitorizam os caudais e os fluxos 24 horas por dia e comunicam os dados a uma aplicação de Inteligência Artificial, que deteta situações anormais. Equipas de intervenção seguem, então, o mais depressa possível para o local.

“Em Matosinhos, gastámos um milhão de euros em colocação de sensores, equipamentos de gestão de pressão e fluxo, e geofones. Para este setor, é um pequeno investimento que compensa rapidamente. Há concelhos em que o que perdem daria para abastecer a sua população durante cinco meses.” É literalmente dinheiro a ir por água abaixo. A situação do Algarve, onde as águas subterrâneas começam a ficar contaminadas pela subida do nível do mar, podia ser resolvida, desta forma, “com €5 ou €10 milhões”; em vez disso, “já se fala em dessalinizadoras e em novas barragens que custam dez vezes mais”.

O futuro é seco
Neste momento, dois terços do País já têm problemas, diz Rui Godinho, da APDA. “Devemos estar preocupados, e é preciso agir. Ainda não entrámos em rutura, não estamos em situação de catástrofe, mas as perspetivas não são animadoras. As barragens do Sado, por exemplo, já não têm água suficiente para fazer descargas que controlem a salinização dos campos de arroz.” É urgente garantir a segurança hídrica, através de um conjunto de medidas estruturais: construir as barragens em certas regiões para assegurar o armazenamento interanual para os anos em que não chove, “que vão ser cada vez mais” (o representante do setor aponta a de Girabolhos, no Mondego, e a do Alvito, no Ocreza, ambas canceladas); tornar os aquíferos “reservas estratégicas nacionais”, impedindo a captação sem licença, e reutilizar as águas residuais, tratadas, “para fins de segunda linha, como regas e lavagens das vias públicas.

Em média, 30% da água municipal perde-se devido a fugas nas canalizações. Mas alguns municípios aproximam-se dos 80%

José Furtado, presidente da Águas de Portugal, diz que se vive atualmente um momento de definição, tal como aconteceu nos anos 90, quando se revolucionou a distribuição da água. “Há 25 anos, tínhamos 300 estruturas de serviços municipalizados e os nossos padrões não eram bons. Hoje, estamos acima da média europeia na qualidade e no abastecimento público de água e saneamento. Os novos desafios passam por tornarmo-nos mais eficientes e por reforçar a resiliência face às alterações climáticas, designadamente no Alentejo e no Algarve.”

A economia circular e a descarbonização do setor fazem parte desse trajeto – até porque a Águas de Portugal é o maior consumidor público de energia. “Temos um plano ambicioso de valorização das lamas na agricultura [como fertilizante] e vamos atingir nesta década a neutralidade energética, reduzindo os consumos e aumentando a produção de energia renovável, através de biogás, mini-hídricas e parques fotovoltaicos e eólicos.”

Já não resta muito tempo para nos precavermos. Há estudos que preveem secas de oito a 15 anos seguidos na Península Ibérica, no final deste século. Visto do futuro, Portugal de hoje vai parecer um oásis.

Vai ser muito pior Há modelos climáticos que apontam para secas em Portugal e Espanha que podem chegar aos 15 anos no fim deste século

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