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Goldman, amigo, a luta está contigo

Arnaldo Matos, líder MRPP, discursa, a 17 de maio de 1980, perante uma plateia. Durão Barroso está na primeira fila (em baixo, à esquerda).

O Jornal

Durão Barroso na Goldman Sachs e Garcia Pereira fora do MRPP. Os deuses devem estar loucos!

Cruzei-me, nas redes sociais, com um post do MRPP, intitulado "Cavaco para a rua!", que dizia, entre outras coisas, que "Vinte anos de Cavaco significam vinte anos de corrupção, vinte anos de ladroagem, vinte anos de gatunagem à solta nos grandes negócios do País. Os banqueiros e outros grandes grupos de gatunos económico-financeiros controlam os dinheiros dos partidos do arco da governação, quer dizer, do arco da traição". Li, e não consegui deixar de pensar em Durão Barroso.

Era fácil, esta associação de ideias. Afinal, Durão Barroso foi subsecretário de Estado de Cavaco, secretário de Estado de Cavaco, ministro de Cavaco, antes de ser líder do PSD, como Cavaco e primeiro ministro, como Cavaco. Saiu do governo para ser presidente da Comissão Europeia, de onde saiu, com dois mandatos cumpridos, fazendo juras de amor à Europa. Menos de dois anos depois, surge, que nem uma bomba: Durão Barroso vai ser presidente não executivo da Goldman Sachs – um dos maiores bancos de investimento americanos, principal pilar da crise financeira que, em 2008, se abateu pelo mundo inteiro e se instalou num Portugal em bancarrota.

Está um partido na luta durante tantos anos para isto...? A desilusão, a indignação, o desprezo e demais sentimentos negativos em relação a Durão Barroso já foram sobejamente desenvolvidos pela imprensa, nos últimos meses. Do MRPP é que ninguém fala.

Durão Barroso há muito que deixou de ser Abel ou o camarada Veiga, de dizer a palavra luta de cinco em cinco segundos, de apelar ao "Fogo sobre a renegada Maria José Morgado" (título de uma moção que apresentou depois de a procuradora decidir abandonar o partido). Há muito que deixou os confrontos, as escolas, as ruas que percorria, em nome da Federação dos Estudantes Marxistas-Leninistas (que liderava) e do Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado. Há muito que enveredou pela social-democracia e se aliou aos Estados Unidos, à Inglaterra e à Espanha para, na cimeira das Lajes, deitar abaixo o regime de Saddam Hussein. Durão mudou e nunca mais voltou atrás, ao sítio onde, dos 18 aos 21, terá sido feliz.

O MRPP, esse, fez um regresso ao passado. Arnaldo Matos, seu fundador e mítico líder, regressou à liderança, depois de uma verdadeira processo purga aos órgãos que, durante décadas, haviam dirigido o partido. Nas últimas legislativas, o MRPP contnuava sem eleger deputados e, pior, descera em números de votos. O resultado seria imputado, no jornal oficial do partido, a Garcia Pereira: "Se o Partido não alcançou nenhum dos objetivos políticos imediatos ao seu alcance, tal fica unicamente a dever-se à incompetência, oportunismo e anticomunismo primário do secretário-geral do Partido e dos quatro membros do Comité Permanente do Comité Central, que tudo fizeram para sabotar a aplicação do comunismo." Garcia Pereira seria suspenso de funções e, mais tarde, deixaria o partido.

Mas a guerra não ficaria por aí. No jornal Luta Popular, continuam a aparecer referências ao seu nome, sempre acompanhadas de "subtis gentilezas" entre as quais se contam "anticomunista primário", "social-fascista", "golpista sem caráter”, “oportunista sem escrúpulos”, “verme”, “canalha sem vergonha”, "réptil seboso" ou "lambe-botas de Marcelo".

Quase um ano depois, as gentes de Garcia Pereira continuam a apontar o dedo ao camarada Arnaldo. Criaram um blog, a que chamaram "As mentiras do Arnaldo". É um blog não sobre "o político, líder comunista, que as pessoas se habituaram a reconhecer mas, pelo contrário, o ditador que, atropelando a lei e os direitos dos trabalhadores, tomou de assalto um partido e difamou e afastou liminarmente os até então eleitos membros dirigentes".

Camaradas, a luta continua! O Luta Popular (agora sob a batuta de Arnaldo Matos) escrevia há um mês que, "como já sucedeu com Saldanha Sanches e Durão Barroso, o mais conhecido fura-greves da Faculdade de Direito [referindo-se a Marcelo Rebelo de Sousa] recebe sempre de braços abertos todos os trânsfugas e traidores do nosso Partido" e questiona-se: "Garcia a caminho do PSD? Quem os viu e quem os vê…" Aqui, em Portugal, ou lá longe, na Goldman Sachs.