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Filipe Luís

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Editor Executivo

O programa do Marcelo

Sexto Sentido

Filipe Luís

Tiago Miranda

A chamada do Presidente para Cristina Ferreira foi populista ou popularucha? E porquê tanto escarcéu? Onde se fala de outras "indignações", como a das obras "eleitoralistas" e do PDEC - processo de destituição em curso

A Nação, ou, pelo menos aquela naçãozinha cheia de si, mas pouco representativa, da indignação profissional do facebook, agitou-se, esta semana, com o telefonema de Marcelo Rebelo de Sousa para o programa de estreia de Cristina Ferreira, na SIC. Uma das críticas mais “populares” foi a de que o País tem problemas suficientemente graves para que o Presidente se dê ao luxo de perder tempo a telefonar para um programa de televisão. (Embora isso não tenha impedido os mesmos indignados de perder tempo a criticar o telefonema presidencial… Em que ficamos?) A outra crítica, mais assertiva, foi a acusação de "populismo"

Vale a pena perder algum tempo com isto, até para tentar esclarecer a confusão que vai na cabeça das pessoas – ou denunciar a má-fé de outras.

Primeira questão: Marcelo é – ou, neste caso, foi – realmente populista? O populismo é frequentemente confundido com popularidade. Com efeito, a fronteira é ténue. Mas a diferença é crucial. Em democracia, a aceitação popular é indispensável para se atingir o poder.

O apelo à popularidade é, assim, um meio e um instrumento. Já o populismo tem na popularidade não um meio, mas um fim em si mesmo.

O populismo potencia o egoísmo de grupos ou de indivíduos, apelando para os seus instintos mais básicos. A popularidade procura congregar as pessoas para objetivos considerados positivos e de bem comum.

A popularidade é um quisto benigno que se forma pelas camadas das campanhas políticas e que se extrai pela coragem nas decisões de Governo. O populismo é um tumor maligno, que captura todo o “organismo social”, para se alimentar dele.

Popularidade é a varicela. Populismo é a varíola.

O telefonema de Marcelo, repetimos, foi um ato populista? Não tendo apelado a quaisquer instintos primários negativos; não tendo um fito político escondido – é transparente a ânsia do Presidente pela sua boa imagem junto dos portugueses; e não suscitando pulsões egoístas ou agressivas das massas contra algo ou alguém, o telefonema foi completamente inócuo. Se o quisessemos catalogar com algum adjetivo próximo do “populista", a palavra mais indicada seria… “popularucho”.

Segunda questão: este comportamento do Presidente coaduna-se com a sua dignidade de Órgão de Soberania e de representante máximo do Estado português? Todas as opiniões são aceitáveis. Nomeadamente, a de que é sua obrigação estar junto dos portugueses e que a atenção dada a um programa de grande audiência pode ser uma das formas de o fazer. Mas não vamos optar por essa tese. Pelo contrário, poderíamos dizer que este telefonema, no mínimo, banaliza a um ponto demasiado arriscado a função presidencial, tendendo a diluir os momentos da Presidência – uns mais descontraídos, outros verdadeiramente graves, vide a declaração ao País após os incêndios de 15 de outubro de 2017 – numa amálgama indiferenciada de ruído presidencial sistemático e permanente, no espaço mediático. No limite, acrescentaríamos a preocupação de que esta presença contínua pode fazer confundir a magistratura de Marcelo com um zumbido. E um zumbido não tem pontos altos nem baixos, adormece a atenção e funde-se no conjunto dos vários outputs dos restantes agentes políticos.

Terceira questão: ao telefonar para Cristina Ferreira, Marcelo abre um precedente e passa a ter a obrigação de telefonar para outros apresentadores de outros programas, mostrando equidade no tratamento dado às televisões e não favorecendo as audiências de A, B ou C? Em teoria, não necessariamente. Se Marcelo tem uma boa relação com o apresentador fulano ou com o pivô sicrano, e não conhece o do canal ao lado de parte nenhuma, é natural que fale, e tem o direito de falar com aquele e ignorar este. Aliás, ninguém se surpreenderia – e o escarcéu não teria existido – se Marcelo tivesse contactado, em direto, não a Cristina Ferreira, mas, por exemplo, algum programa do jornalista Júlio Magalhães, com quem “contracenou”, durante anos, nas “prédicas” de domingo, nos estúdios da TVI. Subjacente à presente polémica, está assim, também, o preconceito sobre a natureza do programa, considerado pela intelligentia bem pensante um produto televisivo menor e com pouca dignidade.

