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Estar em mim

Continua a não ser fácil falar-se de ansiedade, depressão, obsessão, toxicodependência, compulsão, fomos convencidos de maneira mais ou menos subliminar de que sofrer de doença psiquiátrica é sinal de fraqueza

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Azar de principiante

Passei a adolescência a requisitar livros da biblioteca e a copiar à mão os romances de que mais gostava, conheço-os intimamente

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O homem em queda

Todos nos lembramos de como parámos perante a notícia que irmanou a Humanidade numa desacertada memória coletiva. Parecia importante sabermos o que estávamos a fazer àquela hora. Como se precisássemos de um álibi para nos inocentarmos

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O Ervilha de Setúbal ou Em busca do sabor perdido

Gosto de guardar as memórias dos que amo. Acarinho-ascomo se fossem minhas, talvez acredite que os meus amores se tornem mais meus se guardar pedaços dos seus passados

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O avô António e um restaurante de beira de estrada

Até eu, com pouco mais de 12 anos, percebi de imediato que a nossa família não cabia ali. Mas não estando em condições de escolher, os meus pais agradeceram o facto de o senhorio não exigir caução nem fiador, e assinaram o contrato de arrendamento nessa mesma tarde, Uma casa é uma casa, disseram como se assim pudessem esconjurar os quase dois anos que vivêramos, enquanto retornados, num quarto do Hotel Paris

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Coral

Arrependo-me do verniz que escolhi para as unhas, Torna as mãos mais jovens e dá-nos outro ânimo, é uma cor de verão, aconselhou-me a Carla, a manicura, enquanto desenroscava a tampa do frasco do verniz para me mostrar a pasta coral pegajosamente sintética nele guardada, É das cores com mais saída em Nova Iorque, de certeza que vai gostar

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De mãos dadas

Morrer de mãos dadas, como se a fotografia dos jovens apaixonados que todos merecemos ter sido caísse ao chão e nos matasse docemente

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Bruscamente, neste verão

A praia permite-nos uma vizinhança e uma proximidade há muito condenada em outros espaços. Amontoamo-nos, semidespidos, descompostos, como se as nossas vidas não fossem muito diferentes umas das outras

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Vieram de descapotável?

Ainda sei de cor o tamanho das mãos dele, a sua mão grande e elegante sobre o meu ombro na fotografia que nos tiraram na minha primeira comunhão, gestos parados para sempre, e o breve encolher de ombros que denunciava contrariedade, o entortar a cabeça quando tentava decifrar um qualquer pequeno mistério, o meu pai morreu e quase me espanto que lhe tenhamos sobrevivido assim

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Se tens asas

Éramos todos tão novos que ainda não nos tinha sido dado pensar que as aves não desaprenderam a viver sem nós e nenhum cativeiro, por mais amável que seja, justifica que as façamos nascer e crescer com um teto a fazer de céu

Prima
A Nossa PRIMA

As figuras da PRIMA 12

Está aí uma nova PRIMA e o seu habitual desfile de figuras com muito para contar. Descubra quem são e o que trazem à revista nesta fotogaleria

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Um berlinde a rolar ou um mundo que perdeu a órbita

A Silvana fumava e pedia cerveja no café do Bento, tratando os homens de igual para igual, tenho a certeza de que as outras mulheres a invejavam. Nunca saía à rua sem a sombra azul nas pálpebras, dava-me os bons-dias da varanda, uma simpatia sempre alegre, a casa dela enchia-se de gente em festa

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A memória das pequenas coisas

23 ou 28? Divertimo-nos tantas vezes a inventar justificações para o número, como é possível que não me lembre de nenhuma delas? Era 23 ou 28? Esta dúvida cria folga num mecanismo dentro de mim de que não sei o nome. Tento controlar o sobressalto. Avanço. Sei que ele cheirava a relva. Que lhe disse, como se perguntasse, Estiveste deitado no jardim. Que ele me segurou o pescoço com a mão esquerda

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Dois minutos da vida de uma adolescente ou o tempo escangalhado

Os homens que se cruzassem connosco, por mais que aguçassem o pensamento com desejos inomináveis e semicerrassem sobre nós os olhos, não conseguiriam deter o ímpeto de cinco adolescentes, o ano letivo terminava dali a umas semanas, andávamos às cavalitas do futuro

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Um sítio sem linguagem nem ruas

Procuro o romance da Virginia Woolf nos caixotes de livros que trouxe de minha casa. Muitos desses caixotes continuam fechados, aguardando espaço nas estantes que estou a improvisar na parede do fundo do último andar. Já despejei alguns livros de forma baralhada nas prateleiras de baixo. Isto angustia-me. Vivo cada vez mais provisoriamente, quase me ouço dizer

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Foto #3: Molduras

Não é de agora que a minha mãe não sabe quem eles são. Encontrei o quadro no fundo de uma arca, no início dos anos 80, quando entrei à socapa na casa dos meus avós, que estava para obras, depois de ter sido vendida a um emigrante francês. Já então a minha mãe se interrogou, Como é que esqueci quem são estes? Haviam passado mais de duas décadas desde a última vez que, juntas, a minha mãe, a minha avó e a minha tia se haviam visto refletidas no vidro do quadro

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A conduzir

Da casa dos meus pais até ao mar são pouco mais de quinze minutos a pé, mas nessa altura ninguém calcorreava a Rua da Torre de uma ponta à outra. Nem a rapariga destemida que eu fui se aventurava a tanto. Mais do que malfeitores desta vida, receava o cemitério que fica a meio do trajeto. Também receava que passasse alguém que eu conhecesse e que ao ver-me caminhar pela estreita berma parasse o carro, O que andas aqui a fazer?

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A Cila já não mora aqui

A mudança trazia também a Natália, da casa da esquina, preocupada, Quem virá para cá?, sempre fomos os mesmos, os seus pais foram os últimos a chegar, parece que foi ontem e já passaram mais de 30 anos, a menina ainda se lembra? (em mais lado algum sou ainda a menina que fui)

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A vida é despropositada

As crianças inventam guerras, quando os seus humores destrambelham. Não poucas vezes, os adultos cedem igualmente a tão perigosa estratégia de regulação de humor. Prejudicar os nossos interesses para contrariar o inimigo pode não nos dar a vitória, mas torna-nos vítimas, e a vitimização é uma poderosa arma neste tipo de guerra

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Esperar

Passava a noite acordada, à espera do aviso sonoro do chat do Yahoo. Ainda hoje me arrepio se o ouço. Insone, tomada de uma febre juvenil, punha corretor de olheiras, testava que roupa ficava melhor na câmara, tinha atenção à iluminação e ao cenário como se fosse entrar num filme

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Concerto

Em Luanda muda--se de ano no pico do calor. Organizavam--se festas de passagem de ano em todo o lado, mas as que a minha irmã e eu mais invejávamos eram as do Clube do nosso bairro. Dias antes, começava a grande azáfama, enfeitavam--se os muros do quintal com folhas de palmeira, cruzava-se a chapa ondulada com fios de luzes coloridas e serpentinas