Os Dias Que Ficam

Cacilda e Abílio

Diz-se que, até meados dos anos noventa, vinha gente de todo o lado para experimentar a feitiçaria oral da Cacilda. O meu tio, que há dias visitei no lar dos Guindais, e que não fossem as artroses estaria ainda a servir finos, tintos e favaios, diz que apareciam até chineses e americanos

Rui Couceiro
Os Dias Que Ficam

O Faroleiro da Ilha de Pérvio Parálio

Não sei se foi maior surpresa saber da existência da ilha ou de que nela vivia alguém. O faroleiro mora num sítio tão pequeno e despovoado e ainda assim não há carta que me escreva – e é a cada mês que há quase três anos nos correspondemos – em que não se mostre irritado com alguém

Rui Couceiro
Os Dias Que Ficam

Sra. D. Maria Laudecena Farta de Carnes

É gente de índole cabotina a que se dedica àquela boataria reles das pedras roubadas e, imagine-se, a aspergir pelas goelas imundas que ela, uma senhora da sua condição, vive há décadas amantizada com o tendeiro

Rui Couceiro
Os Dias Que Ficam

O Lugar Sem Nome do Doutor Adalberto

Renunciando a todo o nada que lhe sobrava, ali se isolou o doutor Adalberto depois da fatalidade. Continua a escrever histórias para os netos e, a troco de pacotes de leite ou arroz, a dar consultas de Casualidade, esperando o acaso e que este o faça reencontrar a família depois de partir

Rui Couceiro
Os Dias Que Ficam

A felicidade está na Suíça e na clandestinidade

A D. Elvira também não sabe que eu sei que ela atua diariamente na clandestinidade. Quando acaba o noticiário da hora de almoço, e já comido o cozinhado que inicia às onze e meia em ponto, sai de casa com uma discrição que não escapa ao meu ouvido e desliza até ao café

Rui Couceiro
Os Dias Que Ficam

A primeira coisa a fazer

E o Tozé, para quem a cortesia não é coisa de somenos, devolveu o gesto, juntando as mãos em frente ao peito e eu, parvamente olvidando que a TV da aldeia é a mesma da cidade, fiquei a perguntar-me onde teria ele aprendido aquilo

Rui Couceiro