Crónicas
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As mulheres e os homens

Será que os nossos filhos vão seguir as pisadas dos pais? Ou vão ser uns meninos da mamã, a fumar à mesa enquanto auscultam nos telemóveis a cotação das bitcoins (...)?

Autobiografia Não Autorizada
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A memória das pequenas coisas

23 ou 28? Divertimo-nos tantas vezes a inventar justificações para o número, como é possível que não me lembre de nenhuma delas? Era 23 ou 28? Esta dúvida cria folga num mecanismo dentro de mim de que não sei o nome. Tento controlar o sobressalto. Avanço. Sei que ele cheirava a relva. Que lhe disse, como se perguntasse, Estiveste deitado no jardim. Que ele me segurou o pescoço com a mão esquerda

Boca do Inferno
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As framboesas da ira

Cabrita é o primeiro a lamentar e o primeiro a reagir. Lamenta, reage, e depois aguarda – evidenciando uma presença de espírito admirável. Evita resolver o problema, certamente com grande sacrifício pessoal, para ver até onde chega a perfídia da opinião pública

Nem Tudo É Ficção
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Cândido e salima

Grandes estórias de amor implicam sempre trágicos e dolorosos confrontos e desencontros, a subversão de regras e sistemas de pensamento. Raramente terminam bem. Esta termina. Sobretudo porque continua: à primeira filha, Cândido e Salima deram o nome da rainha portuguesa, Amélia. A partir dessa altura, em todas as gerações da família, passou a existir uma Amélia

Mapeador de Ilhas
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A parede

Certa vez, o marido atravessou a sala usando um vestido dela, batom nos lábios, rouge no rosto e, de cabeleira postiça, bateu a porta para nunca mais voltar. Levou tudo o que era retrato, moldura, encaixilhada lembrança. Não sobrou imagem de ninguém. As paredes vazias cresceram pela casa como a ela lhe crescera a pele do rosto

Boca do Inferno
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Taça dos Lambões Europeus

A UEFA, que detinha a taça da ganância, pode perder o título para 12 clubes. É dos campeonatos mais renhidos dos últimos tempos

Autobiografia Não Autorizada
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Dois minutos da vida de uma adolescente ou o tempo escangalhado

Os homens que se cruzassem connosco, por mais que aguçassem o pensamento com desejos inomináveis e semicerrassem sobre nós os olhos, não conseguiriam deter o ímpeto de cinco adolescentes, o ano letivo terminava dali a umas semanas, andávamos às cavalitas do futuro

Crónicas
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Sapato de fivela em Porches

Esta história foi-me contada na primeira pessoa pelo sapato, por esse sapato. Tinha sido transportado até ali na boca dum cão abandonado. Um cão de muitas raças e portanto de nenhuma

Boca do Inferno

O juiz que perdeu o juízo

De um lado, um homem que comandou o Grupo de Operações Especiais; do outro, um jurista que não acredita na existência da pandemia. Se é verdade que Magina da Silva deve ter bastante experiência de combate corpo a corpo, não deixa de ser igualmente verdadeiro que Fonseca e Castro, só por esta descrição, também parece ter levado muitas pancadas na cabeça

Nem Tudo É Ficção

Ulisses voltou para casa

Ulisses abriu o livro, a medo, e começou a ler. Quando era menino, o pai lia para ele. O pai, sentado na cama, lendo para ele, é a melhor lembrança que tem. Não apenas a melhor lembrança do pai. A melhor lembrança de toda a sua vida

Crónicas

A Quarentena da Mariquinhas

Por um vírus malfadado/ Está o mundo confinado/ Sempre em casa como a velha Mariquinhas/ Que só sonha com a data abençoada/ Em que cheguem as vacinas

Boca do Inferno

Mercúrio, Vénus, Jenga, Marte, Júpiter, Saturno, Úrano, Neptuno

A ideia de que o mundo era demasiado grande, maciço e áspero sempre me aterrorizou. Agora que se percebe que o mundo é muito delicado e frágil, julgo que fiquei com mais medo ainda. Não há maneira de o mundo me agradar – o que levo sinceramente a mal

Autobiografia Não Autorizada

Um sítio sem linguagem nem ruas

Procuro o romance da Virginia Woolf nos caixotes de livros que trouxe de minha casa. Muitos desses caixotes continuam fechados, aguardando espaço nas estantes que estou a improvisar na parede do fundo do último andar. Já despejei alguns livros de forma baralhada nas prateleiras de baixo. Isto angustia-me. Vivo cada vez mais provisoriamente, quase me ouço dizer

Boca do Inferno

Nada do que é humano me é familiar

Precisa-se: tradutor queniano branco zarolho para traduzir a lírica de Camões para suaíli

Mapeador de Ilhas

A gota

Já não restam portas nem paredes, é verdade. Mas as pessoas têm artes mágicas de se enclausurar. Somos os mais competentes carcereiros de nós mesmos

Crónicas

“Espelhos” ou a última crónica do confinamento(?)

Tenho insistido em fazer cursos online para aproveitar a oportunidade de aprender à distância, desenvolver a minha escrita e sair um pouco da bolha

Boca do Inferno

Lavagem de manto real sujo

A duquesa de Sussex decidiu integrar voluntariamente uma família cuja existência assenta na ideia de que não somos todos iguais. Uma vez instalada no palácio, a família fê-la sentir que – preparem-se – não somos todos iguais. Só posso imaginar a dor

Autobiografia Não Autorizada

Foto #3: Molduras

Não é de agora que a minha mãe não sabe quem eles são. Encontrei o quadro no fundo de uma arca, no início dos anos 80, quando entrei à socapa na casa dos meus avós, que estava para obras, depois de ter sido vendida a um emigrante francês. Já então a minha mãe se interrogou, Como é que esqueci quem são estes? Haviam passado mais de duas décadas desde a última vez que, juntas, a minha mãe, a minha avó e a minha tia se haviam visto refletidas no vidro do quadro

Crónicas

Velho eremitão

Nunca me deu para brincar, dava-me sim para ficar a olhar para as coisas e hoje em dia é igual, não entendo sequer o porquê de as pessoas se aborrecerem de estar sozinhas

Nem Tudo É Ficção

O aroma das mangas

Sento-me num banco, diante do de Malan. Abro um livro, começo a ler um romance cubano e, seja pelo romance, que me leva para um outro mundo, muito diverso do meu, seja por estar tão próximo do antigo traficante, sinto que o tempo se expande e se dilui, como sal na água. A vida de Malan é um grande ruído acontecendo sem ruído, como os rios que correm sob a superfície da Lua. Antes de exercitar-se na arte de expandir o tempo, Malan correu atrás dele

Crónicas

Confinamento (e o apaziguador transe do quotidiano)

A memória de outra rotina parece cada vez mais distante e os dias sucedem-se sem expectativas de mudança, numa espécie de torpor confortável. Aquele tipo de sonolência de quem dormiu demais