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O Senhor S. Salvador do Mundo

Lucília Monteiro

De como uma peste na Idade Média deu origem a um estranho culto no Porto

Estava prestes a findar o século XV quando uma peste devastadora foi detetada (1485) entre a população que residia na antiquíssima rua do Olival, assim denominada por ligar com a porta da muralha fernandina que tinha aquele mesmo nome. No ano seguinte, a Câmara, numa louvável tentativa de evitar que a peste alastrasse ao bairro de Miragaia, mandou entaipar a rua, que ainda hoje ostenta o nome de rua das Taipas.

A doença não chegou às zonas ribeirinhas, o que foi considerado um milagre e os habitantes da área de S. Nicolau, em ação de graças, mandaram construir uma capela em louvor do Senhor S. Salvador do Mundo – que estranha advocação! Corria o ano de 1490. Cinco anos depois da chegada da peste ao Porto. A artéria, à face da qual foi erguida a ermida, chamava – se Rua das Congostas e estava, então, integrada na paróquia da Sé.

Entretanto, o tempo foi-se escoando e, por meados do século XIX, um surto de urbanismo varreu a cidade de lés a lés. A zona ribeirinha foi onde mais se fizeram sentir as novas medidas urbanísticas e velha rua das Congostas desapareceu para se poder construir a moderna rua de Mouzinho da Silveira. Com a rua das Congostas também foi a ermida medieval do Senhor S. Salvador do Mundo onde, por essa altura, tinha assento a prestigiada confraria dos sapateiros.

Os oficiais do calçado aceitaram (não tinham outro remédio!) o progresso urbanístico, mas logo na primeira oportunidade trataram de construir uma nova capela, agora à face da moderna rua de Mouzinho da Silveira, integrada, agora, na paróquia de S. Nicolau. É aquele pequeno templo que fica mesmo à esquina do pátio do Salvador, antiga reminiscência da velha rua das Congostas.

Junto da primitiva capela funcionou um hospital (de S. Salvador) instituído nos finais do século XV “pelo cidadão do Porto“, Martins Domingues de Barcelos que o dotou de bens para“ no dito hospital se albergarem pobres…” A administração da capela e do hospital foi feita por descendentes do fundador do hospital, pelo menos até ao século XVIII. Atualmente pertence à paróquia de S. Nicolau. A capela, propriamente dita, está no primeiro andar do edifício. No rés do chão funciona um estabelecimento, onde se vendem recordações para turistas.