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Antigamente, os burlões tentavam enganar velhos; agora tentam enganar utilizadores que desejam saber como vão ser quando forem velhos

Ilustração: João Fazenda

Segundo os jornais, a aplicação para telemóvel que revela às pessoas a aparência que terão quando forem velhas acede aos dados privados do utilizador e vende-os. É um passo em frente na já rica História Universal da Burla: antigamente, os burlões tentavam enganar velhos; agora, tentam enganar utilizadores que desejam saber como vão ser quando forem velhos. A velhice está sempre em causa, mas os burlões conseguem apanhar os burlados cada vez mais cedo.

Quando descarrega a aplicação, o utilizador concorda em oferecer os seus dados privados. Dada a frequência com que são oferecidos, faz cada vez mais sentido que os dados se chamem dados. No entanto, é surpreendente que o fornecimento de dados privados a grandes empresas continue a gerar alarme: depois de terem oferecido os seus dados privados ao Facebook, ao Instagram, ao Twitter e à Google, os utilizadores estão agora a oferecê-los a uma outra empresa. Não sei se é possível continuar a falar em dados privados. Há anos que os dados são, no mínimo, semipúblicos. O meu telefone sabe exactamente para onde é que eu vou e a que horas. Assim que me sento no carro (e ele sabe que eu acabei de me sentar no carro), diz-me qual é o melhor caminho para o meu destino.

A Amazon sabe quais são os tipos de livros que me interessam. O YouTube sabe que vídeos é que me apetece ver. Portanto, não há muita coisa que o mundo desconheça sobre mim. Estou a dar uma entrevista contínua às grandes multinacionais.

O facto mais surpreendente desta aplicação que revela como seremos daqui a 30 anos é que dá a toda a gente uma esperança de vida de, pelo menos, 30 anos. Em princípio, a aplicação já sabe o suficiente para deduzir o tempo que nos resta.

À pergunta “Como serei eu em 2049?”, a aplicação deveria responder: “Tendo em conta os seus hábitos alimentares e a sua relutância em praticar exercício físico, nessa altura terá o aspecto deste monte de cinzas.” Mas não, continua a mostrar uma cara enrugada. Ou seja, têm os nossos dados mas não fazem verdadeiro uso deles. Pelo menos para o nosso bem. Mas isso já nós sabíamos.