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Homo Inabilis

Opinião

Miguel Araújo

Tenho tanto sentido de orientação quanto o Stevie Wonder tem de visão. Para mim, saber onde fica o Norte, o mar, ou o Marshopping recorrendo apenas à intuição é como ter visão de raio X

D.R.

Eu não teria qualquer hipótese sobre este terceiro calhau a contar do Sol se tivesse nascido numa qualquer outra época que não esta. Nem sei como é que o meu cocktail genético durou até mim. Muitos esquizofrénicos pensam que o mundo conspira contra eles, sentem-se perseguidos por marcianos ou russos, estão convencidos de que todo o emaranhado de ocorrências desde o big-bang até à sua existência concorre no sentido de os prejudicar. Eu devo ter alguma coisa desse género mas ao contrário, pois parece-me claro que no meu caso se dá o oposto. O domínio do Homem sobre o fogo, sobre a roda, sobre a Bimby, tudo no sentido de me aligeirar a existência. O meu pai ainda teve de estar à altura da virilidade de macho que a sociedade lhe exigia. Ainda teve de subir a telhados, há de ter rachado lenha desengonçadamente. Conduziu tratores quando jovem, fez aquelas coisas de homem para as quais a nossa configuração genética de família não se apresenta especialmente dotada. As pessoas da minha família são desajeitadas, inábeis. Vai daí o mundo pega e torna essas virtudes viris como esfolar alces com as próprias mãos ou orientar a antena do telhado perfeitamente esquivas para o homem moderno. Safo-me com umas idas ao supermercado. Cumpro com o que a sociedade me exige metendo meia dúzia de taças de pequeno-almoço na máquina. Outra coisa: eu não possuo sentido de orientação. Não se trata de ter pouco, ou de ser mau. Trata-se de uma ausência total. Tenho tanto sentido de orientação quanto o Stevie Wonder tem de visão. Para mim, saber onde fica o Norte, o mar, ou o Marshopping recorrendo apenas à intuição é como ter visão de raio X ou lançar teias de aranha pelos punhos. Durante toda a história do nomadismo humano, essa era uma faculdade necessária para medrar enquanto indivíduo, para deixar genes.

Nem imagino com que artes os Araújos duraram até mim. A primeira vez que eu marquei um encontro com uma potencial parceira, arranquei na minha bicicleta e nunca cheguei a casa dela, não dei com o destino. Mas pouquíssimo tempo depois a Humanidade apresentou o GPS e essa faculdade passou a ser tão pertinente quanto a de construir uma casa de colmo, galhos e pedra com as próprias mãos. Nunca na vida me envolvi numa rixa física, nem na escola. Pessoas como eu eram enviadas para seminários, antigamente. Sou desajeitado, deixo cair coisas das mãos, pessoas como eu acabavam enfiadas em sótãos húmidos a escrever sonetos. Entretanto apareceram as comédias românticas com o Hugh Grant, legitimando e até promovendo a espécie. O meu tio Manuel teorizou que as pessoas da nossa família têm pernas finas e o sentido de orientação de uma cavala porque os nossos antepassados seguiam para todo o lado em liteiras, aristocraticamente mirrando os músculos das pernas e da orientação, de geração em geração, conduzidos por antepassados plebeus de pernas sãs que sabem como é que se vai para todo o lado. É uma maneira engraçada de tentar inventar um passado nobre que não é verdadeiro. O que eu sei como certo é que o mundo se uniu para ir mitigando o desajuste destas minhas falhas genéticas, ante a impossibilidade de as mitigar a elas próprias, fazendo de mim um indefetível otimista e, modéstias à parte, que já não seja tão bizarro assim que os Araújos tenham durado pelo menos até aos meus filhos.

(Crónica publicada na VISÃO 1380 de 15 de agosto)

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