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O deserto

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Capicua

Num momento especialmente sensível, em que as alterações climáticas são uma evidência e as suas consequências ameaçam ser catastróficas a curto prazo, Bolsonaro ataca o pulmão do planeta, autorizando o desmatamento massivo da floresta-mãe

Getty Images

Quando Bolsonaro foi eleito Presidente do Brasil tornaram-se inevitáveis as comparações com Trump. Partilhavam o despreparo, o estilo boçal, o populismo, os tiques antidemocráticos, a alergia à Imprensa livre, entre muitos outros “atributos”. O paralelismo era evidente. Mas lembro-me de ouvir muitas vezes que o impacto de Trump seria sempre pior para o mundo, pela importância dos EUA na geopolítica internacional, e pelo perigo que constituía ter um lunático tão perto do botãozinho vermelho do apocalipse.

Essa perspetiva otimista sempre me pareceu ingénua. Bolsonaro não seria menos perigoso para o mundo do que Trump, por uma simples e incontornável razão: a Amazónia. Meses depois, é claro (ou deveria ser) que o poder de Bolsonaro está a pôr em risco a sobrevivência da Humanidade.

Num momento especialmente sensível, em que as alterações climáticas são uma evidência e as suas consequências ameaçam ser catastróficas a curto prazo, Bolsonaro ataca o pulmão do planeta, autorizando o desmatamento massivo da floresta-mãe. É o regabofe do minério, dos madeireiros e do agronegócio e o mais duro golpe, não apenas na preservação da Amazónia enquanto ecossistema mas também enquanto território indígena.

Ao desmantelar as leis de proteção ambiental e ao passar a gestão das reservas indígenas para a jurisdição do Ministério da Agricultura, Bolsonaro entregou o ouro nas mãos do bandido e deixou a sobrevivência das comunidades à mercê dos interesses ruralistas. O resultado está à vista: conflitos entre a população e as autoridades, despejos de tribos inteiras, mortes, tudo para abrir caminho às máquinas que ceifam a floresta. Só em junho, uma extensão superior a 100 mil campos de futebol foi desflorestada (num aumento de 60% em relação ao mesmo período no ano anterior) e não há grandes perspetivas de que se consiga travar o avanço da devastação, pela ganância irresponsável do governo de Bolsonaro e pelo aparente silêncio da comunidade internacional.

O Brasil é o país do mundo onde mais se matam ambientalistas. Sai caro levantar a voz contra os grandes interesses extrativistas, numa economia muito baseada na exportação de matérias-primas e na agricultura intensiva de larguíssima escala. O perigo é proporcional ao negócio e à extensão da maior floresta do mundo. E enquanto países como a Etiópia dão o exemplo, investindo na plantação de milhões de árvores, os negacionistas das alterações climáticas continuam a governar gigantes com o impacto do Brasil e dos EUA.

O plantio massivo de árvores é apontado por vários estudos científicos como a estratégia mais eficaz para controlar a subida da temperatura do planeta, e é urgente que os Estados comecem a compensar as suas emissões com o reforço das áreas florestais. O caminho é esse. Ir em sentido contrário a tudo o que Bolsonaro representa. Principalmente em matéria ambiental. Deixando claro que, apesar de a Amazónia estar (na sua maior parte) em território brasileiro, ela é património da Humanidade, é vital para a nossa sobrevivência e é nossa responsabilidade.
É muito irónico lembrar que os brasileiros herdaram o nome de brasileiros dos extratores de pau-brasil. O sufixo eiro denuncia a ligação ao ofício. Não fosse essa relação histórica do Brasil com o comércio de madeira (a sua primeira exportação), os brasileiros seriam brasilianos (como são em inglês – brazilian, ou em francês – brésilien). Mas ainda que fosse mais intuitivo gramaticalmente, outro sufixo não seria tão apropriado, já que a construção do Brasil enquanto país passou sempre pela exploração da sua maior riqueza, a floresta.

Como escrevia Sepúlveda, num dos mais belos romances sobre a Amazónia, é na devastação da floresta que se constrói a “obra-prima 
do homem civilizado” – o deserto

(Crónica publicada na VISÃO 1379 de 8 de agosto)

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