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O Salazarinho da TVI: De Hitler à versão zen

Arquivo Morto

Miguel Carvalho

Na TVI, revelou outra face: a de salazarista zen. Domesticado, simpático e delicodoce, capaz até de adaptar a narrativa do “Mein Kampf” para criancinhas enquanto leva ao lume a tal Nova Ordem Social. Aguarda-se agora a biografia e a app para telemóveis. Já faltou mais.

Apresentou-se sorridente num programa de entretenimento da TVI.

Barba aparadinha, pose suave, fala escorreita e fatiota afeiçoada aos costumes e ditames civilizacionais, sem suásticas a descoberto.

O seu currículo criminal é conhecido, da posse ilegal de armas à violência racista continuada, com requintes pidescos. Por isso, esteve vários anos preso. Mas o discurso, esse, está mais aveludado, talvez por necessidades mediáticas, prudência jurídica ou aconselhamento médico.

Mário Machado pediu na televisão “dois ou três Salazares” e propõe-se ser um deles. Pretende uma Nova Ordem Social, talvez até a criação de um partido, e inspira-se, claro, nos “ventos de mudança” que sopram dos EUA e do Brasil. Entre referências à “honestidade” do ditador de Santa Comba e elogios ao seu papel na II Guerra Mundial, o antigo líder de um grupo extremista defensor da “supremacia branca” demorou pouco mais de uma dúzia de anos a reciclar as próprias convicções e adaptá-las ao sistema mediático, reduzindo as calorias. Antigo membro da Juventude Leonina, Mário Machado foi entrevistado na cadeia para a edição de 30 de novembro de 2007 do semanário Sol. Orgulhosamente só e sem açaime, criticava então Salazar por não ter apoiado a Alemanha nazi, inspirava-se em Hitler, considerava Cavaco honesto e poupava Santana Lopes à desanca generalizada da classe política.

Na TVI, revelou outra face: a de salazarista zen. Domesticado, simpático e delicodoce, capaz até de adaptar a narrativa do “Mein Kampf” para criancinhas enquanto leva ao lume a tal Nova Ordem Social. Aguarda-se agora a biografia e a app para telemóveis. Já faltou mais.

Arquivo Morto” é uma crónica semanal com recurso a fotografias, documentos e recortes de Imprensa que preservam a memória de acontecimentos, protagonistas e factos esquecidos, fazendo a ponte para a atualidade.

Miguel Carvalho

Miguel Carvalho

Nasceu a 25 de novembro de 1970, prova de que teve razão antes do tempo. Cresceu a beber PCP, PS, PSD, Expresso, Tom Sawyer, Soeiro, Marx, Groucho, Easton Ellis, MEC, Torga e épicos Marvel. Despertou para o jornalismo em plena delinquência, roubando jornais dos vizinhos e revistas nos quiosques. Fez jornais de caserna. Gosta da palavra camarada e vacinou-se contra o coleguismo e o fascismo de unha pintada. Foi «rádio pirata». Tirou (mas devolveu) o curso de radiojornalismo. Anda nisto desde 1989. Alguns acham demasiado. Publicou cinco livros com histórias que não ficam para a história (e muito bem!). Ganhou o prémio Gazeta de Jornalismo com uma investigação situada em 1979, para surpresa dele e escândalo nacional na era do instantâneo. O que mais gozo lhe deu foi ter um prefácio do Manuel António Pina num livro seu. Detesta o Portugal sentado e admira o Portugal sentido. Conhece Buenos Aires, Moscovo e Bissau, mas prefere a rua dele e o coração dos outros. Consome uma droga dura (Cossery) e uma leve (gin tónico), e nunca inalou empreendedorismo. É adito a todos os vícios que pode controlar, afetos à parte. FC Porto, jornais, livros, pernil assado, poesia, Talese, Chien Qui Fume, Billie Holiday, Carlos Paião, Douro, Alentejo e filmes argentinos são alguns dos seus dogmas. É ateu e tem raiva de quem sabe. Deseja glória ao brunch nas alturas e paz na terra aos homens de boa boutade. Veste o Porto por dentro. Cidade onde gostaria de viver até ser pó, cinza e nada.