Autobiografia Não Autorizada

Esperar

Passava a noite acordada, à espera do aviso sonoro do chat do Yahoo. Ainda hoje me arrepio se o ouço. Insone, tomada de uma febre juvenil, punha corretor de olheiras, testava que roupa ficava melhor na câmara, tinha atenção à iluminação e ao cenário como se fosse entrar num filme

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Concerto

Em Luanda muda--se de ano no pico do calor. Organizavam--se festas de passagem de ano em todo o lado, mas as que a minha irmã e eu mais invejávamos eram as do Clube do nosso bairro. Dias antes, começava a grande azáfama, enfeitavam--se os muros do quintal com folhas de palmeira, cruzava-se a chapa ondulada com fios de luzes coloridas e serpentinas

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Foto #2: O macaco maluco

Tanto nos agradavam os ideais socialistas de distribuição da riqueza quanto a prática do catolicismo e a ajuda aos mais necessitados, admirávamos a União Soviética e os filmes de Hollywood, recordávamos, nostálgicos, revoluções a que não assistíramos, Cuba, Maio de 68, Woodstock, íamos à missa aos domingos de manhã ressacados das noites em claro a dançar na Frolic

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O miolo das palavras

Quero este bolo, dizia à minha mãe, apontando para a montra de vidro da pastelaria Riviera. Ao estender o dedo no café de Leipzig é ainda a minha mãe que me olha embevecida. Carregamos pela vida fora o amor que recebemos na infância

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O lado errado

Se eu era ainda muito pequena no dia em que aprendi a ler, no final da quarta classe já havia crescido o suficiente para que não houvesse qualquer fantasia na memória que guardo de ele a despedir-se da minha professora, a professora acabara de elogiar--me, desejava-me felicidades, e o meu pai, Se esta miúda não tivesse nascido do lado errado, podia ser o que quisesse

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O peso do amor

As minhas decisões e as da minha irmã acerca das nossas vidas nunca deram grandes desgostos ou alegrias à minha mãe, Se vós estiverdes bem, eu também estou, governei a minha vida como entendi, tendes o direito de governar a vossa como quiserdes. Não deve ser possível crescer sem se sentir vergonha dos pais.Talvez o receio de ser também eu alvo dessa vergonha me tenha desviado de ser mãe

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Longos anos têm catorze dias

Mudara-me para a casa da minha mãe depois de ela me ter confessado envergonhada que não se sentia capaz de continuar a viver sozinha, Tenho medo do vírus, ouço as informações que passam na televisão, há muita coisa que não entendo, tu sabes o que temos de fazer para não apanharmos o vírus? Sei, mãe, respondi, não te preocupes. Como se veio a provar, menti-lhe. Mas que importância tem a verdade nas coisas do amor?

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O sol quando se põe não é para todos

Antigamente era obrigada a abordá-los na rua, Sabe dizer-me, por favor, como faço para ir para…, adivinhando--lhes o desdém ou a complacência no sorriso que me dispensavam, atarantava-me ao decorar o emaranhado de indicações cheio de esquerdas e direitas em que invariavelmente me perdia

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Setembro, setembro, setembro

Se um ano fosse um dia, setembro seria o seu fim de tarde. Dou-me bem com fins de tarde

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No andar de cima

O sr. Adérito ressonava no quarto grande. Bebemos o chá, comemos pastéis, dali a pouco rimo-nos e tornámo-nos três mulheres a fumar e a confidenciar segredos numa noite de temporal

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Crónica de uma morte anunciada

Sem saber ainda que aquela era a canção dele, o corpo do Candé, um escudo humano a proteger-me das luzes do palco e das sombras da plateia, senti-me por uma vez a bailarina da caixa--de-música que havia no quarto das minhas primas

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O contentor do Canadá

Tinham-nos contado que as roupas eram dadas em salas de tetos trabalhados, frescos nas paredes, janelas altas rasgadas sobre o rio, mas quando conseguimos entrar, a minha mãe e eu, fomos conduzidas para uma divisão tão sombria e abafada que cheguei a pensar que estávamos dentro do próprio contentor do Canadá

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O sul da vida

Fui tão feliz a nadar na praia da Terra Estreita e a tomar banho de mangueira no pátio, que a memória desse agosto é um dos bens mais preciosos que possuo. Quando regressei a Lisboa anunciei, pomposa, Quero envelhecer a sul. Não, eu não era velha

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Talvez os meus dedos

Estava já no Hotel Paris, como retornada, quando voltei a atacar as professoras com a mesma pergunta. Em Cascais, o Ciclo funcionava atrás do Jumbo, uns pavilhões pré-fabricados onde o frio da Metrópole se aprimorava na crueldade que exercia sobre o meu corpo ainda africano e mal agasalhado

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Foto #1: Para além daqui, só palavras me contam

Logo que entrei na universidade, livrei-me das idas a Trás--os-Montes, desculpando-me com o estudo para os exames de setembro. Os dias de ausência dos meus pais eram dias de liberdade, ensaiava por minha conta e risco a vida adulta que ainda me parecia tão distante. Por isso, o mais certo seria nunca mais os ter acompanhado à festa da Nossa Senhora da Assunção

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O país onde nada muda

O Shane acompanhou-me ao comício local da campanha do Obama no Children’s Memorial Park e não conseguiu apequenar o orgulho com que coloquei na lapela o crachá, Change We Need, centenas de pessoas em uníssono, negros, hispânicos, índios, american white trash

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Sem legendas

Cresci com o Brasil a salvar-me da tristeza salazarenta, a desempoeirar-me a cabeça, as personagens do pequeno ecrã em que mais me reconhecia eram brasileiras, entre elas e eu não havia tradução

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O abismo

Há uns anos cruzei-me com o Professor Eduardo Lourenço nos jardins da Fundação Calouste Gulbenkian. Estava um belo dia, eu sentia-me bem. Como está, Senhor Professor?, cumprimentei-o animada, uma fiada de árvores atrás de nós a compor o cenário do prazeroso encontro. Ele esperou uns segundos para me responder com outra pergunta, Como acha que se sente um homem que fita o abismo que o levará?

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Isto que nos une

Nunca me senti tão próxima dos outros. O mundo era enorme, incontáveis os humanos e eu existia perdida dos que vivem no outro lado do planeta ou mesmo no meu país, na minha cidade, no meu bairro, na minha rua, na minha casa. Afinal é tão simples ligarmo-nos

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A vida anormal

Ligo de seguida à minha mãe, que me conta que o Tomás, o meu sobrinho-neto de quatro anos, ao ouvir na televisão a notícia de mais mortos, disse, Como é que cabem tantos mortos no céu? O Tomás gosta deste isolamento social porque não tem de ir à escola e brinca todo o dia com os pais e o irmão. Digo ao Pedro que hoje estou sem cabeça para aprender a fazer ioga. Culpo a chuva. E isto tudo, acrescento

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Aqui dentro

O meu corretor ortográfico continua a sinalizar a vermelho a palavra coronavírus, tratando-a como erro. A linguagem está quase sempre atrasada em relação à vida. Ou então adiantada. Isso pode ser perigoso

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