Nem Tudo É Ficção
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Nunca em Samarcanda

“Fui pessoa por distração”, pensou Zack, vendo os pássaros pulando de galho em galho. Preferia ter sido ave. Doíam-lhe nas costas as asas que não tivera

José Eduardo Agualusa
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A pedra do refúgio

Verdade seja dita que, quase sempre, quem quer que ganhe fica parecendo um pouco melhor do que o inimigo derrotado

José Eduardo Agualusa
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Tranças novas

Os jantares no amplo terraço, à luz de velas, das estrelas e do luar, eram um programa romântico, que atraia casais em início de namoro ou no último e desesperado estertor de uma relação conturbada

José Eduardo Agualusa
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O eco

Juvenal negou-se a fazer-lhe um aborto. Sugeriu-lhe, ao invés, que levasse a gravidez até ao fim e lhe entregasse o bebé

José Eduardo Agualusa
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Lúcia voltou para o mar

O psicólogo sentiu inveja da paciente. Lúcia queria ser mar. E, ele, o que queria ser? “Chame-a à realidade”, pedira--lhe Marina, a filha de Lúcia. “A realidade está muito sobrevalorizada”, retorquira Pedro, num tom de brincadeira. Nem ele estava a brincar nem Marina achara graça:– A minha mãe nunca conseguiu superar a morte do meu avô – murmurou. – Tenho receio do que possa fazer. Ultimamente diz que ouve vozes. As coisas falam com ela. – Que coisas?– Coisas que não têm boca: nuvens, morros, inclusive cores. Está completamente maluca.“Ela é mais lúcida do que todos nós”, pensou Pedro

José Eduardo Agualusa
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As cadeiras

Terminou dessa forma um casamento de mais de quarenta anos. O senhor Alberto Catuiti mudou-se, com duas malas tristes, para a Pensão Estrela, do outro lado da rua. Antes, exigiu que o dono da pensão mandasse retirar do seu quarto todas as cadeiras. O ódio dele às cadeiras vai ao ponto de só se sentar em bancos

José Eduardo Agualusa
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O vampiro de Berlim

O estúdio era um espaço apertado, com as paredes e o teto cobertos de garrafas, ampolas e outros recipientes de vidro, tudo isto iluminado por uma luz vermelha, quente e pesada, como a das antigas câmaras escuras

José Eduardo Agualusa
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Morrer de rir

Hoje, sabemos que a polícia ou o exército deveriam ter isolado a escola. Como não o fizeram, as meninas regressaram às suas casas, rindo, rindo, rindo, e contagiando no percurso muitos outros adolescentes e até alguns adultos. A epidemia saltou de Kashasha, espalhando-se rapidamente pelas aldeias e cidades mais próximas

José Eduardo Agualusa
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As musas do poeta

Sentou-se à sombra duma figueira-da-índia, que havia no quintal, a escrever o seu Parnaso. Dali podia ver Bárbara que, depois de matar a galinha, torcendo-lhe o pescoço, estava agora ocupada em escaldá-la para melhor a depenar. Fazia tudo isso com infinita graça e leveza, como se bailasse

José Eduardo Agualusa
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A cegueira dos rios

Estivera com ele horas antes do acidente, numa manifestação contra os imigrantes. Passaram duas horas bem passadas, gritando vivas a Portugal e morras aos ciganos, aos pretos e aos paneleiros. Depois que o povo dispersou, foram para uma tasca comer caracóis

José Eduardo Agualusa
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Os fantasmas do major Lussaty

Mesmo num país formado na corrupção, e conformado com ela, o Caso Lussaty espantava. O até então obscuro major, diretor financeiro da banda militar da Casa da Presidência, fora apanhado pela polícia com malas cheias de milhões de dólares

José Eduardo Agualusa
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O Artivista

Um artivista é um ativista que usa a arte como forma de protesto, certo? Ainda é um artista. Acontece que o senhor denuncia a falta de arte na arte conceptual, fazendo arte conceptual, ou seja, na sua lógica, não fazendo arte. Afinal, o senhor é um artista ou um vigarista?

