Nem Tudo É Ficção
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Os fantasmas do major Lussaty

Mesmo num país formado na corrupção, e conformado com ela, o Caso Lussaty espantava. O até então obscuro major, diretor financeiro da banda militar da Casa da Presidência, fora apanhado pela polícia com malas cheias de milhões de dólares

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O Artivista

Um artivista é um ativista que usa a arte como forma de protesto, certo? Ainda é um artista. Acontece que o senhor denuncia a falta de arte na arte conceptual, fazendo arte conceptual, ou seja, na sua lógica, não fazendo arte. Afinal, o senhor é um artista ou um vigarista?

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Organizo chuvas para os funerais

Riu-se, um riso macio, que lhe sacudiu alegremente as mamas gordas. Contou então que para o funeral do velho Firmino, o marido andara preparando durante três dias uma garoa fina, mas o que acabara ocorrendo fora uma chuva de gafanhotos, grandes como lagostas, que devoraram em poucos minutos tudo o que havia de verde na vila, incluindo os cabelos postiços da jovem viúva do falecido

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Cândido e salima

Grandes estórias de amor implicam sempre trágicos e dolorosos confrontos e desencontros, a subversão de regras e sistemas de pensamento. Raramente terminam bem. Esta termina. Sobretudo porque continua: à primeira filha, Cândido e Salima deram o nome da rainha portuguesa, Amélia. A partir dessa altura, em todas as gerações da família, passou a existir uma Amélia

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Ulisses voltou para casa

Ulisses abriu o livro, a medo, e começou a ler. Quando era menino, o pai lia para ele. O pai, sentado na cama, lendo para ele, é a melhor lembrança que tem. Não apenas a melhor lembrança do pai. A melhor lembrança de toda a sua vida

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O aroma das mangas

Sento-me num banco, diante do de Malan. Abro um livro, começo a ler um romance cubano e, seja pelo romance, que me leva para um outro mundo, muito diverso do meu, seja por estar tão próximo do antigo traficante, sinto que o tempo se expande e se dilui, como sal na água. A vida de Malan é um grande ruído acontecendo sem ruído, como os rios que correm sob a superfície da Lua. Antes de exercitar-se na arte de expandir o tempo, Malan correu atrás dele

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A escrava portuguesa de Mutu-ya-Kevela

Em criança, ouvi velhos colonos contarem inúmeras histórias de Samacaca. Dizia-se que os vendavais lhe obedeciam, assim como as serpentes, e que era capaz de se tornar invisível aos olhos dos inimigos. Em algum momento, perdeu as artes mágicas. Foi aprisionado em 1905 e deportado para a Guiné-Bissau, onde terá falecido. Até hoje existe um pano, do vestuário tradicional, que tem o seu nome

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Matulai, o vento Sul

A ilha é uma cápsula do tempo. Nada do que é presente nos alcança. Vez por outra, surgem turistas. Não lhes perguntamos de onde vêm, mas de quando. Naturalmente, vêm, todos eles, de algum instante no futuro

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O exílio do senhor Palácios

Ivete lembrava-se dele quando ainda eram sete pessoas em casa, toda a gente falando ao mesmo tempo durante as refeições, e aquele silêncio sólido crescendo como uma nuvem negra à cabeceira da mesa

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A menina que colecionava espantos

Desde bebé que Kalumba-Tubia conversa com vaga--lumes. Na verdade, com todo o tipo de animais, mas especialmente com aqueles capazes de voar. No início, os pais riam-se muito ao ouvi-la dialogar com os pássaros, os besouros e as borboletas. Depois, começaram a ficar preocupados. Um psicólogo tranquilizou-os: “Não há nada de errado com a menina. Conversar com os animais é uma forma que ela encontrou de estabelecer vínculos com o mundo que a rodeia”

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Meu amigo Waldemar

Nunca se calou. Nunca se deixou comprar, nem pelo regime, nem pela principal força da oposição. Ao mesmo tempo, foi apoiando sempre todas as iniciativas visando a pacificação e a democratização do país. Marchei ao lado dele, em manifestações que não reuniam mais de quinze almas inconformadas, e noutras, muito mais raras, entre centenas de pessoas

