Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Bolo-rei: subsídios para um debate

É incompreensível que a indústria dos plásticos não tenha ainda fabricado um bolo-rei em PVC, para satisfazer o segmento de público para o qual a contemplação de bolo-rei é essencial mas a sua ingestão é dispensável

Ilustração: Dreamstime

Gostava de começar por apelar à calma de todos. Sei que se trata de um assunto polémico, gerador de discussões sangrentas, mas talvez possamos ter uma conversa civilizada, contanto que ninguém se enerve – o que não é fácil. Há quem abomine bolo-rei com uma raiva que muito raras vezes vemos ser dirigida a produtos de pastelaria. Os seus adeptos, por outro lado, mesmo não nutrindo por ele sentimentos tão intensos, acabam por lhe dedicar um amor manso mas militante. Algumas pessoas nem são especialmente apreciadoras de bolo-rei, mas ficam transtornadas se não o virem na mesa de Natal. Não se importam que ninguém lhe toque, que se limite a testemunhar as festas, intacto, mas exigem que ele lá esteja. É incompreensível que a indústria dos plásticos não tenha ainda fabricado um bolo-rei em PVC, para satisfazer o segmento de público para o qual a contemplação de bolo-rei é essencial mas a sua ingestão é dispensável.

Tenho constatado que tanto o amor como o ódio que o bolo-rei suscita nas pessoas têm a mesma raiz: a associação do bolo ao Natal. As pessoas nas quais o Natal desperta boas memórias costumam apreciar ou tolerar o bolo-rei; os rabugentos despejam no bolo-rei a fúria que o Natal lhes causa. Há, no entanto, um pormenor decisivo: às vezes, o ódio ao bolo-rei é independente do Natal, e deve-se exclusivamente à fruta cristalizada. Não sei quem teve a ideia de cristalizar frutas e de as colocar, às farripas, sobre um bolo, mas essas são, talvez, as duas decisões mais polémicas da história da pastelaria mundial. Algumas das frutas – e estou a pensar especificamente naquelas verdes – têm cores que não se encontram na Natureza, e não se assemelham a qualquer fruta que eu já tenha visto. Na verdade, parecem ter sido fabricadas na hipotética fábrica de PVC, que produziria o tal bolo-rei que não existe mas devia existir.

No decurso da minha pesquisa sobre bolo-rei, que consistiu na leitura superficial e desatenta do artigo da Wikipédia, fiquei a saber que há mais uma razão para abominar o bolo-rei. De acordo com essa fonte, quando a república foi implantada, alguns republicanos (que tinham o mesmo entendimento da linguagem que alguns rústicos nossos contemporâneos) propuseram a substituição da designação bolo-rei por bolo-presidente, ou até bolo-Arriaga. Só por milagre é que a república se aguentou, porque esta excelente engenharia de linguagem não foi bem-sucedida e a poderosíssima expressão “bolo-rei” manteve-se, a perpetuar e a reforçar ideias sobre a superioridade do regime monárquico. Talvez a fruta cristalizada tenha evitado o pior.

(Crónica publicada na VISÃO 1348 de 3 de janeiro de 2019)