José Eduardo Agualusa
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Organizo chuvas para os funerais

Riu-se, um riso macio, que lhe sacudiu alegremente as mamas gordas. Contou então que para o funeral do velho Firmino, o marido andara preparando durante três dias uma garoa fina, mas o que acabara ocorrendo fora uma chuva de gafanhotos, grandes como lagostas, que devoraram em poucos minutos tudo o que havia de verde na vila, incluindo os cabelos postiços da jovem viúva do falecido

José Eduardo Agualusa
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Cândido e salima

Grandes estórias de amor implicam sempre trágicos e dolorosos confrontos e desencontros, a subversão de regras e sistemas de pensamento. Raramente terminam bem. Esta termina. Sobretudo porque continua: à primeira filha, Cândido e Salima deram o nome da rainha portuguesa, Amélia. A partir dessa altura, em todas as gerações da família, passou a existir uma Amélia

José Eduardo Agualusa
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Ulisses voltou para casa

Ulisses abriu o livro, a medo, e começou a ler. Quando era menino, o pai lia para ele. O pai, sentado na cama, lendo para ele, é a melhor lembrança que tem. Não apenas a melhor lembrança do pai. A melhor lembrança de toda a sua vida

José Eduardo Agualusa
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O aroma das mangas

Sento-me num banco, diante do de Malan. Abro um livro, começo a ler um romance cubano e, seja pelo romance, que me leva para um outro mundo, muito diverso do meu, seja por estar tão próximo do antigo traficante, sinto que o tempo se expande e se dilui, como sal na água. A vida de Malan é um grande ruído acontecendo sem ruído, como os rios que correm sob a superfície da Lua. Antes de exercitar-se na arte de expandir o tempo, Malan correu atrás dele

José Eduardo Agualusa
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A escrava portuguesa de Mutu-ya-Kevela

Em criança, ouvi velhos colonos contarem inúmeras histórias de Samacaca. Dizia-se que os vendavais lhe obedeciam, assim como as serpentes, e que era capaz de se tornar invisível aos olhos dos inimigos. Em algum momento, perdeu as artes mágicas. Foi aprisionado em 1905 e deportado para a Guiné-Bissau, onde terá falecido. Até hoje existe um pano, do vestuário tradicional, que tem o seu nome

José Eduardo Agualusa
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Matulai, o vento Sul

A ilha é uma cápsula do tempo. Nada do que é presente nos alcança. Vez por outra, surgem turistas. Não lhes perguntamos de onde vêm, mas de quando. Naturalmente, vêm, todos eles, de algum instante no futuro

José Eduardo Agualusa
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O exílio do senhor Palácios

Ivete lembrava-se dele quando ainda eram sete pessoas em casa, toda a gente falando ao mesmo tempo durante as refeições, e aquele silêncio sólido crescendo como uma nuvem negra à cabeceira da mesa

José Eduardo Agualusa
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A menina que colecionava espantos

Desde bebé que Kalumba-Tubia conversa com vaga--lumes. Na verdade, com todo o tipo de animais, mas especialmente com aqueles capazes de voar. No início, os pais riam-se muito ao ouvi-la dialogar com os pássaros, os besouros e as borboletas. Depois, começaram a ficar preocupados. Um psicólogo tranquilizou-os: “Não há nada de errado com a menina. Conversar com os animais é uma forma que ela encontrou de estabelecer vínculos com o mundo que a rodeia”

José Eduardo Agualusa
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Meu amigo Waldemar

Nunca se calou. Nunca se deixou comprar, nem pelo regime, nem pela principal força da oposição. Ao mesmo tempo, foi apoiando sempre todas as iniciativas visando a pacificação e a democratização do país. Marchei ao lado dele, em manifestações que não reuniam mais de quinze almas inconformadas, e noutras, muito mais raras, entre centenas de pessoas

José Eduardo Agualusa
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