Nem Tudo É Ficção

O exílio do senhor Palácios

Ivete lembrava-se dele quando ainda eram sete pessoas em casa, toda a gente falando ao mesmo tempo durante as refeições, e aquele silêncio sólido crescendo como uma nuvem negra à cabeceira da mesa

José Eduardo Agualusa José Eduardo Agualusa
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A menina que colecionava espantos

Desde bebé que Kalumba-Tubia conversa com vaga--lumes. Na verdade, com todo o tipo de animais, mas especialmente com aqueles capazes de voar. No início, os pais riam-se muito ao ouvi-la dialogar com os pássaros, os besouros e as borboletas. Depois, começaram a ficar preocupados. Um psicólogo tranquilizou-os: “Não há nada de errado com a menina. Conversar com os animais é uma forma que ela encontrou de estabelecer vínculos com o mundo que a rodeia”

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Meu amigo Waldemar

Nunca se calou. Nunca se deixou comprar, nem pelo regime, nem pela principal força da oposição. Ao mesmo tempo, foi apoiando sempre todas as iniciativas visando a pacificação e a democratização do país. Marchei ao lado dele, em manifestações que não reuniam mais de quinze almas inconformadas, e noutras, muito mais raras, entre centenas de pessoas

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A voz discordante

Maciel sentou-se no sofá, esquecido dos ovos que estalavam na frigideira: quem seria aquela mulher? Começou a imaginar rostos que se adaptassem a uma voz assim. Tinha de ser ruiva, com uma cabeleira em chamas e uns olhos azuis de fim de mundo. Durante 15 dias sonhou com ela

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Todos os domingos

Cada uma daquelas estátuas pretendia perpetuar a memória e a grandeza do projeto escravocrata. Ao mesmo tempo, assinalavam um vazio, pois erguiam-se por entre o triste silêncio dos humilhados e esquecidos. Não disse nada. Ficaram os dois calados, assistindo ao espetáculo da turba que, depois de atirar baldes de tinta vermelha contra o rosto da estátua, se afadigava agora a amarrar grossas cordas nas pernitas marmóreas da mesma

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A nova irrealidade

É verdade, sou tímido. Festas constrangem--me. Sou uma daquelas pessoas a quem o confinamento não desagradou, muito pelo contrário. Ou, pelo menos, eu pensava assim – até ontem. Vivi muitos anos em estado de semirreclusão. A mulher chamava-se Ingrid. – O que fazes? – perguntou-me. – Adivinha... – És professor de Matemática

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O amor mascarado

As ruas de Lisboa, agora desertas, limpas e desafogadas, pareciam mais largas. A cidade inteira resplandecia, lavada e escovada, sob um doce sol de primavera. À porta da padaria encontrou uma fila de umas dez pessoas, a rigorosos dois metros de distância umas das outras, todas equipadas com máscaras e luvas. À frente dele postava-se uma mulher elegante. Pedro costumava vê-la ali

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O domador de borboletas

Quando se sentia fatigada, a rainha estalava os dedos, e então as borboletas cobriam-na por inteiro, como uma cortina viva da mais pura seda, e ela, desaparecendo da vista dos presentes, reaparecia onde bem entendesse, a várias milhas de distância

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O encantador de cães

Na varanda, retorcendo o denso bigode com dedos grossos e nervosos, estava o sujeito a quem vendera Maroto. O encantador de cães não o reconheceu logo porque o homem que lhe comprara o perdigueiro vestia-se de preto severo, como um padre, e aquele vinha fardado e parecia mais alto e mais sólido

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Um terrível equívoco

Certa tarde, estando de passagem por Hamburgo, achou--se diante de uma manifestação de extrema-direita. Viu a sua gente avançar, uma multidão sólida, vestida de negro, gritando palavras ásperas, e, num impulso solidário, correu a juntar-se a ela. Infelizmente, o seu gesto foi mal-interpretado

