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A direita não está a ver bem o filme

Opinião

Octávio Lousada Oliveira

Lucília Monteiro

O problema mais profundo do PSD não é o recentramento defendido por Rio, do mesmo modo que o drama maior do CDS não radica na descafeinação ideológica preconizada por Cristas. Ambos, em proporções diferentes, são responsáveis e vítimas de um desfasamento absoluto entre o projeto de poder da direita e os anseios dos portugueses

A 6 de outubro, quando os portugueses escolherem os 230 deputados que os vão representar na próxima legislatura, aos partidos de centro-direita restará um de dois cenários: o da irrelevância relativa ou o da irrelevância absoluta. A crise diagnosticada pelo Presidente da República, de forma mais maliciosa do que arguta, nem sequer é nova, mas antevê-se dramática.

Quatro anos após António Costa, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa terem derrubado um muro que parecia intransponível, ninguém sabe ao certo a fórmula de poder que virão a adotar ou, tão-pouco, quanto valerá cada peça da chamada geringonça. Ora, ainda que, individualmente, encaremos as sondagens com o mesmo ceticismo com que olhamos para a meteorologia, a tendência – materializada nos últimos atos eleitorais – é evidente: o centro-direita português tem uma base social de apoio cada vez mais estreita e menos participativa.

Seduzida pela estratégia de reversão dos cortes feitos pelo Governo anterior e pela retórica do atual Executivo de que a austeridade é coisa do passado, a grande maioria dos eleitores mostra-se, hoje, indisponível para aderir às ideias do PSD e do CDS (ou de qualquer força constituída mais recentemente). De igual modo, inebriada pela descompressão e pelo facilitismo que a sociedade Marcelo & Costa trouxe ao País, a população não tem ouvidos nem paciência para propostas políticas que não sejam “grátis”, “fáceis” e “imediatas”.

O grande desafio da direita deixou de ser conjuntural. O problema mais profundo do PSD não é o recentramento estratégico defendido por Rui Rio, do mesmo modo que o drama maior do CDS não radica na descafeinação ideológica preconizada por Assunção Cristas. Ambos os líderes, em proporções diferentes, são concomitantemente responsáveis e vítimas de um desfasamento absoluto entre o projeto de poder da direita e os anseios dos portugueses.

Responsáveis porque indiferentes a que alguns dos seus insinuem reiterada e demagogicamente que António Costa é uma versão 2.0, light ou sem glúten, de José Sócrates. Responsáveis, sobretudo Rio, porque coniventes com caciquismos, ajustes de contas internos ou guerras aparelhísticas que não merecem mais do que a repulsa do português comum. Responsáveis, maioritariamente Rio, porque tolerantes com práticas - se não ilegais -, pelo menos, imorais. Responsáveis porque enleados e inertes no combate cultural que esquerda e direita têm vindo a travar. Responsáveis porque incapazes de apresentar reformas que não cedam a lóbis ou grupos de pressão que abocanham as grandes parcelas das folgas orçamentais que o crescimento económico tem vindo a originar. Responsáveis, especialmente Rio, porque incapazes de se apresentarem a eleições com um programa político que leve alguém pragmaticamente a sonhar.

No entanto, Rio e Cristas são também vítimas de um tempo de desafogo, depois da violência do ajustamento financeiro da troika; vítimas das elites intelectuais e da opinião publicada que não os consideram dignos dos lugares a que ascenderam; e vítimas das excisões na própria direita e dos seus combates intestinos em nome de uma qualquer pureza ideológica.

É da História: PSD e CDS foram sempre casas comuns de diversas correntes de pensamento. Nas suas fileiras, coabitaram sociais-democratas, liberais, conservadores e democratas-cristãos. Nas suas hostes, federaram massa crítica suficiente para que hoje, sendo livres, não precisassem de pactuar com amoralismos; para que, apesar de conservadores, dispensassem ser reacionários; para que, modernos e cosmopolitas, recusassem olhar para a cultura popular com sobranceria; para que, citadinos e privilegiados, não observassem a exiguidade do campo como uma excentricidade remota; para que, apologistas da meritocracia, não desdenhassem o papel reparador do Estado; para que, opondo-se a uma sociedade confessional, não condescendessem com radicalismos ateus ou novos mata-frades; para que, valorizando o europeísmo e a globalização, não abdicassem de ser patriotas.

Mais do que o facto de a direita que há não suportar a direita que está – e de a querer despachar a partir de 7 de outubro -, o processo de decantação doutrinário em que muitos se empenham vai revelar-se autofágico. Em busca de outros protagonistas e de novas mensagens, que ninguém sabe exatamente quais serão, essa direita comete um erro de cálculo. Um olhar mais cuidado sobre as sondagens permite antever que o combate da direita será consigo própria, pois há muito a esquerda (mais PAN) ultrapassou a maioria das intenções de voto dos portugueses.

Perante a inevitabilidade de um score historicamente negativo, sobra ao PSD e ao CDS – com a ajuda da Aliança ou da Iniciativa Liberal – minimizar os estragoss e evitar que os seus adversários atinjam, conjuntamente, dois terços dos deputados (154). Simplificando, precisam de 77 mandatos parlamentares para evitarem a irrelevância total.

Se assim não for, António Costa, Catarina Martins, Jerónimo de Sousa e até André Silva terão nas mãos a oportunidade, porventura irrepetível, de reverem a Constituição sem que qualquer personalidade do outro lado do hemiciclo possa intervir. E, já agora, nem a Marcelo Rebelo de Sousa valeria o poder da palavra ou as acrobacias mediáticas que a popularidade lhe permite: qualquer veto presidencial, num quadro como o que descrevo, seria facilmente ultrapassável pelam maioria parlamentar. Assim os seus líderes o entendessem.

Sejamos claros. Não é a direita que está em causa, é o sistema democrático, tal como foi arquitetado no pós-Revolução de Abril. A direita, qualquer que seja, não está a ver bem o filme.

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Octávio Lousada Oliveira

Octávio Lousada Oliveira

Jornalista

Jornalista