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Porque não devemos gostar d’Os Quatro e Meia

Se forem tocar à sua terra, não faça caso, evite, tape os olhos e os ouvidos. Não vá, por algum azar, calhar de entrar e ficar arrepiado do princípio ao fim

D.R.

Quem? Os Quatro e Meia. São uma banda de Coimbra. Decore este nome, caro leitor, pois deverá esquecê-lo urgentemente. Porque é uma banda, um conjunto de música popular portuguesa, digamos assim, que deverá merecer o nosso mais ativo e altivo desprezo. Eles são o Tiago, o Ricardo, o João, o Mário, o Pedro e o Rui. A maioria deles são médicos do Hospital de Coimbra, mas também há por lá engenheiros, gente cujos ofícios a tempo inteiro lá lhes permitem algum tempo livre para brincarem às cantigas. Irritante, portanto. Mas não é tanto por isso que devemos desprezá-los. Têm um disco editado, apenas um, chamado Os Pontos nos Is. Há dias, subiram ao palco do Coliseu do Porto, uma das mais prestigiadas e cobiçadas salas deste país, cujo acesso por mérito próprio representa o dourado Shangri-la a que todo o artista nacional, íntima ou abertamente, ambiciona ascender um dia. Isto, sim, já é bastante irritante. Fizeram-no sem o apoio das rádios, sem o apoio da imprensa (pouca, cada vez mais pouca) especializada deste país, sem pertencer à “engrenagem”. Apenas com um punhado de canções, de apenas um só álbum, o de estreia, que foram cantadas do princípio ao fim por uma legião de pessoas de várias idades que acorreu a essa sala, esgotando-a como poucas vezes vi, vinda de vários pontos do País, sabe-se lá como, sabe-se lá porquê. Isto vai contra todos os cânones.

Não era suposto. Repito: Os Quatro e Meia fizeram, com um só disco, o que a maioria dos artistas portugueses não chega a fazer nunca. Decore este nome para se lembrar de o esquecer de imediato. Nós, caro leitor, somos pessoas sofisticadas, urbanas. Sabemos tudo que há para saber sobre o Tony Wilson e a “Madchaster” Scene, recitamos de cor a história da Sub Pop Records, sabemos tudo sobre a cena de Seattle, mandávamos vir das lojas mais sofisticadas os discos mais refundidos dos Green River e dos Melvins, sabíamos vestir-nos a preceito. Os Quatro e Meia são de Coimbra e demonstram em palco uma perícia vocal, instrumental e criativa irrepreensível, cultivada provavelmente em anos de pertença a uma tuna académica. Coitados, não tinham como escapar, a Universidade de Coimbra é das mais antigas do mundo e a tradição das tunas é mais do que centenária. É-lhes próxima, natural. E mais, dá a sensação de que só ouviram música portuguesa, que aparentam venerar. E nós, pessoas sofisticadas e urbanas que somos, não podemos perdoar tal coisa. Ninguém pode ir tocar ao Coliseu do Porto assim, muito menos com um só disco, muito menos com uma música portuguesa, popular, de tradição académica, sem aparente contaminação por parte da cultura americana que o caro leitor e eu tanto aprendemos a venerar. Muito menos com aquilo cheio como um ovo. Muito menos sem o aval dos especialistas na matéria. Muito menos a cantar daquela maneira, com umas harmonias vocais sem falhas, com aquela instrumentação exímia, tão fora da ortodoxia a que o caro leitor e eu aprendemos a assimilar como nossa, moderna e pertinente, válida. Decore: Os Quatro e Meia. Agora esqueça este nome. Se forem tocar à sua terra, não faça caso, evite, tape os olhos e os ouvidos. Não vá, por algum azar, calhar de entrar e ficar arrepiado do princípio ao fim e, pior ainda, reconciliar-se com a infância que passou a adolescência toda a querer não ter tido. Como se de repente lhe pusessem um espelho à frente e, de súbito, como que por milagre, a imagem devolvida não fosse tão hedionda como a gente passou a vida toda a supor.

(Crónica publicada na VISÃO 1343 de 29 de novembro)