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Carmo Machado

Luí­s Barra

Qual a especificidade da profissão docente? Encontrar-se-á esta na capacidade para convocar e fazer reuniões com pais e encarregados de educação? No levantamento de processos disciplinares? No encaminhamento de alunos para aconselhamento psicológico? A professora Carmo Machado reflete sobre o que é que os professores fazem que mais ninguém pode fazer

Antes das efetivas e (mais do que) merecidas férias dos professores neste ano letivo que agora se aproxima do fim, importa deixar uma pergunta essencial para que todos possamos refletir em conjunto: Afinal, o que é que os professores fazem que mais ninguém pode fazer?

Numa altura em que a opinião pública em geral parece ter encontrado na classe docente uma espécie de bode expiatório para os seus próprios problemas e frustrações, há que esclarecer sobre a especificidade da profissão docente. Será que esta reside na elaboração de atas, relatórios e todo o tipo de documentação formal que qualquer professor tem obrigatoriamente de produzir? A meu ver, embora fazendo parte das funções de um professor, estas não constituem as verdadeiras dimensões da profissionalidade docente uma vez que, qualquer funcionário minimamente letrado, conseguirá produzir estes documentos formais bem como recolher a documentação dos alunos para fazer as respetivas matrículas e constituir as turmas.

Então, qual a especificidade da profissão docente? Encontrar-se-á esta na capacidade para convocar e fazer reuniões com pais e encarregados de educação? No levantamento de processos disciplinares? No encaminhamento de alunos para aconselhamento psicológico? Ou esta especificidade prender-se-á sobretudo com a função de elaborar testes e exames, procedendo à sua correção? Ou com a resolução de conflitos dentro e fora da sala de aula? Será a vigilância de exames específica da função de um professor? Será na avaliação dos alunos que reside a essência da nossa profissão? A lista de perguntas que poderíamos aqui colocar é infinita. Então, o que é que nós fazemos que só nós conseguimos fazer? Manter grupos de crianças e adolescentes encerrados numa sala (por vezes contra a sua vontade) em blocos sucessivos de quarenta e cinco, cinquenta ou noventa minutos, sem qualquer forma de ajuda externa, por vezes tão necessária? Educar para as regras básicas de cidadania? Será esta a nossa função? Em que ficamos, afinal? Será então a especificidade da função de um professorm ensinar? Então e o que dizer dos pais e encarregados de educação que, semqualquer preparação específica, ensinam diariamente os seus educandos, ajudando-os nas suas atividades escolares, esclarecendo dúvidas de Matemática, fazendo exercícios de gramática, estudando Geografia ou História de Portugal?

Quase todos, de uma maneira ou de outra, conseguirão desempenhar algumas das funções de um professor. Então, reitero a pergunta: qual a nossa especificidade? O que é que nos distingue dos leigos que, à sua maneira e da melhor forma possível, conseguem desempenhar algumas das funções de um professor? É a especialização que nós possuímos e eles não. E esta pressupõe uma enorme complexidade que vai muito para além de instruir, de educar ou de ajudar a socializar. A especificidade da profissão docente implica um conjunto de dimensões não apenas éticas e políticas, mas de ensino e de aprendizagem, de desenvolvimento ao longo da vida e possui uma dimensão crucial, a meu ver (sem a qual ficaremos reduzidos ameros instrutores), que é a de contribuir para a Inovação e a Renovação dos indivíduos, da sociedade e de nós próprios. Porém, transformaram-nos em autênticos bombeiros, em “pau para toda a obra”, rodeados de uma burocracia sufocante! E esqueceram-se de que temos a função de incentivar a reflexão e o debate, a mudança e o progresso.

Vivemos tempos em que assistimos, de forma preocupante, ao enfraquecimento da profissionalidade docente, cujas consequências se farão sentir a breve trecho de forma mais persistente do que até aqui temos vindo a sentir. Enquanto os senhores do poder, independentemente da cor da sua bandeira, não compreenderem a necessidade urgente de fortalecer a profissionalidade docente (e não proceder ao seu enfraquecimento, como temos vindo a observar), não haverá qualquer avanço. As políticas educativas devem agir no sentido de consciencializar os seus agentes e a população em geral, de que um professor é um trabalhador intelectual e, como tal, deve ser tratado, reconhecido e respeitado. Até lá, continuaremos a assistir à destruição da escola pública e de uma classe que constitui um dos pilares de qualquer processo de progresso e de mudança. A não ser que, como há muito temos vindo a desconfiar, os políticos deste país não pretendam absolutamente nada disto...

Esgotaram-nos e assim nos silenciaram. Mas até quando?

Carmo Machado

Carmo Machado

ENSINO

Carmo Miranda Machado é formadora profissional na área comportamental e professora de Português no ensino público há vinte e sete anos, tendo trabalhado com alunos do 7º ao 12º anos de escolaridade. Possui um Mestrado em Ciências da Educação (Orientação das Aprendizagens) pela Universidade Católica Portuguesa e tem como formação base uma Licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas pela Universidade Nova de Lisboa. Tem dedicado a sua vida às suas três grandes paixões: o ensino, a escrita e as viagens pelo mundo. Colabora na Revista Mais Alentejo desde Fevereiro de 2010 como autora da crónica Ruas do Mundo, tendo ganho o Prémio Mais Literatura atribuído por esta revista nesse mesmo ano. Publicou até ao momento, os seguintes títulos pela editora Colibri: Entre Dois Mundos, Entre Duas Línguas (2007); Eu Mulher de Mim (2009); O Homem das Violetas Roxas (2011) e Rios de Paixão (2015).