Dito isto, levanta-se, porém, um problema: se fosse qualquer outro “amigo” (incógnito) de Cristina a telefonar para o programa, desejando-lhe felicidades, a estação de Queluz teria colocado o telefonema no ar? É evidente que não. Ao telefonar para a apresentadora, Marcelo sabia que a estação utilizaria a sua chamada – e utilizaria a sua figura – para promoção do programa. Essa interferência objetiva na presente guerra de audiências foi um risco mal calculado pelo Presidente, que o terá menorizado, a favor de um ou dois valores que considerou mais altos: a saber, dar força a uma figura pública e televisiva que estima e garantir a atenção de uma audiência que se antevia recorde. E também não colhe a justificação de que o fez porque, há pouco tempo, havia dado uma entrevista a Manuel Luís Goucha. Quanto muito, esperaria por idêntica solicitação da parte de Cristina Ferreira – e, caso ela surgisse, aceitá-la-ia. Conclusão: não devia ter feito o que fez.

2. Com a sua habitual “manha política”, e confrontado com o programa de obras públicas anunciadas nos últimos dias, António Costa negou que elas tivessem como objetivo quaisquer ganhos eleitorais, em ano de europeias e de legislativas: “Mas como?”, contrapôs, com ar inocente, o primeiro-ministro. “Pois se nenhuma das obras anunciadas ficará pronta antes das eleições e, pelo contrário, algumas delas, que se iniciarão desde já, até vão provocar alguns incómodos...”

Vale a pena debruçarmo-nos um pouco sobre isto. Habitualmente, no final de cada legislatura, os Governos procuram encher o olho do eleitorado com um período de “política do fontanário”, ou seja, de inaugurações. Ora, no 4.º ano do seu consulado, depois de cativações e travão às quatro rodas no investimento público, a bem do controlo do défice, o que terá António Costa para inaugurar? Nada. Mesmo assim, tem a esperança de transformar um 2.º lugar do PS nas legislativas de 2015 numa maioria absoluta, em 2019. Vai brandir as famosas (embora já um pouco estafadas) “reposições de rendimentos”, o equilíbrio das contas públicas, a baixa do desemprego. E, já agora, o alegado dinamismo expresso no anúncio e, nalguns casos, no lançamento de algumas obras marcantes (embora com a limitação resultante do facto de nenhuma ficar pronta a tempo). Mas, mesmo assim, pensem comigo: com uma maioria absoluta, se ranger suficientemente os dentes, António Costa poderá, mesmo em tempo de vacas magras (e menos voadoras…) durar outros quatro anos, ou seja, até 2023. Agora façam comigo estas contas, só para pegar em três exemplos: o novo aeroporto do Montijo começa a operar em 2022. A extensão da linha de metro começa a funcionar em 2023. E os comboios encomendados chegam, e começam a circular, também, em 2023. Fora o resto. No final da legislatura, se resistir até lá, António Costa terá montes de inaugurações para fazer. E, sabe-o bem, nessa altura poderá precisar muito mais delas do que agora... Está tudo planeado ao minuto. Por isso, muitos se interrogam: “Comboios, metro, aeroporto… Porquê agora? O anúncio não podia ter sido um pouco antes?” Poder, podia. Mas não era a mesma coisa.

3. Luís Montenegro pode avançar, mais cedo do que desejaria, para um desafio à liderança de Rui Rio, no PSD. As atuais expectativas eleitorais do PSD são desanimadoras: o Grupo Parlamentar corre o risco de se ver substancialmente reduzido e, mais grave do que isso, pode sofrer uma autêntica purga, operada pelo líder social-democrata – o que, para os atuais deputados, é inaceitável. O problema imediato do PSD, e a razão primeira da sua agitação, é, portanto, o das listas eleitorais.

Resta saber se Montenegro estará disposto a sacrificar-se para garantir o emprego a um núcleo duro de antigos passistas.

Resta saber se esse sacrifício não lhe será exigido, precisamente, para continuar a garantir o apoio desses setores.

Resta saber se não haverá uma mão por detrás do arbusto – Passos Coelho.

Mas, pensando bem, resta, sobretudo, saber se, pela cabeça de Montenegro, não passa uma esperança secreta: com a economia em perda, a agitação social em alta e um verão de incêndios (que o antigo líder parlamentar do PSD não desejará mas que lhe pode ser politicamente útil), Costa pode começar a ver empalidecer a sua estrela – e ficar longe da maioria absoluta, segurando-se o PSD na casa dos 28 a 30 % - uma vitória retumbante. Montenegro afirmar-se-ia e o fantasma de Passos seria transferido do PSD (e do sono de Montenegro…) para uma futura candidatura a Belém.

A coragem é uma característica que o eleitorado aprecia. E Montenegro pode estar a pensar para além da mercearia das listas. Não é de todo mal pensado.

Filipe Luís

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