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Pornografia e prazer: A força dos estímulos

RapidEye/ Getty Images

Não venho em defesa do slow sex nem do fast sex, com mão e pornografia ou apenas imaginário erótico. Cada um faz as suas escolhas em liberdade. Pretendo apenas alertar para a possibilidade de surgirem problemas, que muitas vezes surgem, e para a necessidade de os resolver, sem deixar passar muito tempo

Disponível a qualquer hora do dia ou da noite, de acesso fácil, gratuito e rápido, existem conteúdos para todos os gostos. Dos mais convencionais aos mais bizarros. Atualmente, quando falamos de pornografia, falamos de pornografia na Internet. Os mais jovens nem sabem que até à década de 90 do século passado, o acesso à pornografia era através de revistas que não se compravam em todos os quiosques e de vídeo-cassetes alugadas da estante mais escondida do clube de vídeo. Sempre existiu dirigida a homens e nos últimos vinte anos produzida por e para mulheres.

O lado mais positivo da pornografia está relacionado com a abertura à diversidade e a novos cenários e fantasias sexuais e ao mesmo tempo pode dar permissão e validação de fantasias já existentes. Pode ser um acelerador da excitação que traz o prazer ou o alívio da tensão sexual num contexto individual, e também pode ser partilhada em conjunto como parceiro ou parceira.

Mas este artigo não é sobre os benefícios nem os malefícios da pornografia. Não venho defender nem atacar. Este texto não é anti-pornografia, não é moralista, não é sobre perigos nem riscos nem vícios. Antes pretendo que seja um texto a favor da liberdade na perseguição do prazer sexual. Cada um gosta do que gosta, procura o que procura e nesta matéria encontra sempre. Com este texto pretendo alertar e informar sobre situações (minoritárias) em que o consumo de pornografia pode perturbar a resposta sexual com o parceiro ou parceira. Falo de situações em que a pornografia passa a constituir um estímulo muito poderoso que se sobrepõe a qualquer estimulação em contexto interpessoal, e nestes casos, passa a ter um impacto negativo no indivíduo e na relação.

Por razões ainda mal conhecidas, - características de personalidade entre outras - algumas pessoas ficam fixadas a um determinado tipo de estimulação que encontram na pornografia que acompanha a masturbação. Os estímulos habituais com a parceira/o perdem carga erótica e daí resulta a diminuição da excitação. Ou seja, a excitação sexual passa a depender de determinados estímulos para existir e se manter. No caso dos homens, pode haver dificuldade em manter a ereção, mas não só. Pode também ser difícil chegar ao orgasmo e ejaculação, e haver diminuição do desejo ou perda do interesse sexual pela parceira na relação.

Recordo o caso de um homem jovem, 32 anos, casado há cinco com uma mulher de quem gosta, e com algum stress profissional em resultado do trabalho numa consultora. Procura-me com queixas de perda do desejo sexual. Dizia-me “Nunca me apetece o sexo com a minha mulher… nem com nenhuma outra… perdi completamente o desejo”. Este homem masturbava-se diariamente com conteúdos pornográficos que pesquisava no seu telemóvel. Este padrão de sexo a solo, rápido e fácil, era satisfatório para ele. Este homem veio à minha consulta porque estava preocupado com o seu casamento e porque a sua mulher se sentia insatisfeita e perturbada com o desinteresse dele por ela. Outros homens me descreveram este padrão de sexualidade em que a masturbação com pornografia é descrito como um escape ou uma forma de aliviar a tensão. Mas com custos para o sexo no contexto relacional.

No caso das mulheres, podem existir dificuldades na excitação e esta não ser suficiente para chegar ao orgasmo. Ou seja, a mulher não consegue ter orgasmo na penetração mas consegue-o sozinha em dois minutos com a sua mão e “aquelas imagens” na Internet.

Sexo a solo com “aquelas” imagens particulares e específicas da preferência da pessoa, adquirem uma carga erótica e uma força excessiva porque impossível de reproduzir ou encontrar no contexto real com a/o parceira/o. A pessoa fica habituada (“viciada” como me dizia um cliente) e precisa daquelas imagens para se excitar. Sem elas, a excitação sexual e até a própria ereção não é tão fantástica nem consistente ou pode nem existir.

Esta sexualidade a solo é uma atividade solitária e descontextualizada, onde a relação não tem lugar e que cria hábitos de satisfação sexual sem a chatice de um relacionamento. Sim, porque a relação exige muito investimento. É uma sexualidade esvaziada e sem sedução.

A pornografia acelera o sexo, imprime um certo caráter de “instantâneo”, num contexto de imediatismo. Nada contra, isto pode ser muito interessante e excitante em muitas ocasiões mas – e este texto é sobre esse mas – pode atrapalhar quando se quer voltar a um “sexo mais lento”, ou seja, menos “instantâneo”, com o/a parceiro/a, e com outro tipo de estímulos, num contexto relacional. Os estímulos que a pornografia oferece podem adquirir uma carga erótica muito mais forte do que os estímulos que se tem com o companheiro, muitas vezes numa relação de longa duração em que já há uma erosão do erotismo sexo acontece no meio das rotinas.

Não venho em defesa do slow sex nem do fast sex, com mão e pornografia ou apenas imaginário erótico. Cada um faz as suas escolhas em liberdade. Pretendo apenas alertar para a possibilidade de surgirem problemas, que muitas vezes surgem, e para a necessidade de os resolver, sem deixar passar muito tempo. O tempo é sempre um grande inimigo quando há dificuldades sexuais.

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Ana Alexandra Carvalheira

Ana Alexandra Carvalheira

AMOR E SEXO

Ana Alexandra Carvalheira, é psicóloga clínica, licenciada pela Universidade de Cpombra e doutorada pela Universidade de Salamanca. É professora e investigadora no William James Center for Research, ISPA – Instituto Universitário. Realiza investigação na área da sexualidade, aliada à prática clínica que mantém desde 1997. É Terapeuta Sexual formada pela Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica em 1997, da qual foi presidente em 2013/14. É membro da International Academy of Sex Research e tem dezenas de artigos publicados em revistas científicas internacionais. O que mais gosta é do trabalho clínico com os clientes, onde mais aprende e de onde retira as questões que quer investigar. www.anacarvalheira.com