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Pobre Habermas

Às vezes, a tecnologia promete-nos tudo: verdade, justiça, democracia. Que pena haver seres humanos a intrometerem-se sempre na História… Reflexões em tempos de fake news

A Scene in Shantytown, New York. a prikmeira fotografia a ser publicada num jornal, o Daily Graphic, em 1880

A Scene in Shantytown, New York. a prikmeira fotografia a ser publicada num jornal, o Daily Graphic, em 1880

No dia 4 de março de 1880 publicava-se, pela primeira vez, uma fotografia num jornal. Antes, os leitores da imprensa já tinham acesso a gravuras e ilustrações obtidas a partir de fotografias, mas naquele dia, nas páginas do Daily Graphic, de Nova Iorque, era todo um mundo novo que se anunciava. A Scene in Shantytown, New York transportava os leitores para um lugar de Nova Iorque com grande realismo. O jornalismo não seria o mesmo depois desse dia. Porquê? Os leitores teriam acesso à realidade, a olhar para o mundo tal como ele é, escapando muito mais facilmente ao ardiloso e movediço mundo dos textos e das palavras. Durante muitas décadas acreditou-se mesmo que essa era a conquista prática das técnicas do fotojornalismo: a sonhada objetividade, o acesso a imagens do mundo que não nos podiam enganar. Como poderiam? A realidade estaria ali, à frente dos nossos olhos. A fotografia – que nasceu num diálogo e combate permanente com o ‘realismo’ da pintura, fosse de paisagens ou retratos – era uma garantia de verdade. De justiça, até. Mas – usando uma expressão muito dos nossos dias –, só que não. Precisamente por essa promessa de objetividade, a manipulação até podia ser muito mais insidiosa. E, na verdade, fácil: começa com o que se quer fotografar/mostrar ou não, os enquadramentos, as truncagens, os contextos (uma legenda pode mudar radicalmente o sentido de uma fotografia). Exemplos não faltam ao longo de uma história com mais de um século. E, agora, na era da fotografia digital nem os mais ingénuos põem as mãos no fogo pela realidade indesmentível de uma fotografia.

A 26 de Setembro de 2006 o Facebook abria-se a todos os que tivessem mais de 13 anos e uma conta de email. Em julho de 2010 já tinha 500 milhões de utilizadores em todo o mundo. Nesse mesmo mês o filósofo alemão Jürgen Habermas tinha 81 anos de vida. Uma boa parte deles a reflectir sobre (e a sonhar com) um “espaço público” e uma “esfera pública” capaz de, através da racionalidade, da retórica e da argumentação criar um mundo mais justo, mais livre, mais democrático. (Lembro-me bem de, no início dos anos 90, ter feito um trabalho universitário com o sugestivo título Utopia e Comunicação em Jürgen Habermas). As redes sociais, e sobretudo a própria internet, pareciam um passo de gigante, um instrumento perfeito – e, lá está, quase utópico – para dar corpo a essa “esfera pública” tantas vezes, antes, presa em contextos históricos que excluíam da discussão uma boa parte da população. Agora, todos seríamos capazes de discutir e esgrimir argumentos, resultando numa sociedade mais madura e mais justa. Consensos e compromissos. Se as fotografias na imprensa prometiam verdade, a internet e as redes sociais prometiam uma democracia aberta, madura, diálogo, inclusão. Mas – mais uma vez… –, só que não. A sociedade, quando está online, divide-se em bolhas de acordo com os que pensam mais ou menos da mesma maneira, e quando há comunicação entre bolhas resvala-se quase sempre para o insulto, a agressividade, a humilhação, um extremar de posições, uma luta retórica sem regras nem grande racionalidade. Mais grave: a aldeia global da internet permitiu que o que antes eram rumores de aldeia, de boca em boca nas ruas e nos cafés, passassem a ser rumores e mentiras de alcance global, rápido, poderoso (e houve forças que não demoraram muito a perceber isso, criando uma verdadeira teia e indústria de nada inocentes fake news, falsidades que nem merecem ser chamadas de "notícias").

Hoje, já não associamos imediatamente uma fotografia a uma realidade indesmentível. Mas há muito quem associe tudo o que lê “na internet”, por mais disparatado que seja, à revelação de uma verdade escondida. Há um caminho a fazer.

O que está errado, afinal? A resposta mais certeira que me ocorre é: talvez seja mesmo o ser humano, sempre capaz do melhor do pior. E se há algo que o século XX nos ensinou é que devemos desconfiar sempre de quem nos promete um “homem novo” (vade retro!). O ser humano... é o que é.

Voltando à fotografia, nas páginas de El Beso de Judas, Fotografía y Verdad, do catalão Joan Fontcuberta (capítulo A Tribo que Nunca Existiu): “Burlar significa decidir pelos outros, esconder a diversidade de opções de que se dispõe. ‘Governar significa fazer acreditar’, escreveu Régis Debray. Fazer acreditar consiste, pois, em controlar os mecanismos de manipulação (de criação). A consciência adulta, madura e democrática deveria ser capaz de corresponder com o mesmo grau de dialética”. Mas onde está essa consciência?