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O intérprete de pássaros

Entrevistei Emanuel Divino Tchimbamba há alguns anos, num imenso mercado, entretanto desaparecido, da capital angolana. O antigo guerrilheiro montara uma pequena barraca, no coração do irrepreensível caos. Recebia ali quem quer que estivesse interessado em conversar com uma velha coruja, que Tchimbamba afirmava ser o espírito do lendário soba Caparandanda. A coruja, ou Caparandanda através dela, respondia a todo o tipo de questões, das mais domésticas e triviais às mais complexas e inusitadas, tendo Tchimbamba como tradutor

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O que disse Nadia

Ninguém lhe perguntava uma opinião, não lhes ocorria que ela pudesse dar-se ao luxo de ter ideias e juízos, servia apenas para cumprir ordens, lava isto, limpa aquilo, arruma aqueloutro, não te esqueças de dar alpista aos canários e de passear o cão

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Uma volúpia carmim
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Uma volúpia carmim

Consta que o bode tinha sempre muita sede. – É essa a lenda. Que o bode gostava de parar para beber cerveja no bar do Moreira. Havia sempre alguém disposto a pagar-lhe uma cerveja. Até tinham uma tigela com o nome dele, no chão, num canto do bar

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O escaravelho verde
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O escaravelho verde

“Alguns dos rapazes atravessaram o deserto. Dias ao sol. Noites ao frio. Sem comer, quase sem beber. E depois o mar, em lanchas rápidas, se você cai na água, você morre — já pensou? Eles viveram assim, com medo, sempre com medo, medo, muito medo, até desembarcarem em Espanha”

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O escaravelho verde
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O escaravelho verde

“Alguns dos rapazes atravessaram o deserto. Dias ao sol. Noites ao frio. Sem comer, quase sem beber. E depois o mar, em lanchas rápidas, se você cai na água, você morre — já pensou? Eles viveram assim, com medo, sempre com medo, medo, muito medo, até desembarcarem em Espanha”

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O triste fim de Jair Messias Bolsonaro
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O triste fim de Jair Messias Bolsonaro

Quer saber mesmo o que acho da Amazónia?! Quero que aquela merda arda toda! Aquilo é só árvore inútil, não tem serventia. Mas no subsolo há muito nióbio

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A árvore que engoliu o tempo
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A árvore que engoliu o tempo

Aquele é o tempo das árvores. Elas olham para nós e veem pequenos animais correndo rapidíssimos de um lado para o outro, envelhecendo e logo morrendo. Para uma mulemba, um homem é um inseto efémero

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O fantasma de Rita Hayworth
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O fantasma de Rita Hayworth

– O que faz você nos meus sonhos, Rita? – Perguntou, num inglês atormentado. – Não se iluda, meu jovem. – Respondeu--lhe a atriz, num espanhol perfeito. – Quase sempre, os sonhos dos homens são o pesadelo das mulheres

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Nem Tudo É Ficção

A melhor cama do mundo

Lá de cima avistou as luzes de uma casa, e a estradinha de terra batida que a ligava ao mundo. Conseguiu alcançar a picada, e em quinze minutos batia à porta. O proprietário, um homem mirrado, um pouco estrábico, estendeu-lhe uma mão desconfiada, dizendo chamar-se Alípio, e desculpando-se por não o poder alojar. A habitação era pequena e ele tinha seis filhas

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A imbondeira escandalosa
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A imbondeira escandalosa

Levou um escadote e dois assistentes. Tirou as medidas. Regressou duas semanas depois com um belo vestido, em cores vivas, do tipo “tomara que caia”, que se ajustou perfeitamente ao corpo da imbondeira, descendo sem uma ruga até quase alcançar o solo

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O homem que vê morrer o mar
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O homem que vê morrer o mar

Mário não vem apenas do mesmo país que eu – de resto, isso não diria muito sobre ele. Vem de uma mesma infância. Uma infância partilhada, isso sim, é intimidade

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