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A voz discordante

Maciel sentou-se no sofá, esquecido dos ovos que estalavam na frigideira: quem seria aquela mulher? Começou a imaginar rostos que se adaptassem a uma voz assim. Tinha de ser ruiva, com uma cabeleira em chamas e uns olhos azuis de fim de mundo. Durante 15 dias sonhou com ela

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Todos os domingos

Cada uma daquelas estátuas pretendia perpetuar a memória e a grandeza do projeto escravocrata. Ao mesmo tempo, assinalavam um vazio, pois erguiam-se por entre o triste silêncio dos humilhados e esquecidos. Não disse nada. Ficaram os dois calados, assistindo ao espetáculo da turba que, depois de atirar baldes de tinta vermelha contra o rosto da estátua, se afadigava agora a amarrar grossas cordas nas pernitas marmóreas da mesma

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A nova irrealidade

É verdade, sou tímido. Festas constrangem--me. Sou uma daquelas pessoas a quem o confinamento não desagradou, muito pelo contrário. Ou, pelo menos, eu pensava assim – até ontem. Vivi muitos anos em estado de semirreclusão. A mulher chamava-se Ingrid. – O que fazes? – perguntou-me. – Adivinha... – És professor de Matemática

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O amor mascarado

As ruas de Lisboa, agora desertas, limpas e desafogadas, pareciam mais largas. A cidade inteira resplandecia, lavada e escovada, sob um doce sol de primavera. À porta da padaria encontrou uma fila de umas dez pessoas, a rigorosos dois metros de distância umas das outras, todas equipadas com máscaras e luvas. À frente dele postava-se uma mulher elegante. Pedro costumava vê-la ali

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O domador de borboletas

Quando se sentia fatigada, a rainha estalava os dedos, e então as borboletas cobriam-na por inteiro, como uma cortina viva da mais pura seda, e ela, desaparecendo da vista dos presentes, reaparecia onde bem entendesse, a várias milhas de distância

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O encantador de cães

Na varanda, retorcendo o denso bigode com dedos grossos e nervosos, estava o sujeito a quem vendera Maroto. O encantador de cães não o reconheceu logo porque o homem que lhe comprara o perdigueiro vestia-se de preto severo, como um padre, e aquele vinha fardado e parecia mais alto e mais sólido

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Um terrível equívoco

Certa tarde, estando de passagem por Hamburgo, achou--se diante de uma manifestação de extrema-direita. Viu a sua gente avançar, uma multidão sólida, vestida de negro, gritando palavras ásperas, e, num impulso solidário, correu a juntar-se a ela. Infelizmente, o seu gesto foi mal-interpretado

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O intérprete de pássaros

Entrevistei Emanuel Divino Tchimbamba há alguns anos, num imenso mercado, entretanto desaparecido, da capital angolana. O antigo guerrilheiro montara uma pequena barraca, no coração do irrepreensível caos. Recebia ali quem quer que estivesse interessado em conversar com uma velha coruja, que Tchimbamba afirmava ser o espírito do lendário soba Caparandanda. A coruja, ou Caparandanda através dela, respondia a todo o tipo de questões, das mais domésticas e triviais às mais complexas e inusitadas, tendo Tchimbamba como tradutor

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O que disse Nadia

Ninguém lhe perguntava uma opinião, não lhes ocorria que ela pudesse dar-se ao luxo de ter ideias e juízos, servia apenas para cumprir ordens, lava isto, limpa aquilo, arruma aqueloutro, não te esqueças de dar alpista aos canários e de passear o cão

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Uma volúpia carmim
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Uma volúpia carmim

Consta que o bode tinha sempre muita sede. – É essa a lenda. Que o bode gostava de parar para beber cerveja no bar do Moreira. Havia sempre alguém disposto a pagar-lhe uma cerveja. Até tinham uma tigela com o nome dele, no chão, num canto do bar

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