Autobiografia Não Autorizada

Longos anos têm catorze dias

Mudara-me para a casa da minha mãe depois de ela me ter confessado envergonhada que não se sentia capaz de continuar a viver sozinha, Tenho medo do vírus, ouço as informações que passam na televisão, há muita coisa que não entendo, tu sabes o que temos de fazer para não apanharmos o vírus? Sei, mãe, respondi, não te preocupes. Como se veio a provar, menti-lhe. Mas que importância tem a verdade nas coisas do amor?

Dulce Maria Cardoso Dulce Maria Cardoso
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O sol quando se põe não é para todos

Antigamente era obrigada a abordá-los na rua, Sabe dizer-me, por favor, como faço para ir para…, adivinhando--lhes o desdém ou a complacência no sorriso que me dispensavam, atarantava-me ao decorar o emaranhado de indicações cheio de esquerdas e direitas em que invariavelmente me perdia

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Setembro, setembro, setembro

Se um ano fosse um dia, setembro seria o seu fim de tarde. Dou-me bem com fins de tarde

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No andar de cima

O sr. Adérito ressonava no quarto grande. Bebemos o chá, comemos pastéis, dali a pouco rimo-nos e tornámo-nos três mulheres a fumar e a confidenciar segredos numa noite de temporal

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Crónica de uma morte anunciada

Sem saber ainda que aquela era a canção dele, o corpo do Candé, um escudo humano a proteger-me das luzes do palco e das sombras da plateia, senti-me por uma vez a bailarina da caixa--de-música que havia no quarto das minhas primas

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O contentor do Canadá

Tinham-nos contado que as roupas eram dadas em salas de tetos trabalhados, frescos nas paredes, janelas altas rasgadas sobre o rio, mas quando conseguimos entrar, a minha mãe e eu, fomos conduzidas para uma divisão tão sombria e abafada que cheguei a pensar que estávamos dentro do próprio contentor do Canadá

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O sul da vida

Fui tão feliz a nadar na praia da Terra Estreita e a tomar banho de mangueira no pátio, que a memória desse agosto é um dos bens mais preciosos que possuo. Quando regressei a Lisboa anunciei, pomposa, Quero envelhecer a sul. Não, eu não era velha

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Talvez os meus dedos

Estava já no Hotel Paris, como retornada, quando voltei a atacar as professoras com a mesma pergunta. Em Cascais, o Ciclo funcionava atrás do Jumbo, uns pavilhões pré-fabricados onde o frio da Metrópole se aprimorava na crueldade que exercia sobre o meu corpo ainda africano e mal agasalhado

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Foto #1: Para além daqui, só palavras me contam

Logo que entrei na universidade, livrei-me das idas a Trás--os-Montes, desculpando-me com o estudo para os exames de setembro. Os dias de ausência dos meus pais eram dias de liberdade, ensaiava por minha conta e risco a vida adulta que ainda me parecia tão distante. Por isso, o mais certo seria nunca mais os ter acompanhado à festa da Nossa Senhora da Assunção

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O país onde nada muda

O Shane acompanhou-me ao comício local da campanha do Obama no Children’s Memorial Park e não conseguiu apequenar o orgulho com que coloquei na lapela o crachá, Change We Need, centenas de pessoas em uníssono, negros, hispânicos, índios, american white trash

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Sem legendas

Cresci com o Brasil a salvar-me da tristeza salazarenta, a desempoeirar-me a cabeça, as personagens do pequeno ecrã em que mais me reconhecia eram brasileiras, entre elas e eu não havia tradução

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O abismo

Há uns anos cruzei-me com o Professor Eduardo Lourenço nos jardins da Fundação Calouste Gulbenkian. Estava um belo dia, eu sentia-me bem. Como está, Senhor Professor?, cumprimentei-o animada, uma fiada de árvores atrás de nós a compor o cenário do prazeroso encontro. Ele esperou uns segundos para me responder com outra pergunta, Como acha que se sente um homem que fita o abismo que o levará?

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Isto que nos une

Nunca me senti tão próxima dos outros. O mundo era enorme, incontáveis os humanos e eu existia perdida dos que vivem no outro lado do planeta ou mesmo no meu país, na minha cidade, no meu bairro, na minha rua, na minha casa. Afinal é tão simples ligarmo-nos

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A vida anormal

Ligo de seguida à minha mãe, que me conta que o Tomás, o meu sobrinho-neto de quatro anos, ao ouvir na televisão a notícia de mais mortos, disse, Como é que cabem tantos mortos no céu? O Tomás gosta deste isolamento social porque não tem de ir à escola e brinca todo o dia com os pais e o irmão. Digo ao Pedro que hoje estou sem cabeça para aprender a fazer ioga. Culpo a chuva. E isto tudo, acrescento

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Aqui dentro

O meu corretor ortográfico continua a sinalizar a vermelho a palavra coronavírus, tratando-a como erro. A linguagem está quase sempre atrasada em relação à vida. Ou então adiantada. Isso pode ser perigoso

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A última sessão

Quando o filme começou e me submergiu num mundo tecnicolor, estremeci com o impacto violento do som, a brisa arrepiou--me, o Miramar não tinha paredes e usava o céu como teto, a Baía de Luanda ficava logo atrás do ecrã gigante, havia os jardins em socalcos, era tudo tão diferente, tão maior, tão mais bonito do que o África, o cinema do nosso bairro

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Chegar-me a ti

Os cobertores e panos que tapavam as janelas, filtravam o intenso branco do sol, lá fora, tingindo tudo de encarnado. Se, por um lado, aquela luz abrandava – tanto quanto se sabia – a agressividade do bicho do sarampo, por outro, facilitava – assim o senti – a sua passagem do corpo do Hélder para o meu. Dói?, consegui perguntar-lhe. Não, não dói nada, respondeu-me

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Jardi ou o jardim sem fim

À medida que vou envelhecendo, aprendo e desaprendo muitas coisas. Desaprendo mais do que aprendo. Não me angustio com isso, confio que a cabeça guardará o que é importante. A cabeça e o coração. Mas tenho pena de desaprender a esperança

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No fundo do armário escuro

O que seria uma atividade de rotina transformou-se numa descoberta surpreendente, já que num dos estúdios viu, no fundo de um armário, cuja porta estava aberta, a prótese de uma perna

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Mudar de vida

Queira deitar-se neste, se faz favor. Fi-lo, timidamente, deixando os pés de fora da cama para não sujar nada, É assim que dorme? perguntou-me com rispidez. Não era, mas não tinha coragem de me enrolar em posição fetal à frente dos outros clientes que passeavam pelas avenidas bordejadas de camas com o “Last Christmas, I gave you my heart” a servir de banda sonora. Levantei-me ao fim de alguns segundos, Tem de ficar deitada pelo menos cinco minutos, repreendeu--me a funcionária

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Uma casa com vista sobre a cidade

A casa, mergulhada numa penumbra de saguões sujos, escancarava-se, nas traseiras, para a cidade através de uma sala grande, cujo teto era o mais trabalhado. A travessia envergonhada que fizéramos por uma realidade escondida dentro de portas, despejou-nos, incrédulos, numa enorme varanda debruçada sobre a cidade, uma beleza que nos deixou sem fôlego

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