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Meia-noite, no jardim do Bem e do Mal

Mantive-me calada a maior parte do tempo e subitamente, Queres que te ofereça o meu colar?, perguntou-me a Adília Lopes, levando a mão quase infantil às contas do colar de madeira que trazia

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Parabéns, Shane

Ele sabia bem dessa outra dimensão. Os pais haviam-no iniciado no consumo de drogas ainda ele não tinha dez anos, Não tive escolha, declarava sem amargura, Vivi o que tive de viver. Aprendi com o Shane que tudo se pode contar. O absurdamente trágico e o desprezível banal. As palavras são o que nos resta para tentarmos tornar compreensível aquilo que não o é

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O deus das pequenas coisas (ca. 13:30-14:30)

Tive educação católica, fiz a primeira comunhão, cheguei a dar catequese, mas a fé em Deus de que falo não me foi ensinada pela religião católica ou por outra, e nada tem que ver com a fé por que se continua a matar todos os dias. Resulta da intimidade com uma ideia de Bem que me faz sentir não estar só nas decisões que tomo, nos falhanços em que tropeço, nos pequenos triunfos que calham acontecer-me

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Sonhei, a noite passada

Eu continuei a crescer, continuamos sempre a crescer, mesmo quando o corpo para e começamos a enrodilhar por dentro. Gostava de acreditar que foram as palavras da Nóemia e da Daphne du Maurier que me guiaram para o homem bom com quem me casei, mas hoje sei que nas coisas do amor é mais a sorte doque a lucidez que comanda

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Teremos sempre Veneza

Quando eu me criei nem frigorífico nem fogão, nem água nem luz nas casas, na maioria só frio e fome, fome e frio. Graças a deus, na minha nunca nos faltou o que comer e o lar estava sempre aceso, mas houve anos com tanta fome na aldeia que o meu pai abria o celeiro para que os mais necessitados fossem lá buscar alimento. O meu pai era tão bom para os de fora quanto mau para a família, chamavam-lhe o pai dos pobres

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Desconhecimento do céu

Tentara fazer amigos alemães fora da residência, mas desistira, não é simples ser-se estrangeiro. Na verdade, os amigos não se procuram, acontecem, como qualquer outro milagre. Naquele domingo, uma opressora cor de chumbo entristecia a cidade, por igual. Considerando as várias hipóteses de me entreter, decidi ir a Nuremberga

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Estar em mim

Continua a não ser fácil falar-se de ansiedade, depressão, obsessão, toxicodependência, compulsão, fomos convencidos de maneira mais ou menos subliminar de que sofrer de doença psiquiátrica é sinal de fraqueza

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Azar de principiante

Passei a adolescência a requisitar livros da biblioteca e a copiar à mão os romances de que mais gostava, conheço-os intimamente

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O homem em queda

Todos nos lembramos de como parámos perante a notícia que irmanou a Humanidade numa desacertada memória coletiva. Parecia importante sabermos o que estávamos a fazer àquela hora. Como se precisássemos de um álibi para nos inocentarmos

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O Ervilha de Setúbal ou Em busca do sabor perdido

Gosto de guardar as memórias dos que amo. Acarinho-ascomo se fossem minhas, talvez acredite que os meus amores se tornem mais meus se guardar pedaços dos seus passados

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O avô António e um restaurante de beira de estrada

Até eu, com pouco mais de 12 anos, percebi de imediato que a nossa família não cabia ali. Mas não estando em condições de escolher, os meus pais agradeceram o facto de o senhorio não exigir caução nem fiador, e assinaram o contrato de arrendamento nessa mesma tarde, Uma casa é uma casa, disseram como se assim pudessem esconjurar os quase dois anos que vivêramos, enquanto retornados, num quarto do Hotel Paris

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Coral

Arrependo-me do verniz que escolhi para as unhas, Torna as mãos mais jovens e dá-nos outro ânimo, é uma cor de verão, aconselhou-me a Carla, a manicura, enquanto desenroscava a tampa do frasco do verniz para me mostrar a pasta coral pegajosamente sintética nele guardada, É das cores com mais saída em Nova Iorque, de certeza que vai gostar

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De mãos dadas

Morrer de mãos dadas, como se a fotografia dos jovens apaixonados que todos merecemos ter sido caísse ao chão e nos matasse docemente

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Bruscamente, neste verão

A praia permite-nos uma vizinhança e uma proximidade há muito condenada em outros espaços. Amontoamo-nos, semidespidos, descompostos, como se as nossas vidas não fossem muito diferentes umas das outras

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Vieram de descapotável?

Ainda sei de cor o tamanho das mãos dele, a sua mão grande e elegante sobre o meu ombro na fotografia que nos tiraram na minha primeira comunhão, gestos parados para sempre, e o breve encolher de ombros que denunciava contrariedade, o entortar a cabeça quando tentava decifrar um qualquer pequeno mistério, o meu pai morreu e quase me espanto que lhe tenhamos sobrevivido assim

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Se tens asas

Éramos todos tão novos que ainda não nos tinha sido dado pensar que as aves não desaprenderam a viver sem nós e nenhum cativeiro, por mais amável que seja, justifica que as façamos nascer e crescer com um teto a fazer de céu

Prima
A Nossa PRIMA

As figuras da PRIMA 12

Está aí uma nova PRIMA e o seu habitual desfile de figuras com muito para contar. Descubra quem são e o que trazem à revista nesta fotogaleria

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Um berlinde a rolar ou um mundo que perdeu a órbita

A Silvana fumava e pedia cerveja no café do Bento, tratando os homens de igual para igual, tenho a certeza de que as outras mulheres a invejavam. Nunca saía à rua sem a sombra azul nas pálpebras, dava-me os bons-dias da varanda, uma simpatia sempre alegre, a casa dela enchia-se de gente em festa

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A memória das pequenas coisas

23 ou 28? Divertimo-nos tantas vezes a inventar justificações para o número, como é possível que não me lembre de nenhuma delas? Era 23 ou 28? Esta dúvida cria folga num mecanismo dentro de mim de que não sei o nome. Tento controlar o sobressalto. Avanço. Sei que ele cheirava a relva. Que lhe disse, como se perguntasse, Estiveste deitado no jardim. Que ele me segurou o pescoço com a mão esquerda

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Dois minutos da vida de uma adolescente ou o tempo escangalhado

Os homens que se cruzassem connosco, por mais que aguçassem o pensamento com desejos inomináveis e semicerrassem sobre nós os olhos, não conseguiriam deter o ímpeto de cinco adolescentes, o ano letivo terminava dali a umas semanas, andávamos às cavalitas do futuro

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Um sítio sem linguagem nem ruas

Procuro o romance da Virginia Woolf nos caixotes de livros que trouxe de minha casa. Muitos desses caixotes continuam fechados, aguardando espaço nas estantes que estou a improvisar na parede do fundo do último andar. Já despejei alguns livros de forma baralhada nas prateleiras de baixo. Isto angustia-me. Vivo cada vez mais provisoriamente, quase me ouço dizer