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A passagem secreta

Será que não desliguei a luz do escritório? Ultimamente, tem-me custado adormecer. Com o cansaço a moer-me o corpo, a cabeça divaga entre assuntos insignificantes

Dulce Maria Cardoso
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Espécies invasoras

Gosto de ouvir os nossos passos sobre o chão de caruma, do cheiro a aldeia, uma mistura de lareiras, hortas, pinhais, mato, capoeiras

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Férias, esse tempo adiário

Pego num dos livros que trouxe. Ando sempre com livros a mais, livros que, desarrumados em pilhas sobre a mesa, me culpam por não conseguir lê-los

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A sombra fugaz de um cavalo alado, ou de uma gaivota apenas

Em vez de me entregar desarmada ao desejado encontro, insisti em fazer coincidir o que estava a viver com o que durante tanto tempo imaginara

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Quem se lembrará do que me irei esquecer?

Quero contar que até há pouco tempo a minha mãe sabia de cor a morada da pensão, mas agora esqueceu-se, e por isso não poderei lá ir, nem chegar perto, sequer

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Foto #6: A menina do papá

O meu querido pai morreu há mais de 20 anos. Os anos de morte não se deviam contar da mesma maneira que os anos de vida

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Se isto é uma mulher

Nunca dei por mim a pensar, Ah, como gostava de ter um filho. O que há em mim que mereça ser continuado?

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Se alguém me puder resgatar

Houve momentos em que achei que a coisa não ia correr bem. Pelo meio, perdi o paladar e o olfato. Continuei sem me assustar: ainda não se associavam estes sintomas à Covid

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Correspondência #1: Com que direito?

Portávamo--nos como os que não têm tento na língua. E se os nossos pais demoraram a revelar--nos, a mim e à minha irmã, alguns factos da história familiar, isso deveu-se apenas a não ter calhado

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Afinal, desmonta-se

Apesar dos muitos anos que nos separavam, talvez tenha encontrado semelhanças entre nós, talvez tenha intuído que éramos feitas da mesma massa

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Querida Dóris

Sonhei com o anjinho azul da casa dos Anjos, um anjinho gordo desenhado num azulejo que o Luís e eu pendurámos junto à porta de entrada

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A de apaga

Escreve sobre o quê? Hesito. Perguntam-me isto desde sempre, Escrevo sobre o quê? Receio que quando souber a resposta certa nada mais tenha para escrever

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A céu aberto

Quando nos mergulham tempo demais nas mesmas palavras, as nossas apodrecem, as nossas palavras passam a ser as outras tornamo-nos altifalantes acéfalos, perros

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Os nossos rostos

A morte, cansada de andar sonsa pelas enfermarias dos hospitais, mais de dois anos a apoucar anónima secreta aborrecidamente o valor de cada vida, deseja a guerra

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Foto #6: Infância a grão grosso

Sempre que olhava para esta fotografia, a minha mãe lamentava que eu tivesse perdido o meu fio numa ida à Baixa. Agora, já não se lembra disso

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Flash

É rara a manhã em que não sinto o apelo da montanha, o empardecido gigante que se iça, solitário, sobre a paisagem urbana do outro lado da janela

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A solitária aprendizagem da maldade

Ainda não sabia ler nem escrever, mas desde sempre tudo me ensinava que nós éramos brancos e eles não, nós éramos colonos e eles não

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Meia-noite, no jardim do Bem e do Mal

Mantive-me calada a maior parte do tempo e subitamente, Queres que te ofereça o meu colar?, perguntou-me a Adília Lopes, levando a mão quase infantil às contas do colar de madeira que trazia

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Parabéns, Shane

Ele sabia bem dessa outra dimensão. Os pais haviam-no iniciado no consumo de drogas ainda ele não tinha dez anos, Não tive escolha, declarava sem amargura, Vivi o que tive de viver. Aprendi com o Shane que tudo se pode contar. O absurdamente trágico e o desprezível banal. As palavras são o que nos resta para tentarmos tornar compreensível aquilo que não o é

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O deus das pequenas coisas (ca. 13:30-14:30)

Tive educação católica, fiz a primeira comunhão, cheguei a dar catequese, mas a fé em Deus de que falo não me foi ensinada pela religião católica ou por outra, e nada tem que ver com a fé por que se continua a matar todos os dias. Resulta da intimidade com uma ideia de Bem que me faz sentir não estar só nas decisões que tomo, nos falhanços em que tropeço, nos pequenos triunfos que calham acontecer-me

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Sonhei, a noite passada

Eu continuei a crescer, continuamos sempre a crescer, mesmo quando o corpo para e começamos a enrodilhar por dentro. Gostava de acreditar que foram as palavras da Nóemia e da Daphne du Maurier que me guiaram para o homem bom com quem me casei, mas hoje sei que nas coisas do amor é mais a sorte doque a lucidez que comanda

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