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Rui Tavares Guedes

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Diretor Executivo

O pândego perigoso

Editorial

Rui Tavares Guedes

Anadolu Agency/ Getty Images

É esta postura de Trump que dá gás a Bolsonaro para encarar a Amazónia como um negócio privado do Brasil, e não como um património essencial para a sobrevivência da Humanidade

Num único dia do início deste mês de agosto, a Gronelândia perdeu 12,5 mil milhões de toneladas de gelo, por causa das temperaturas elevadas, provocadas pela passagem de uma vaga de calor que, anteriormente, já tinha atingido grande parte da Europa Central. Nas contas feitas pelo cientista climático Martin Stendel, essa quantidade de gelo, depois de derretida, seria suficiente para cobrir toda a superfície da Alemanha (360 mil km2) por uma camada de água com sete centímetros de altura.

Embora este tenha sido um fenómeno extremo, não é um caso único. Na última década, os episódios de degelo têm-se intensificado na maior ilha do planeta, aquela onde os fenómenos meteorológicos e climáticos são mais bem estudados, com medições permanentes através de sondas no terreno e por satélite. Graças a esses instrumentos, os cientistas são capazes de registar, com uma precisão milimétrica, as variações da camada de gelo e a quantidade precisa de água doce que a Gronelândia vai “despejando”, nas estações quentes, para os oceanos. Todos os anos, a Gronelândia ganha gelo no inverno, devido à acumulação da neve, e perde-o no verão, através do degelo e da libertação de icebergues. Só que, de forma consistente, desde 2003, ano após ano, a Gronelândia tem visto a sua quantidade de gelo diminuir. Entre 2003 e 2017, precisam os cientistas, a ilha perdeu mais de 3 mil milhões de toneladas de gelo.

Estes números indicam que a Gronelândia está a perder gelo a um ritmo muito superior àquele que, ainda há bem pouco tempo, era previsto pelos cientistas. Aquilo que, em alguns cenários, se pensava que iria ocorrer apenas daqui a quatro ou cinco décadas, começa já a ser observado na ilha que, para a Ciência, funciona quase como um laboratório ao vivo do impacto do aquecimento global, uma espécie de “canário na mina de carvão” das alterações climáticas.

Toda esta quantidade de gelo a derreter, em especial ao ritmo dos últimos meses, fez disparar os alarmes na comunidade científica, temendo-se que a subida do nível médio dos mares, até ao final do século, possa ser muito superior ao que tinha sido indicado no último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas: em vez de uma subida “prudente”, não superior a 98 centímetros, é melhor começarmos a preparar-nos para um cenário com mais de dois metros, se continuarem as atuais emissões de gases com efeito de estufa, inundando vastas áreas do planeta, algumas das cidades mais emblemáticas, e criando cerca de 200 milhões de refugiados climáticos.

Perante estes sinais de alarme, em vésperas de uma Assembleia Geral das Nações Unidas que, em setembro, por iniciativa de António Guterres, pretende marcar um ponto de inflexão da Humanidade na luta contra as alterações climáticas, Donald Trump apenas viu uma oportunidade de negócio: a compra da Gronelândia (tal como os EUA fizeram, no passado, com o Alasca e o Louisiana, entre outros casos), animado pelo seu interesse geostratégico, num Ártico cada vez mais navegável, e pela possibilidade de exploração dos seus recursos naturais, como o carvão e o urânio.

Sobre a urgência de combate ao aquecimento global, o Presidente da única nação que quis abandonar o Acordo de Paris não pronunciou uma única palavra. Preferiu declarar que via aquela compra como “um grande negócio de imobiliário”.

O interesse de Trump na compra da Gronelândia fez soltar gargalhadas por esse mundo fora, como se fosse apenas mais um desvario do pândego, a que não se deve dar importância. É errado: mais do que rir de Trump, os líderes mundiais deviam ter-lhe pedido responsabilidades pelo degelo na Gronelândia e o seu compromisso, como líder de um dos países mais poluidores do mundo, no esforço global para impedir que a situação piore. Até porque é esta postura de Trump que, por exemplo, dá gás a Bolsonaro para também encarar a Amazónia como um negócio privado do Brasil, e não como um património essencial para a sobrevivência da Humanidade. Se ninguém os enfrentar, arriscamo-nos a que se multipliquem os pândegos, cada vez mais perigosos.

(Editorial publicado na VISÃO 1381 de 22 de agosto)

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